terça-feira, 21 de outubro de 2014

A arte de fazer versos



A arte de fazer versos

“Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem diga nem todas,
só as de verão.
Mas no fundo isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si,
são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.”

Shakespeare

Gramática do amor


Conjuga-me num beijo
interjeita-me nos teus braços
Adjetiva o meu desejo
Personifica os nossos laços.

Imperativa o teu sentimento
Metaforiza-o com a natureza
Exclama-o num momento
Eterno com certeza.

Acentua-o com um sorriso
Transcreve-o num poema
Compõe-no e num feitiço
descobrirás que amor é o tema.

Coordena agora tudo,
Para sempre vais lembrar
Que o poeta não fica mudo
e com esta gramática se vai expressar.

(Ricardo Pires Fernandes)

A gramática é dramática

A gramática é dramática:
É difícil pô-la correta, direta, tê-la por dileta.
É na prática, uma questão matemática com muito senso e estética.
O que é isso? Talvez seja...
não sei mas posso inventar, alvitrar, opinar e, quase de certeza, errar.

A gramática é dramática:
Põe centímetros na métrica,
ajuda a vender a retórica e mostra que a língua é metódica.
É sem dúvida um espelho de azelhice,
mostra de alarvice e, ainda, ornamento da aldrabice.
De certeza que é, de certeza que é!

A gramática é dramática:
É tão fácil dar-lhe um pontapé e logo a seguir apanhar-nos em contra-pé.
Enganadora, mostra-se servidora, disponível, acessível e depois...
depois é dominadora, castradora.
Eu sei que é. Ai sei sim senhor!
A gramática é dramática:
A sacana abana, verga mais que uma verdasca
e marca de cortes a pele que descasca.
Fetichista, fascista, dona, senhora, credora da penhora sobre o saber,
dizer e escrever.
É lei forte que não dá a língua à morte

A gramática é dramática:
É-o tanto como um castigo parental, aplicado com critério, a princípio,
mistério e, depois, razoável e sério.
Régua e esquadro, desenho técnico, essência e esqueleto.
Mesmo sem o saber, sei que é e isso não erro.

Valdevinoxis

Gramática caipira

É verdade matemática
Que ninguém pode negar,
Que essa história de gramática
Só serve para atrapalhar.

Ainda vem língua estrangeira
Ajudar a complicar.
É melhor arranjar maneira
Disso tudo se arrumar.

Na Inglaterra ouvi dizer
Que lá um sapato é xu.
Desde logo se está e ver
que dois sapato é xu-xu.

Xu-xu para nós é um legume
Que cresce solto no mato.
O inglês que lá se arrume,
Mas não comemos sapato.

Na Itália dizem até,
Eu não sei por que razão,
Que como manteiga é burro,
Se mete burro no pão.

Desse jeito para mim chega,
Salve… ó povo do sertão,
Onde manteiga é manteiga,
Burro é burro! E pão é pão.

Na América corpo é bode.
Veja que bode vai dar.
Conheci uma americana
Doida para o bode emprestar.

Fiquei meio atrapalhado
E disse para me escapar:
Oi, moça, eu não sou cabra,
Chega seu bode para lá!

Na Alemanha tudo é bundes.
Bundes-liga, bundes-bão.
Muita bunda só confundes,
Desnorteia o coração.

O Alemão quer inventar
O que Deus criou primeiro
Para que lhes havia de dar…
Mudar o nome do traseiro...


 (Adaptação)

Estrutura de um Soneto

Estrutura Básica

O soneto é, geralmente, composto por dois quartetos e dois tercetos.

Métrica

O soneto deve possuir em cada verso o mesmo número de sílabas poéticas.

Rima

Outra característica importante de um soneto é a ordem em que os versos rimam, ou posicionamento de rimas. Para os quartetos, existem três formas principais de posicionamento:

Rimas entrelaçadas ou opostas – abba (o primeiro verso rima com o quarto, o segundo rima com o terceiro):

         “Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
         Enterro de tua última quimera.
         Somente a ingratidão – esta pantera -
         Foi tua companheira inseparável…”

(Augusto dos Anjos)

Rimas alternadas – abab (o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo rima com o quarto):

         “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
         E triste, e triste e fatigado eu vinha.
         Tinhas a alma de sonhos povoada,
         E a alma de sonhos povoada eu tinha…”

(Olavo Bilac)

Rimas emparelhadas – aabb (o primeiro verso rima com o segundo, o terceiro rima com o quarto):

         “No rio caudaloso que a solidão retalha,
         na funda correnteza na límpida toalha,
         deslizam mansamente as garças alvejantes;
         nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes…”

(Fagundes Varela)


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