sexta-feira, 29 de julho de 2016

Uma história real do Rio Grande


(Noutro baile será pior)

Raul Annes Gonçalves


Estávamos atrasados, tínhamos perdido um tempo enorme, aquela tarde. Galopando uns potros. Éramos três gaúchos acostumados na dura lida com gado arisco e cavalhada chucra. Idade: beirava 21 anos. Estávamos prontos a dar peleia em defesa própria ou para salvaguardar algum indefeso.

Era lusco-fusco. Depois de havermos tomado um banho na sanga, já com roupas domingueiras montados em nossos cavalos de passeio rumávamos para um baile. Nos repechos íamos ao tranco, nos lançantes a trote largo e no plano metíamos galope.

Havia pressa, pois, o baile era com janta. Paga-se entrada, mas teria assado, leitão e café com rosquinhas.

Ao chegarmos ao local do baile, logo nos apresentamos ao dono da casa. Em seguida fomos convidados a desencilhar e soltar nossos cavalos no potreiro. Os arreios emalados e depositados em um quarto no galpão. O pessoal estava jantando ao ar livre, embaixo de uma ramada improvisada, com faróis dependurados nos esteios, que iluminavam com deficiência as compridos mesas ladeadas por compridos bancos. As risadas, conversa e gritos festivos da mocidade ali reunida, eram abafados pelos acordes de uma gaita que tocava uma rancheira. Logo nos entreveramos com aquela gente, tomando assento à mesa. Depois da janta, os bancos foram transportados para a sala, e colocados em fila e junto à parede onde teria lugar a dança.

Pelos moços, ficamos sabendo que um tal de Ica, brigado com a noiva, havia sentenciado que naquele baile dançaria com a moça, quer queira quer não. Soubemos, também, que o tal gaúcho era quebra; já havia esbofeteado uma moça por não querer dançar. Todo mundo comentava, com receio, o perigo se o maleva aparecesse e a moça o rejeitasse.

O baile iniciou-se com grande entusiasmo. Lá pelas tantas apareceu o temido gaúcho. Assomou no limiar da porta de chapéu na mão. Cumprimentou a todos com um aceno de mão e braço e, por sua própria conta, tomou acento na sala. O silêncio logo tomou conta daquela gente alegre e feliz. O gaiteiro fez uma pausa, fechando a gaita. O ambiente parecia tomar jeito de velório; ninguém falava, só trocavam olhares. O intruso de vez em vez passava a mão no bigode e olhava para a dita moça. Esta, tímida e insegura de si mesma, não resistindo àquela situação, levantou-se com propósito de abandonar a sala. Mas, rápido, um dos nossos companheiros, conhecendo a intenção da moça, embargou-lhe os passos, solicitando a honra de dançar a primeira marca. E ali ficou, de pé, ao lado da trêmula jovem, tal qual um guardião. Ou melhor ainda, como um macho pronto a defender uma fêmea.

O gaúcho maleva não gostou daquilo. Viu que a moça tinha um defensor. Porém, em seu rosto, estampou-se um riso de mofa, de escárnio. Parecia antegozar da fama de sua valentia perante aquela rapaziada imberbe e indecisa. O ambiente tornou-se de suspensão. Algo iria acontecer.

O atrevido gaúcho levantou-se, e, com andar macio, gingando os ombros, dirigiu-se para o gaiteiro pedindo que tocasse alguma coisa, no que logo foi obedecido.

No caminhar notamos que o gaúcho trazia oculta, por dentro da bombacha, ao correr da perna, uma adaga.

Assim que o gaiteiro floreou uma marca, o gaúcho dirigiu-se para o par que se aprontava para dançar, e disse em tom imperativo:

– Cavalheiro, esta moça é comprometida.

Apesar do susto estampado no lindo rosto da moça, esta, ao sentir-se segura sob o olhar firme de seu par, respondeu:

‒ Já estive, mas agora sou livre.

Ao que contestou o gaúcho entre dentes:

– É o que veremos.

Nós que já estávamos de olho naquela cena, sentimos que era hora de agir.

Rápido nos acercamos do trio em difícil situação, e colocando-nos um de cada lado do maleva, lhe falamos baixo no ouvido:

– Amigo, vamos lá fora que temos algo para te fazer mudar de palpite.

E sem dar trégua, o tiramos calçado, como capão para consumo, porta a fora, sob a admiração e aprovação de todos.

Lá fora o gaúcho virou bicho e quis dar rodeio. Boleou a anca e puxou pela adaga.

Mas o desgraçado foi sem sorte, nós éramos três...

No final tivemos de ajudá-lo a montar a cavalo e sair estrada afora com esta advertência:

– Se não te portares direito, em outro baile será pior. Terás a sorte do porco que já foi cachaço.


***

(Do Almanaque do Correio do Povo de 1977)

Glossário:

Chucra: bravia, gado não domesticado, animal ainda não domado.

Peleia: briga.

Repechos: encostas, aclives, subidas.

Lançantes: declives fortes num cerro ou numa coxilha.

Entreveramos: misturamos.

Emalar: enrolar para guardar alguma coisa.

Quebra: diz-se do cavalo caborteiro e perigoso, pessoa sempre pronta para uma briga.

Maleva: genioso, rancoroso.

Marca: nome que se dá a qualquer música tocada nos bailes de campanha, geralmente por gaiteiro isolado.

Adaga: faca comprida e fina tipo punhal de dois gumes.

Capão: cordeiro castrado.

Cachaço: reprodutor.


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