sexta-feira, 10 de março de 2017

O inferninho e o Gervásio


Stanislaw Ponte Preta



O cara que me contou esta história não conhece o Gervásio, nem se lembra quem lhe contou. Eu também não conheço o Gervásio nem quem teria contado a história ao cara que me contou, portanto, conto para vocês, mas logo vou explicando que não estou inventando nada.

Deu-se que o Gervásio tinha uma esposa desses ditas “amélias”, embora gorda e com bastante saúde. Porém, Madame Gervásio não era de sair de casa, nem de muitas badalações. Um cineminha de vem em quando e ela ficava satisfeita.

Mas deu-se também que o Gervásio fez 25 anos de casado e baixou-lhe um remorso meio chato. Afinal, nunca passeava, a coitada, e, diante do remoer de consciência, resolveu dar uma de bonzinho e, ao chegar em casa, naquele fim de tarde, anunciou:

‒ Mulher, mete um vestido melhorzinho que a gente vai jantar fora!

A mulher nem acreditou, mas pegou a promessa pelo rabo e foi se empetecar. Vestiu aquele do casamento da sobrinha e se mandou com o Gervásio para Copacabana. O jantar ‒ prometia o Gervásio ‒ seria da maior bacanidade.

Em chegando ao bairro que o Conselheiro Acácio chamaria de “floresta de cimento armado”, começou o problema da escolha. O táxi rodava pelo asfalto e o Gervásio ia lembrando: vamos ao Nino's? Ao Bife de Ouro? Ao Chauteau? Ao Antonio's? Chalet Suisse? Le Bistrô?

A mulher ‒ talvez por timidez ‒ ia recusando um por um. Até que passaram em frente a um inferninho desses onde o diabo não entra para não ficar com complexo de inferioridade. A mulher olhou o letreiro e disse:

‒ Vamos jantar aqui.

‒ Aqui??? ‒ estranhou Gervásio. ‒ Mas isto é um inferninho!

‒ Não importa ‒ disse a mulher. ‒ Eu sempre tive curiosidade de ver como é um negócio desses por dentro.

O Gervásio ainda escabriu um pouquinho, dizendo que aquilo não era digno dela, mas a mulher ponderou que ele a deixara escolher e, por isso, era ali mesmo que queria jantar. Vocês compreendem, né? Mulher-família tem a maior curiosidade para saber como é que as outras se viram.

Saíram do táxi e, já na entrada, o porteiro do inferninho saiu-se com “Boa-noite, Dr. Gervásio” marotíssimo. Felizmente a mulher não ouviu. O pior foi lá dentro, o maitre d'hotel abriu-se no maior sorriso e perguntou:

‒ Dr. Gervásio, a mesa de sempre? ‒ e foi logo se encaminhando para a mesa de pista. Gervásio enfiou o macuco no embornal e aguentou as pontas, ainda crédulo na inocência da mulher. Deu uma olhada para ela, assim como quem não quer nada, e não percebeu maiores complicações. Mas a insistência dos serviçais de inferninho é comovedora. Já estava o garçom ali ao pé do casal, perguntando:

‒ A senhorita deseja o quê? ‒ e, para o Gervásio: ‒ Para o senhor o uísque de sempre, não, Dr. Gervásio?

A mulher abriu a boca pela primeira vez, para dizer:

‒ O Gervásio hoje não vai beber. Só vai jantar.

‒ Perfeito ‒ concordou o garçom. ‒ Neste caso, o seu franguinho desossado, não é mesmo?

O Gervásio nem reagiu. Limitou-se a balançar a cabeça, num aceno afirmativo. E, depois, foi uma dureza engolir aquele frango que parecia feito de palha e matéria plástica. O ambiente foi ficando muito mais para urubu do que para colibri, principalmente depois que o pianista veio à mesa e perguntou se o Dr. Gervásio não queria dançar com sua dama “aquele samba reboladinho”.

Daí para o fim, a única atitude daquele marido que fazia 25 anos de casado e comemorava o evento foi pagar a contar e sair de fininho. Na saída, o porteiro meteu outro “Boa-noite, Dr. Gervásio”, e abriu a porta do primeiro táxi estacionado em frente.

Foi a dupla entrar na viatura e o motorista, numa solicitude de quem está acostumado a gorjetas gordas, querer saber:

‒ Para o hotel da Barra, doutor?

Aí ela engrossou de vez:

‒ Seu moleque, seu vagabundo! Então é por isso que você se “esforça” tanto, fazendo extras, não é mesmo? Responde, palhaço!

O Gervásio quis tomar uma atitude digna, mas o motorista encostou o carro, que ainda não tinha andado cem metros, e lascou:

‒ Dr. Gervásio, não faça cerimônia: o senhor querendo eu dou umas bolachas nessa vagabunda, que ela se aquieta logo.


*****


Fonte: SANTOS, Joaquim Ferreira (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 126-128.


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