quinta-feira, 23 de março de 2017

Poemas de Maria Alberta Menéres


Havia um peixe no ar,
um papagaio no mar,
uma lâmpada no olhar,
um cogumelo a chorar.

‒ Mãe, em que história seria?

A princesa na floresta
bebia orvalho e cantava,
de sua boca tombando
o que de sonho tombava.

‒ Mãe, em que história eu fugia?

Doze anões e uma antiga
branca de neve, quem sabe?
Havia um gato de botas
onde o meu pé já não cabe.

‒ Mãe, em que história aparecia?

Ah, montanhas de cristal
onde um cavalo espantava
e um espelho que tudo via
mil respostas me não dava.

‒ Mãe, em que história eu dormia?

Os dois irmãos

Eu conheço dois meninos
que em tudo são diferentes.
Se um diz: “Dói-me o nariz!”
o outro diz: “Ai, meus dentes!”

Se um quer brincar em casa,
o outro foge para o monte;
e se este a casa regressa,
já o outro foi para a fonte.

É difícil conviver
com tanta contradição.
Quando um diz: “Oh, que calor!”
“Que frio!” – diz o irmão.

Mas quando a noitinha chega
com suas doces passadas,
pedem à mãe que lhes conte
histórias de Bruxas e Fadas.

E quando o sono esvoaça
por sobre o dia acabado,
dizem “Boa noite, mãe!”
e adormecem lado a lado.


As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.
                              
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.


Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro (Portugal, 1930) nasceu na cidade de Vila Nova de Gaia. É professora, jornalista e escritora. Sua obra inclui poesia, contos, histórias em quadrinhos,  teatro, novelas, e adaptação de clássicos da literatura.

Maria Alberta Meneres, de seu nome completo Maria Alberta Rovisco Garcia Meneres de Melo e Castro nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1930.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do ensino secundário e colaborou em diversas publicações nomeadamente Távola Redonda, Diário de Notícias, Cadernos do Meio-Dia e Diário Popular, tendo neste último sido responsável, durante dois anos, pela secção Iniciação Literária.

A sua primeira obra data de 1952 e intitula-se Intervalo, tendo sido premiada, em 1960, com o seu livro Água-Memória, no Concurso Internacional de Poesia Giacomo Leopardi.

Maria Alberta Meneres tem dedicado grande parte da sua obra à literatura infantil e juvenil e produziu nesta área programas de televisão, sendo em 1975 sido nomeada chefe do departamento de programas infantis e juvenis da RTP.

Ao longo da sua carreira tem recebido inúmeros prêmios nomeadamente o Prêmio de Literatura Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1981. Em colaboração com Ernesto de Melo e Castro, organizou, em 1979, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa.



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