quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mistério por Max Nunes



Cena: biblioteca de filme policial inglês.

Tarde da noite. Senhor de cachimbo, em sua cadeira giratória, livro na mão, sem prestar atenção ao que a criada vem-lhe dizer.

Criada (absolutamente calma): − Patrão, tem um morto dentro da geladeira.

Senhor: − O quê?

Criada:  − Tem um morto dentro da geladeira.

Senhor: − Alguém deixou a porta da geladeira aberta e ele entrou.

Criada:  − Patrão, o senhor ouviu o que eu disse? Tem um morto dentro da geladeira.

Senhor: − Outro?

Criada:  − É o mesmo, patrão. O que é que eu faço?

Senhor: − Com o quê?

Criada:  − Com o morto que está dentro da geladeira.

Senhor: − Deixa lá. Com o calor que está fazendo, tirando de lá, estraga.

Criada: − O senhor não quer que eu chame a polícia?

Senhor: − Polícia? Pra quê?

Criada: − Tem um morto dentro da geladeira.

Senhor: − Outro?

Criada: − É o mesmo, patrão. O que é que o senhor quer que eu faça?

Senhor: − Eu estou com um pouco de fome. Faça só um franguinho na manteiga.

Criada: − Franguinho? Onde é que eu vou arranjar frango a esta hora, patrão?

Senhor: − Tem um morto dentro da geladeira.


Conselho

Quedas que um homem deve evitar

Cair em tentação.
Cair em depressão.
Cair em contradição.
Cair numa esparrela.
Cair na compulsória.
Cair na boca do povo.
Cair na farra.
Cair em si.
Cair de quatro.

Cuidados

Há certas coisas na vida
que a gente não pode deixar passar.
Principalmente se for goleiro.

Epitáfio

Num cemitério, sobre uma laje:

Foste um mau pai.
Foste um mau marido.
Foste um mau filho.
Foste um mau amigo.
Foste um mau irmão.
Foste um mau cristão.
Enfim: foste!

Invenções

O discreto inventou as reticências.
O fofoqueiro inventou as aspas.
O cético, a interrogação.
O complicado inventou o trema.
O escandaloso, a exclamação.
A mosca inventou a cedilha.
E o sem-assunto inventou o ponto final.
Do qual eu me valho agora.

(Textos de Max Nunes)




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