segunda-feira, 9 de maio de 2016

Os versos preciosos de Giuseppe Ghiaroni



Giuseppe Ghiaroni e o poema no rádio

Willian Vieira
  
Já havia algumas gerações que não mais sabiam quem fora Giuseppe Ghiaroni, o autor dos poemas épicos que invadiam casas Brasil afora na era de ouro da Rádio Nacional. Nem a bíblia escapou de seu talento para o rádio.

Nascido em Paraíba do Sul (RJ), em 22 de fevereiro de 1919, já aos 11 trabalhava como ajudante de barbeiro e ferreiro, cobrador de ônibus e contínuo. Cansado da vida, tentou reescrevê-la no Rio - nas páginas do diário A Noite, onde começou como jornalista. Era autodidata.

Era 1941 quando lançou seu primeiro livro de poesias, "O Dia da Existência", sendo logo reconhecido e ganhando assento fixo na Rádio Nacional. Gerava comoção nacional com poemas de Dia das Mães e dos Pais, na voz de Paulo Gracindo.

Escreveu outras coletâneas, como A Graça de Deus (1945) e a Canção do Vagabundo (1948). Mas o sucesso veio mesmo como redator da Nacional, onde escreveu o seriado "Tancredo e Trancado", radionovelas como "Mãe" e a adaptação do Antigo Testamento - o modesto "Romance da Eternidade".

Ainda foi redator da "Escolinha do Professor Raimundo", do amigo Chico Anysio, nos anos 1990. Mas o tempo passou e a fama amainou. Morreu na quinta, dia 21 de fevereiro de 2008, no Rio, a um dia de completar 89 anos.

Na memória dos fãs antigos, os versos do último livro, "A Máquina de Escrever", de 1997. "Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval."

(Do Blog da Folha de S. Paulo) 


Ghiaroni em uma de suas últimas fotos

Depois

Depois de ter tentado e conseguido,
depois de ter obtido e abandonado;
depois de ter seguido e ter chegado;
depois de ter chegado e prosseguido!

Depois de ter querido e ter amado;
depois de ter amado e ter perdido;
depois de ter lutado e ter vencido;
depois de ter vencido e fracassado!

Depois que o sonho comandou: “Avança!”
Depois que a vida ironizou: “Criança!”
Depois que a idade sentenciou: “Jamais!”...

Depois de tudo que escarnece e exalta,
depois de tudo, quando nada falta,
depois de tudo, falta muito mais!

Previsão

Um dia, serás velho
Nesse dia, tu só terás os anos e o juízo
E andarás procurando o paraíso
Numa igreja qualquer da freguesia.

Terás a boca flácida, a mão fria,
O olhar tão vago, o andar tão preciso
Que as mocinhas na idade do sorriso
Te lançarão sorrisos de ironia.

Mas disso tu não sofrerás,
Porquanto ainda poderás causar espanto
Contando as glórias que tivestes aqui.

E contarás, numa vaidade austera,
Que num ano qualquer da nossa era
Uma ‘mulher’ morreu de amor por ti.

Pontos de Vista

Na minha infância, quando eu me excedia,
quando eu fazia alguma coisa errada,
se alguém ralhava, minha mãe dizia:
– Ele é criança , não entende nada!

Por dentro, eu ria satisfeito e mudo.
Eu era um homem, entendia tudo.

Hoje que escrevo histórias e poemas
e pareço ter tido algum estudo,
dizem quando me veem com meus problemas:
– Ele é um homem, ele entende tudo!

Por dentro, alma confusa e atarantada,
eu sou uma criança, não entendo nada!


Injustiça 

Tu queres que eu te esqueça de repente,
que esqueça de repente os teus carinhos,
eu que te venho amando aos bocadinhos,
desde quanto te era indiferente!

Deixa-me ir esquecendo lentamente,
voltando aos poucos sobre os teus caminhos,
arrancando um a um os teus espinhos,
até ver uma estranha à minha frente.

Dá-me um beijo de menos cada dia,
inventando um pretexto que sorria,
de maneira que eu saiba sem saber.

Pois queres que eu te esqueça de repente,
e nem sei se uma vida é suficiente
para - mesmo aos pouquinhos - esquecer!


Economia

Dá de ti. Dá de ti quanto puderes:
o talento, a energia, o coração.
Dá de ti para os homens e as mulheres
como as árvores dão e as fontes dão.

Não somente os sapatos que não queres
e a capa que não usas no verão.
Darás tudo o que fores e tiveres:
o talento, a energia, o coração.

Darás sem refletir, sem ser notado,
de modo que ninguém diga obrigado
nem te deva dinheiro ou gratidão.

E com que espanto notarás, um dia,
que viveste fazendo economia
de talento, energia e coração!...


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