domingo, 1 de junho de 2014

Texto de Flávio Rangel


EU SEI QUE VOU TE AMAR...
POR TODA A MINHA VIDA EU VOU TE AMAR...
NÃO VEM QUE NÃO TEM!

Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Ó lugar! Ó lugar! Tenho uma casinha lá na Marambaia: fica na beira da praia, só vendo que beleza. Cuando calienta El sol, en aquella playa, o Brasil fica vazio na tarde do domingo, Né? Domingo é dia de pescaria, e lá vou eu, de caniço e samburá. Valha-me Deus, Nosso Senhor do Bonfim! Nunca jamais se viu tanto peixe assim.

Um belo dia, a gente entende que ficou sozinho, vem a vontade de chorar baixinho: eu estava à toa na vida, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante surpresa tão rude, nem sei como pude chegar ao portão. Seu bilhete assim dizia:

– Não posso mais: eu quero é viver na orgia.

Pois é. Falaram tanto, que a morena foi embora. Disseram que eu voltei, americanizada. Falam de mim, falam de mim, mas eu não ligo. Só o meu passado foi lama, hoje quem me difama viveu na lama também. Todos dizem que eu bebo demais, todos dizem que eu falo demais e que guio meu carro depressa demais, mas sou bem feliz assim; muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim.

E agora? O que será de minha vida sem o teu amor, da minha boca sem os beijos teus, da minha alma sem o teu calor? Que será na luz difusa do abajur lilás? Sei lá não sei: sei lá não sei não. Nosso amor que eu não esqueço, e que teve seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete. Ai, que saudade! Que vontade de ver nosso amor renascer. Volta, querida; os meus braços precisam dos teus, teus abraços precisam dos meus. Estou tão sozinho. Cara, te voglio tanto bene! Só quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo o mais vá pro inferno.

– Bom dia amigo. Que a paz seja contigo. Eu vim somente para dizer que te amo tanto que eu vou morrer.

– Ah, já tá naquela de voltar? Agora fica na tua que é melhor ficar. Porque vai ser fogo me aturar. Vou deitar e rolar.

– A vida é arte do encontro, e há tanto desencontro pela vida...

– Taí. Eu fiz tudo pra você gostar de mim. Agora reza pro nosso amor, que já chegou, ô ô ô, ao fim. Quem é, quem é você pra me fazer sofrer assim?

– Ah, se eu soubesse naquele dia o que eu sei agora! Eu não seria este ser que chora, eu não teria perdido você!

– Ouça, vá viver a sua vida com outro bem; hoje já cansei de pra você não ser ninguém.

– Daqui pra frente tudo vai ser diferente!

– Você vai aprender a ser gente?

– You’re the top; you’re the Tower of Piza.

– Mulher! Ai, ai, mulher! O nosso amor deu no que deu. Você me abraça, me beija, me xinga, me bota mandinga...

– Hoje eu volto vencida pedir pra ficar aqui; meu lugar é aqui, faz de conta que eu não saí.

– Helena! Helena! Helena! Eu ontem cheguei em casa, Helena, te procurei e não te encontrei, fiquei tristonho a chamar: “Acorda, patativa, vem ouvir o meu cantar!”

– Dá-me tuas mãos: os teus lábios eu quero beijar onde está, onde está o teu carinho, onde está você?

– Só porque és rica e elegante, queres que eu seja teu amante? Prefiro as curvas da estrada de Santos.

– Deixa o coração falar também, que ele tem razão demais quando se queixa; deixa, deixa, deixa!

– Acabou nosso carnaval: pelas ruas, o que se vê é uma gente sem se ver. Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião.

– Eu sei que eu vou te amar... por toda a minha vida eu vou te amar...

– Sabe você o que é o amor? Não sabe, eu sei. Sabe andar de madrugada, tendo a amada pela mão. Qual sabe o que, qual sabe nada, sabe não.

– Se é tarde, me perdoa... é que eu não sabia que você sabia que a vida é tão boa... Você se lembra da casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro ao lado...

– Nem vem que não tem!

– Tu veux ou tu veux pas?

– IF somebody loves you, it’s no good unless she loves you all the way. Eu agora sou feliz, eu agora vivo em paz: everybody is talking at me; raindrops keep faling on my head. Agora, deixa eu bater meu tamborim até chegar meu fim.

– Vem, vem, vem, vem sentir o calor dos braços meus à procura dos teus.

– Não vou; não vou, que eu não sou ninguém de ir na conversa de esquecer a tristeza de um amor que passou.

– E agora, o que faço da vida? Denise vai chorar, vai, vai chorar, dim-dim-dim-dim-dom.

– É só isto o seu baião? Não tem mais nada não? Escuta esta canção que eu mesmo fiz pensando em ti: foi um rio que passou na minha vida e o meu coração se deixou levar. Mas agora eu não quero e nem posso, nunca mais. O que tu me fizeste, amor, foi demais. Arrivederci Roma; good-bye, au revoir. Adeus amor, eu vou partir. Ouço ao longe um clarim. Pra você que me esqueceu, aquele abraço.

Eu já vou-me embora. Vou ler meu Pasquim.



Diretor Teatral, Cenógrafo, Jornalista e Tradutor

* Tabapuã, SP (06/08/1934)
+ São Paulo, SP (25/10/1988)

Publicado na edição nº 57, de julho de 1970, de O Pasquim


Nenhum comentário:

Postar um comentário