sexta-feira, 22 de julho de 2016

Um Direito do Pampa


J. A. Pio de Almeida


A presença da Polícia no rincão do Ibirocai foi inovação introduzida na primeira década do governo de Getúlio Vargas.

Eu era guri e começava a ligar os fatos.

A Polícia passou a ser representada por um soldado da Brigada Militar, destacado fixo, que chegou “desovando leis”.

Uma delas foi só permitir bailes de campanha devidamente licenciados, conforme papelucho – a famosa “licença por escrito”.

Houve por lá um forrobodó meio grande.

Eu sei que a rapaziada se ajuntou, discutiu o assunto, entre o pessoal uns primos meus, “já de bigode”, e a coisa ficou decidida:

‒ Baile continua como sempre foi, sem licença, nem escrita nem de boca. E vamos um na casa do negro Graciliano, sábado.

Flor Araújo assumiu como cabeça, e quando a noite fechou a gaita cordeona de oito baixos roncou.

O soldado, nem haviam os “bailarins” chegado na “polca da relação”, se apresentou em nome da ordem. Desceu, atou o “pingo” no parapeito e entrou sala adentro:

‒ Quem deu licença para isto?

‒ Fui eu aqui – respondeu o Flor, e continuou “floreando” uma música na cordeona, sentado a um canto da sala.

‒ Baile sem licença não sai, é ordem superior. Para a gaita.

‒ Amigo – respondeu o Flor – eu tenho licença... Puxou a prateada e concluiu: Está escrito aqui na folha da minha faca!

A autoridade nem chegou a esboçar o gesto que lhe seria próprio. Estava tudo combinado. A rapaziada fechou o cerco e num epa o soldado estave lá fora, com todo o respeito, no encontrão mas espremido – e nem pôde usar as armas.

Houve troca de “correios” nos dias seguintes, entre “as pessoas de responsabilidade” do rincão e um subdelegado que acumulava o cargo de subprefeito e que era caudilho entre o Guaçu-Boi e nosso rincão.

As licenças por escrito foram suspensas, os rapazes deixados em paz e a cordeona de oito baixos continuou, sábado aqui, sábado acolá, gemendo vanerões debaixo da noite de Deus. Um Direito do Pampa

(Do Almanaque do Correio do Povo de 1979)



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