domingo, 2 de outubro de 2016

Brasileiros da Silva




Basta folhear a lista telefônica. Silva, Santos, Cavalcanti, Pinto, Pereira, Ferreira, Rodrigues, Carvalho. Inúmeros são s sobrenomes que povoam este país.

Durante muito tempo alguns trouxeram nas letras a tradição e o poder.

Outros sobrenomes, órfãos de pai e mãe, carregavam mesmo era um pedigree de vira-lata. O que resta hoje soa histórias que nos ajudam a entender as origens do nosso povo. Um povo brasileirinho da Silva.

Da Silva. Locução (precedida, em geral, de um adjetivo no diminutivo) com a qual se procura dar ênfase ao que se afirma: “O homem está rico, riquinho da Silva”.

Como você se chama? A resposta pode dizer muito sobre sua origem. Você pode ter o sobrenome Costa, por exemplo, porque seus ancestrais moraram no litoral. Mas nomes de família também podem pregar peças. Os Pinto nunca tiveram nada a ver com filhotes de galinhas. E os Silva não descendem todos de uma mesma família. A verdade é que quase todos os nomes podem ter mais de uma origem. A história vem de longe, no tempo e no espaço.

Os sobrenomes foram criados pra facilitar a identificação das pessoas com prenome repetido. Com intuito de evitar confusão, passou-se a fazer referência ao local onde cada um orava ou trabalhava (João de Oliveira, por exemplo), aos seus pais ou cônjuges (José Rodrigues, filho de Rodrigo), ou às suas profissões (Antônio Ferreiro, ou Ferreira). E assim os sobrenomes foram passando de pai para filho.

Por aqui, os índios não tinham necessidade de criar um jeito de diferenciar os indivíduos a partir de seus sobrenomes. Afinal de contas, os nomes nunca eram iguais.

No Brasil, entre tantos sobrenomes vindos de tantos cantos, é impossível saber qual é o mais numeroso – não existe qualquer estatística sobre o ema. Porém, se houvesse o posto de nome oficial da família brasileira, poucos hesitariam em apontar o Silva. Ele foi parar até no dicionário. O nome nasceu no Império Romano, mas teve também curiosas origens “da casa”. Porque nos navios que traziam os primeiros africanos e portugueses foi um tal de colocar nome, tirar nome... uma mistura, uma confusão danada. E assim nos criamos brasileiros, brasileirinhos da Silva.

Silva pra quem é da selvaCosta pra quem é da costa.

Em latim, silva quer dizer selva. Foi no Império Romano, ainda antes de Cristo, que começaram a nomear pessoas desse jeito, porque eram de cidades na mata. Descendentes delas foram parar na Península Ibérica quando os romanos invadiram a região e, com a colonização portuguesa, no Brasil.

Muitos portugueses não tinham nada a ver com a história, mas passaram a se chamar Silva ao atravessar o Atlântico. Na viagem pra cá recebiam acréscimos ao sobrenome original – uma forma de organização. Quem ia para o interior incorporava o Silva. Os que ficariam no litoral ganhavam o Costa.

Já os negros africanos perdiam totalmente seus nomes de origem a caminho. Eram rebatizados pelos padres nos navios negreiros apenas com um prenome. Depois, adicionavam o nome da fazenda, do engenho onde trabalhavam ou, muitas vezes, o sobrenome do senhor. Como a maioria dos escravos ia para as lavouras, milhares de Silva nasceram pelo País.


De onde vem?


Antunes: Filho de Antônio
Andrade: Filho de Andrada, em Portugal
Machado: Fabricante do utensílio
Monteiro: Caçador nos montes
Moreno: Devido à cor da pele
Coelho: Da freguesia de Coelha, em Portugal
Rossi: Vermelho em italiano
Sousa: Da vila portuguesa de Sousa
Leitão: Provavelmente um apelido
Campos: De Campos, em Portugal
Dias: Filho de Diogo
Pereira: Da vila portuguesa de Pereira

Silvas famosos

Jânio Quadros da Silva, Ayrton Senna da Silva, Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), Arlete Esteves Pinheiro da Silva (Fernanda Montenegro), José Maria da Silva Paranhos (Barão do Rio Branco), Cândido Mariano da Silva Rondon (Marechal Rondon), Luís Inácio Lula da Silva, Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), Leônidas da Silva, Orlando Silva e... Nilo da Silva Moraes...

Fogo cruzado

É comum ouvir por aí que sobrenomes de animais ou plantas, como Coelho, Leão, Pinheiro e Carvalho, são de cristãos-novos – judeus que trocaram o nome da família na Idade Média para fingir que se converteram ao catolicismo e assim fugir da Inquisição. Talvez alguns até sejam, mas essa regra não existe. As origens desses nomes são das mais variadas. Os descendentes podiam morar numa região arborizada ou ter um apelido de acordo com características físicas. Além de nomes de cristão-novos é bem ampla e variada.

Brasileiro de raiz

Aproximadamente 95% dos sobrenomes que usamos foram criados fora daqui, estima o pesquisador e genealogista Carlos Barata. É que a criatividade dos primeiros habitantes, os índios, não deixava que os prenomes se repetissem, dispensando complementos. Além do mais, sua cultura era oral, sem registros. Por isso a esmagadora maioria das nomenclaturas vieram com os povos que se uniram a eles para constituir a nação.

E de onde vieram o 5% de nomes genuínos? O genealogista explica que alguns europeus casados com índios quiseram preservar essa origem adotando o nome da aldeia, do cacique ou da localidade como sobrenome. Aí surgiu o Arcoverde, por exemplo. Outros também buscaram referências indígenas na época da Independência do Brasil. Alguns nobres escolheram nomes indígenas para seus títulos, como Visconde de Pirajá e o Barão de Capanema, e as nomenclaturas continuaram com os descendentes.

Todos os Santos

Um costume português originou o Santos, talvez o segundo sobrenome mais popular no País. Em Portugal colocava-se a alcunha “Todos os santos” a quem nascia no dia 1º de novembro, dia de Todos os santos. Crianças nascidas ou abandonadas no hospital com esse nome, em Lisboa, também o recebiam. Acabou abreviado à última palavra.

Nome grande é nome bom

A realeza sempre gostou de ostentar sobrenomes para mostrar importância. Dom Pedro I, por exemplo, tinha 17. O que os portugueses não sabiam é que alguns povos indígenas canibais também valorizavam a quantidade de nomes. Só que nasciam apenas com um e iam conquistando outros ao longo da vida. A cada inimigo que comesse, o homem acrescentava o nome do almoço para si – além de achar que incorporava também suas qualidades e força.

A maior família do Brasil é...

Quem disser Silva, errou. O sobrenome talvez seja o mais popular, mas representa diversas famílias. A maior mesmo é a dos Cavalcanti, esse sim com laços consanguíneos.

Cavalcanti ou Cavalgado

“Quem viver em Pernambuco, não se faça de rogado, pois há de ser Cavalcanti ou há de ser cavalgado.” No Estado, onde o nome é tradicional, o ditado popular mostra a associação dos Cavalcanti com o poder. Isso porque nos anos de 1840, quando a província proclamou independência, a região era quase um feudo dos irmãos Cavalcanti de Albuquerque. E mesmo que a Revolução Praieira tenha devolvido o poder a Dom Pedro II, a quadra popular continua sendo repetida até hoje.

Não somos filhotes de galinha

Certa vez, uma professora contou a Mauricio de Souza que tinha uma aluna que morria de vergonha de seu sobrenome: Pinto. O pai da Turma da Mônica decidiu ajudar. Pediu a um Pinto importante que mandasse uma mensagem para inspirar o orgulho da menina. Ziraldo Alves Pinto tratou de mandar um recado para a professora:

Diz pra Paula que ela deve se orgulhar do sobrenome que tem. Ela, certamente, dever ser moreninha, como todos os que têm esse sobrenome. Fiquem sabendo que nos, os Pinto, somos descendentes dos judeus morenos da Península Ibérica, os Sefardins. Quando os árabes chegaram a Portugal, encontraram os lusos que eram branquíssimos, descendentes dos Celtas. Os lusos – primeiros portugueses – levaram o maior susto com aquela gente morena e achavam que nossa turma era pintada de marrom. E passou a chamar a gente de Pinto, que quer dizer pintado. Ou seja: moreno. E um belo sobrenome e a Paula deve se orgulhar dele. Nos não somos filhotes de galinha.

A história dos judeus americanos fez escala no Brasil. Foi do Recife que partiram, em 1654, os primeiros judeus a se fixar na América do Norte. Esse grupo inicial, com 23 pessoas, abriu caminho para a chegada de outros sefardins (judeus então oriundos da Península Ibérica, hoje também concentrados no Oriente e na África.). Depois, no século 19, a comunidade acolheu milhões de asquenazis (na origem, judeus procedentes da Europa Oriental e da Alemanha). Hoje, com mais de 3 milhões de judeus, Nova York é a capital mundial do judaísmo. Mas a tradição dos pioneiros do Recife ainda é mantida na sinagoga da Congregação Shearith Israel, que eles fundaram. A atual sinagoga, de frente para o Central Park na esquina da Rua 70 Oeste, é a quinta construída pela congregação. As anteriores foram demolidas. Mas ainda existe o primeiro cemitério judeu, agora o mais antigo da cidade. Fica em Chatham Square, num antigo bairro que se tornou Chinatown. As lápides dos 107 túmulos foram quase apagadas pelo tempo. Mas alguns nomes não deixam dúvida sobre a origem: Mendes, Gomez, Seixas, Pinto, Fonseca, Burgos, Lopes, Rivera, Cardozo e Moralez*.

(Do “Almanaque de Cultura Popular”, da TAM) 


(sobrenome do meu avô paterno, Regino Moralez*, que estava nessa).

*Regino Moralez, uruguaio, pai de Luis Moraes, meu pai, o sobrenome foi aportuguesado, de Moralez para Moraes

Nilo da Silva Moraes (Moralez)

Significado de Sefardim

adj. e s.m. e s.f. Designação dos judeus descendentes dos primeiros israelitas de Portugal e Espanha (expulsos respectivamente em 1496 e 1492). Designação usual e genérica dos judeus originários de áreas mediterrâneas, isto é, da Grécia, do Norte da África, da península Ibérica.





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