domingo, 8 de junho de 2014

Madureira chorou

Por quem Madureira chorou

João Carlos Lopes dos Santos


É aqui que entra Zaquia Jorge. No final dos anos 50, eu tinha uns 15 anos. Sempre que passava pelo bairro de Madureira, local de comércio forte, espichava os olhos para a fachada do Teatro de Revista Madureira, que ficava em frente à Estação que lhe emprestava o nome. Na fachada, eram exibidas várias fotos das vedetes em trajes, então, ditos sumários.

Além de bela e talentosa atriz, Zaquia Jorge era também a dona do teatro, uma vedete do teatro rebolado, que usava uns maiôs inteiros, um verdadeiro escândalo na época, mas que, se hoje usássemos o mesmo pano, daria para fazer uns quatro biquínis para as senhoras mais distintas da nossa sociedade.

No dia 22 de abril de 1957, uma fatídica segunda-feira, tradicional dia de folga dos artistas de teatro, Zaquia foi à praia da Barra da Tijuca, então selvagem e deserta, para um banho de mar. Nesse dia, aos 32 anos, Zaquia Jorge, uma belíssima e talentosa morena de sangue árabe, morreu afogada. 

Mudaram o nome do teatro para Teatro Zaquia Jorge, que tempos depois fechou as portas, de certo, sentindo a falta da grande estrela.

Era Joel de Almeida quem cantava «Madureira Chorou», batucando em seu chapéu de palha dura, esse samba exaltação, esse panegírico post-mortem de Carvalhinho e Júlio Monteiro, lançado para o carnaval de 1958, homenageando a bela Zaquia.


(Zaquia Jorge em 1957)

Madureira chorou

Samba

Carvalhinho e Julio Monteiro (Júlio Leiloeiro, marido de Zaquia)

Gravado em 1.958, por Joel de Almeida.

Madureira chorou,
Madureira chorou de dor,
Quando a voz do destino,
Obedecendo ao divino,
A sua estrela chamou.
(bis)

Gente modesta,
Gente boa do subúrbio,
Que só comete distúrbio,
Se alguém menosprezar,
Aquela gente,
Que mora na Zona Norte,
Até hoje, chora a morte,
Da estrela do lugar...

Edição do jornal O Globo de 23 de abril de 1957
assim noticiou a morte de Zaquia Jorge:

Rapidamente, a notícia foi propagada, e grande número de atores da Companhia da Revista Zaquia Jorge e de outras empresas chegou ao local. Em poucos instantes as brancas areias da praia foram pisadas por centenas de pés, já que também foi grande o número de curiosos que acorreu.

Quando um guarda-vidas retirou, do perau em que caíra, o corpo da vedete, Celeste Aída, uma das que a acompanhavam, abraçou-se ao cadáver, chorando copiosamente. Celeste Aída vira a amiga desaparecer e tudo fizera para salvá-la, não o conseguindo porque era muito fundo o perau. Enquanto ela se esforçava, os dois homens que integravam o grupo e que estavam longe aproximaram-se. Na areia, muito assustadas, cinco girls assistiam à luta de Celeste Aída, sem poder ajudá-la.

Afinal, cansada e desanimada, Celeste Aída voltou às areias, Zaquia Jorge desaparecera e, quando foi encontrada, já estava quase sem vida. Morreu pouco depois.

O presidente da República pretendia comparecer pessoalmente aos funerais da atriz Zaquia Jorge, ontem falecida tragicamente, numa homenagem à empresária que criou o teatro profissional nos subúrbios cariocas. Todavia, tarefas imprevistas, no Palácio do Catete, frustraram o seu propósito, pelo que o chefe do governo se fará representar no sepultamento da artista.

Foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier, pranteada por artistas e populares, que a reverenciaram como a pioneira do teatro suburbano carioca. Das 6h às 16h30min de ontem, mais de 4.000 pessoas afluíram ao Teatro de Madureira, em cujo palco ficou exposto o corpo da artista. Com a platéia e os balcões apinhados, o ambiente fazia lembrar um grande dia de récita. Contudo, a emoção do público era intensa, guardando os presentes muito respeito.

No palco, no alto, por cima do caixão de Zaquia Jorge, havia um grande quadro de São Jorge. A artista morrera na véspera do dia consagrado ao santo. Ontem fazia cinco anos que inaugurara seu teatro, com a peça “Trem de luxo”, de Válter Pinto e Freire Júnior. Sobre uma fileira de dez cadeiras havia dezenas de coroas entre elas, do Teatro Santana (São Paulo), do Corpo de Bombeiros, das escolas de samba Sampaio e Império Serrano, de inúmeras entidades e figuras da arte e de outros setores. O povo humilde do subúrbio formou filas, subindo ao palco para dar seu último adeus a Zaquia Jorge.

Na porta, o trânsito estava impedido na Rua Carolina Machado. Próximo ao caixão da vedete, amigas de ribalta e sua família dali não se arredaram, derramando lágrimas sentidas. Em pé, de bruços sobre o rosto frio da mãe, seu filhinho - Humberto, de 12 anos -, naturalmente inconsolável".

Zaquia Jorge é hoje nome de rua, na Ilha do Governador.

P.S.: No filme “O Baile”, de Etore Scola, ela é cantada, com muita alegria, com o nome francês de “Si tu vas a Rio”.


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