segunda-feira, 2 de junho de 2014

Se - por Sérgio Porto

(Se)

Sérgio Porto


Se você gosta de ver um homem surrando outro, fazendo-o sangrar, procurando reduzi-lo a inconsciência ou à perda dos sentidos...

Se você é um daqueles que pagou para ver seu semelhante derrotado pela força, já semicego de contusões e sangue, esparramar seu corpo inerte e suado sobre a lona...

Se você já viu um boxeador (ou lutador) assassinar o seu adversário no ringue (ou octógono), com as imunidades irrestritas concedidas pela chamada nobre arte...

Se você também chama o boxe (ou MMA) de nobre arte...

Se você se recordar que Emile Griffith* poderia ter parado de socar o crânio de Kid Paret, quando este já estava incapacitado para defender-se, que mesmo assim teria ganhado a luta...

Se você pensar que Emile Griffith, como tantos outros, cometeu um perfeito e impunível crime esportivo...

Se você teve ocasião de ver as radiografias de cérebro dos famosos pugilistas reproduzidas por um semanário norte-americano, frangalhos de homens sem memória ao menos para recordar em que luta perderam o melhor do seu ser...

Se você um dia tivesse em suas mãos lista completa dos mortos e inutilizados pelas luvas de couro e de crina...

Se você acha justo que dois homens, para divertimento de uns e enriquecimento de outros, se destruam reciprocamente, buscando o massacre mútuo, por uma medalha (ou cinturão) que não foi cunhada com o ouro que realça a verdadeira nobreza do esporte...

Se você já pôde comprar a aparência de certos rapazes quando se iniciaram no boxe com a aparência de agora, muitos anos depois, quando têm a cartilagem do nariz destruída, os olhos semifechados pela saliência dos zigomas e pelo rebaixamento da fronte, as grossas orelhas arroxeadas de equimoses indeléveis...

 Se você já teve oportunidade de meditar sobre tudo isso e, depois, ainda gosta de boxe...

Você é uma besta, meu filho!


*Emile Griffith matou Benny Paret (foto acima)

numa luta de boxe em 1962.




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