terça-feira, 3 de maio de 2016

O Impressionismo


Resumo prático para professores de Literatura Brasileira

1. Impressionismo: → Movimento de vanguarda europeu, nascido no território das artes plásticas, em especial a pintura, no final do século XIX.

“Nas as coisas, mas a impressão das coisas.”

(Claude Monet)

2. Características do Impressionismo:

→ O impressionismo é uma fusão de elementos realísticos e simbólicos. A reprodução da realidade de uma maneira objetiva, minuciosa, constituía a norma realista.

→ Para o impressionista a realidade ainda é foco de interesse, mas o que ele pretende registrar e a impressão que a realidade provoca no espírito do artista, no momento mesmo em que se dá a impressão.

→ O importante não o objeto, e sim as sensações e emoções que o objeto desperta num determinado instante.

→ O impressionista capta o instante, o fragmentário, o instável. O tempo constitui, portanto, o elemento básico do movimento.

3. Principal escritor do impressionismo brasileiro:


Raul Pompeia nasceu em 1863, no Rio de Janeiro, onde se suicidou na noite de Natal de 1895.

→ Militante radical nos movimentos abolicionistas e republicano, suas opiniões e atitudes políticas custaram-lhe caro: perdeu o emprego de diretor da Biblioteca Nacional e teve várias polêmicas azedíssimas.

4. Obras:

a) Romances:

→ Uma tragédia no Amazonas (1880);
→ As Joias da Coroa (1882);
O Ateneu (Crônicas de Saudade) (1888) - principal obra do autor.

5. Comentário sobre a principal obra de Raul Pompeia:

“O Ateneu - Crônicas de Saudade” como o próprio subtítulo indica, é um livro de memórias, ou seja, o tempo da ação é anterior ao tempo da narração: o personagem Sérgio, já adulto, narra seu tempo de aluno interno no Ateneu; a narrativa é feita em primeira pessoa, e Sérgio é o personagem-narrador, o que permite ao autor entrar no complexo mundo das revelaçõe4s que só se fazem à consciência. E mais ainda: O Ateneu é um romance autobiográfico; a fronteira entre a ficção e a realidade é muito frágil. As identidades são claras: Sérgio é Raul Pompéia; o Dr. Aristarco Argolo de Ramos, Visconde de Ramos, do Norte, é na realidade o Dr. Abílio César Borges, Barão de Macaúbas, do Norte; o Ateneu é o Colégio Abílio; Sérgio, assim como Raul Pompéia, entra no colégio com 11 anos de idade.

O Ateneu é uma obra que permite duas leituras: uma no campo individual, fruto da vivência de Sérgio/Raul Pompeia como interno no Ateneu/Colégio Abílio e representa a “vingança” do autor contra a estrutura do internato; outro no campo político-social, ampliando o universo, sendo o Ateneu a própria representação da Monarquia decadente e Aristarco, do governo. Ambas as leituras, no entanto, não podem ser vistas isoladamente e independente; ao contrário, elas se fundem, as interpenetram, se completam. (artistarco = aristocrata = aristocracia)”.


O Ateneu

(Fragmento)

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio - palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo  uma foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente; o Maurílio, nervoso, insofrido, fortíssimo em tabuada: cinco vezes três, vezes dois, noves fora, vezes sete?... lá estava Maurílio, trêmulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um risinho de pouco vergonha, fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bonzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Mânlio repelia, precavido de confianças; Batista Carlos, raça de bugre, válido, de má cara, coçando-se muito, como se o incomodasse a roupa no corpo, alheio às coisas da aula, como se não tivesse nada com aquilo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distrações e ferir a orelha aos vizinhos com uma seta de papel dobrado. Às vezes a seta do bugre ricochetava até a mesa de Mânlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquérito. Em vão, que os partistas temiam-no e ele era matreiro e sonso para disfarçar.

Dignos de nota havia ainda o Cruz, tímido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi criado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina cristã, fácil como um despertador para desfechar as lições de cor, perro como uma cravelha para ceder uma idéia por conta própria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando Rebelo, primeiro da classe, muito inteligente, vencido apenas por Maurílio na especialidade dos noves fora vezes tanto, cuidadoso dos exercícios, êmulo do Cruz na doutrina, sem competidor na análise, no desenho linear, na cosmografia.

O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.


Aristarco, o diretor do Ateneu

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