quarta-feira, 13 de julho de 2016

Os ninguéns



As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos,
morrendo a vida, fodidos e refodidos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal,
aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Los nadie

Los nadie: los hijos de nadie, los dueños de nada.
Los nadie: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre,
muriendo la vida, jodidos, rejodidos.
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal,
sino en la crónica roja de la prensa local.
Los nadie, que cuestan menos que la bala que los mata.

Eduardo Galeano - “O Livro dos Abraços”.


Sabemos que "ninguém" é um pronome indefinido e invariável, então como é que aparece no plural (ninguénS) contrariando a norma gramatical (aqui no caso, oficial/culta; creio que também contraria o uso popular/fala; pois nunca ouvi o povo falar "ninguéns"). Bem, a explicação é simples. Creio que todos já ouviram falar em "liberdade poética". O escritor/poeta pode "modelar" a palavra e as frases conforme seu desejo. Preste atenção, liberdade poética não significa liberação por falta de conhecimento. Pelo contrário. Só quem entende bastante da norma (leia Gramática) e das variações dessa (na fala popular) têm capacidade de explorar plenamente a potencialidade da palavra.

No caso, a palavra "ninguéns" foi substantivada (derivação imprópria, lembram-se? Quando uma palavra de uma classe gramatical passa para outro. Aqui: pronome indefinido tornou-se substantivo). E qual o significado deste estranho substantivo "ninguéns". Ora, os ninguéns são os excluídos sociais, os miseráveis, aqueles deixados "a deus-dará" para usar uma expressão coloquial. Mendigos, crianças de rua, velhos abandonados, trabalhadores explorados; ou seja, miseráveis de um modo geral. Todo aquele que é considerado um "joão-ninguém", um ninguém. No plural, os ninguéns são todos os injustiçados e destituídos de seus direitos de cidadão. Então, por que não usar a palavra "miseráveis"? Porque a palavra "miseráveis" está por demais gasta, usada em todo discurso de político corrupto. Usar "ninguéns" cria um estranhamento no leitor, que vai até o final do texto tentando desvendar o enigma (quem são eles?). Percebam o uso repetitivo/reiterado das negativas (não... não... não...) das metonímias e antíteses para demarcar diferentes valores sociais. Tudo colaborando, portanto, para o desvendamento do enigma, para estimular o leitor a buscar suas próprias respostas, e, portanto, conscientizá-lo da existência daqueles que são pobres, sofrem e são explorados. "Ninguéns" é um acerto, um achado, porque comove o leitor ao mesmo tempo em que o torna consciente das questões político-sociais.

(Do Blog Redação Henfil – Professor Eduardo)


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