domingo, 29 de maio de 2016

Textos de Mário Quintana



Textos do livro de poemas “Sapato Florido”, 
de Mário Quintana


O Susto

Isto foi há muito tempo, na infância provinciana do autor, quando havia serões em família.
Juquinha estava lendo, em voz alta, A Confederação dos Tamoios.
Tarararararará, tarararararará,
Tarararararará, tarararararará,
Lá pelas tanta, Gabriela deu o estrilo:
- Mas não tem rima!
Sensação. Ninguém parava de não acreditar. Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos últimos versos... quérulo... branco... tuba... inane... vaga... infinitamente...
Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!
- A rima deve estar no meio, - diz, sentencioso, o major Pitaluga.
E todos suspiraram, agradecidos.

Filó

O negrinho Filó era um artista no pente. Naquele velho pente envolto em papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até La donna è móbile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja. Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia a Gabriela, “a gente se agachava a sirri que não parava mais”. Quando ele morreu, foi logo declarando a sua qualidade para São Pedro: “Musgo!” E São Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de boca. E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente... Mas o Céu é tão perfeito que na sua Filarmônica não existem instrumentos de emergência: uma pente lá, é um pente mesmo.

Dos Velhos Hábitos

Metia-nos um medo! Era um retrato avoengo, um velho juiz dos velhos tempos, sobrecenho feroz, barba de passa-piolho. De nada ria... Creio que já nascera juiz. Mas piscava o olho quando a criadinha punha-se a esfregar vagarosamente o assoalho, a criadinha de saia arregaçadas e joelhos roliços e juntinhos... e que aliás nunca bispou coíssima nenhuma.

Viver

 Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelos, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite.
Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos...

Fatalidade

Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz:
- Coitado! Descansou...

Exegese

- Mas que quer dizer esse poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
- E que quer dizer uma nuvem? - retruquei triunfante.
- Uma nuvem? - diz ela. - Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...


Texto do livro de poemas “Espelho Mágico”, 
de Mário Quintana


Do Estilo

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

Das Belas Frases

Frases felizes... Frase encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

Do Mal e do Bem

Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos...
Já viste as flores que mentira dá?

Da Indulgência

Não perturbes a paz da tua vida,
Acolhe a todos igualmente bem.
A indulgência é a maneira mais polida
De desprezar alguém.

Das Ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entretanto, após cada ilusão perdida...
Que extraordinária sensação de alívio!

Da Mediocridade

Nossa alma incapaz e pequenina,
Mais complacência que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.

Do Pranto

Não tentes consolar o desgraçado
Que chora amargamente a sorte má.
Se o tirares por fim do seu estado,
Que outra consolação lhe restará?

Da Felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz.

Da Discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...


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