sábado, 25 de outubro de 2014

A Mulher e o Chimarrão

         



Se o amigo anda escolhendo noiva, bote sentido nas palavras deste índio calejado pela vida. Antes de mais nada, se alembre que casamento é que nem mate servido pra visita de cerimônia: a gente tem de acompanhar e aguentar até o fim, mesmo depois de enfarado.

É por isso que a escolha tem de ser feita com todo o tino.

Þ Moça mui novinha não serve: é mate com cachaça - embebeda ou estraga do estômago.

Þ Moça mui cheia de inteligências - é mate com bomba nova: a gente custa a acertar a embocadura, e às vezes não acerta nunca.

Þ Moça loira - mate de erva fraca: em seguida perde o gosto.

Þ Moça de olho parado - mate frio; e tererê não resolve.

Þ Moça desfrutável - é o primeiro mate; chupe o mais que possa, companheiro, e cuspa fora, que os pintos aproveitam logo.

Þ Moça criada muito solta - é mate de roda mui grande: quando chega a nossa vez a erva já está lavada.

Þ Mas, por outro lado, moça criada muito presa - é mate quente e entupido: quando desentope é um deus-nos-acuda, sai pelando os beiços!

Þ De moça rechonchudinha eu me agrado: é mate com cancorosa, bom para o sangue que é barbaridade!

Þ Tome tenência com moça bem morena e de olho reluzento: é mate enchido pela bomba, com água de pelar porco. Erva de sustância, seu!


Þ Viúva nova e linda – é mate recém virado. Precisa água bem quente. E sai com uma força!

Þ Viúva nova, linda e rica - é mate com bolo frito. Pra o descanso não há coisa melhor!

Þ Mas meu conselho aí vai: ceve o mate da felicidade com uma chinoca recatada e dona de si - é mate com sabugueirinho-do-campo: bom pra tudo!

E pra terminar a charla, aqui vão algumas comparações:

Þ Moça nova e forte que casa com velho - O mate pra o estribo. Viaja em seguida.

Þ Mulher casada que faz coisa feita - Mate que um ceva e outra toma.


Þ Mulher solteira que chega aos 34 anos ainda esperando noivo - É o mate de João Cardoso.


E depois dos 34, só com muito jeitinho se escapa de virar mate entupido.



(Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre).

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