quinta-feira, 24 de abril de 2014

A ressurreição de Cartola

Reencontrando “O Divino”

(1908-1980)



Cartola ´por Cássio Loredano



Cartola estava trabalhando na garagem Oceânica, à rua Visconde de Pirajá, fazendo um serviço incompatível com sua idade e com seu estado de saúde. Eram 11 carros para ser lavados por noite.

Uma madrugada, interrompeu o serviço para tomar uma “cana”, pois a umidade penetrava-lhe os ossos, vestido como estava, com aquele macacão encharcado. Entrou num café. Um moço branco, alto, bonitão, veio ao seu encontro. Ele, nem aí, não reconheceu. O moço perguntou: “Você não é o Cartola da Mangueira?” Cartola respondeu afirmativamente E tomou um susto, quando aquele homenzarrão começou abraçá-lo, emocionado, dizendo: “Eu sou o Sérgio Porto”, sobrinho do Lúcio Rangel!”

Sérgio ficou felicíssimo, pois há tempos o andava procurando e até lhe haviam dito que Cartola tinha morrido. Logo que amanheceu ligou para um amigo, o fotógrafo Humberto Franceschi. Com uma voz que era emoção pura, declarou: “Franceschi, eu reencontrei o divino”. (1)

É que Lúcio Rangel, desde a década de 1930, começara a chamá-lo de “O Divino Cartola”. Havia outro divino nas preferências de Lúcio: Sílvio Fernandes, “O Divino Brancura”. Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, esforçou-se bastante para reintegrar Cartola no meio artístico. Primeiro, colocou uma nota na sua coluna diária no jornal:

“Vocês sabem por que o genial cartola – Angenor de Oliveira -, tantas vezes citado nos sambas de outros compositores, fundador da Estação Primeira de Mangueira, responsável pelos melhores sambas do repertório do outrora grande astro Francisco Alves, passou a acordar às 4 da manhã? Para pegar o biscate de lavador de carros numa garagem de Copacabana (na verdade era em Ipanema), pois a velhice já não lhe permite prosseguir na profissão de pedreiro. E, todavia, Cartola continua a fazer sambas com a mesma genialidade de outros tempos, apenas não encontra cantores ou fábricas de discos que se interessem por eles”. (2)

Depois, levou-o para a Rádio Mayrink Veiga, onde o mestre ficou pouco tempo: “Sérgio me levou para a Mayrink Veiga. Enquanto ele ficou, eu me escorei. Cheguei a fazer músicas, a trabalhar, mas, infelizmente, o samba não estava na moda”. (3)

Mas a ajuda de Sérgio Porto não parou por aí. Em pouco tempo, amigos do jornalista – entre os quais o caricaturista Lan – promoviam a ressurreição de Cartola. Levaram-no para cantar em programas de rádio, em restaurantes, em jornais e revistas que, assim, informavam que o grande compositor, parceiro de Carlos Cachaça, não morrera. Por exemplo: em sua edição de 17 de janeiro de 1957, o Jornal do Brasil publicava reportagem com Cartola e divulgava a letra do primeiro samba escrito por ele depois da descoberta de Sérgio – Fiz por você o que pude. Só faltava um cantor que se interessasse em gravá-lo para o carnaval. O cantor não apareceu, mas Sérgio, Lan, Lúcio e outros mais teimavam em ressuscitá-lo. (4)

A primeira parte do samba foi gravada em 1966 por Clementina de Jesus, na décima faixa do disco a Enluarada Elizeth. O samba todo, porém, só em 1974, pelo próprio Cartola.

Logo em seguida Jota Efegê arranjou-lhe um emprego de contínuo no Diário Carioca, com salário de seis mil cruzeiros mensais (era o salário mínimo). Cartola trabalhou lá durante sete meses.

(1)   Depoimento de Humberto Franceschi;

(2)   Recorte do arquivo de Cartola, sem nome do jornal e sem data;

(3)   Manchete, Rio de Janeiro, 3.11.1977;

(4)   Jornal do Brasil, 1.10.1980.
             
P.S. Depois da redescoberta de Cartola por Sérgio Porto, ele teve vários empregos, foi funcionário público, dono banca, dono de restaurante (Zicartola), mas ele conseguiu mesmo foi vencer como compositor, gravando discos e fazendo shows por todo o Brasil.



(Do livro “Cartola – os tempos idos”, 
de Marília Barboza da Silva – Arthur de Oliveira Filho)




Nenhum comentário:

Postar um comentário