sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Casa Branca



Nestes tempos de Acampamento Farroupilha e culto às tradições, não custa lembrar uma das maiores atrocidades cometidas contra a memória do movimento farrapo. Por uma daquelas coisas sem explicação (mas facilmente explicáveis), um dos prédios mais significativos da história do Rio Grande do Sul, a chamada Casa Branca do Morro Santana, foi destruída, em 1972, para que o terreno fosse loteado e, posteriormente, fosse erguido um bloco residencial. Em seu livro A difícil convivência: Porto Alegre e os farrapos (AGE Editora /2013), o jornalista Walter Galvani registra: “Ficou uma ironia de pé: no lugar onde se situava a Casa Branca e onde há esse conjunto de habitações, uma pequena praça homenageia Marcos Rubin, o homem que a demoliu!”.

Se o casarão fosse num lugar distante, talvez tivesse sido poupado, mas não, acabou ficando dentro da cidade, na Avenida Protásio Alves, quase esquina com a Avenida Antônio de Carvalho.

A construção açoriana, do início do século 19, foi quartel general dos farrapos durante o cerco a Porto Alegre; em 1836, hospital farroupilha; era frequentada por Bento Gonçalves e Garibaldi, que planejou a invasão de Laguna do local. Joaquim Estácio Borges de Bittencourt do Canto e Maria Altina Azambuja Cidade, esta prima de Bento, ambos bisnetos de Jerônimo de Ornellas, foram provavelmente seus primeiros proprietários. Apolinário Porto Alegre (1844-1904), educador brilhante, jornalista, escritor, fundador do Partenon Literário, adquire a casa em 1885 e faz dela um centro de cultura e história. Cria o que deve ter sido o primeiro orquidário da cidade, um jardim botânico com 2 mil espécies do mundo todo, uma biblioteca riquíssima, de onde escrevia seus textos aos jornais da época, defendendo suas ideias no Partido Republicano. Acabou vítima de ameaças e exílio. A casa foi depredada várias vezes pelos castilhistas na Revolução de 1893. Posteriormente, Artur de Sousa Costa se torna seu novo proprietário, reformando-a como fez Apolinário, mantendo seu aspecto original e as fotos de Bento e Apolinário na parede.

Alcides Maya, jornalistas e intelectuais da época frequentavam a casa, referência e testemunha das reviravoltas políticas de nosso tempo desde o Brasil Colônia. Muito depois, o comerciante Marcos Rubin adquiriu a área para fazer o loteamento, hoje conhecido como Jardim Itália, justamente no momento em que a casa (e a enorme área do entorno) foi “declarada de utilidade pública, por ser necessária a implantação de um parque histórico”, segundo o Decreto Municipal número 4534A, de 5 de abril de 1972, o Parque Histórico dos Farrapos.

Apesar do incansável esforço de Leandro Telles, presidente da comissão de constituição do Patrimônio Histórico de Porto Alegre, e do apoio da imprensa, que acompanhava de perto, a luta pela sua preservação em nada adiantou.

O empreendedor se defendeu, em nota nos jornais, alegando que havia comprado a casa e o terreno em 1968 do espólio do ministro Artur de Sousa Costa, que ela se encontrava em “precárias condições” e que, desde então, nunca fora informado de que a Casa Branca houvesse realmente sido tombada no Patrimônio Histórico. Disse também que “a demolição é da segunda quinzena de fevereiro e o decreto é bastante posterior à demolição”. Controvérsias à parte, sabemos que a nossa mui leal e valorosa quase sempre foi muito mais fiel ao Império (da grana?) do que à causa dos rebeldes, e isso talvez ajude a explicar, embora não justifique, o descaso.


(Do Almanaque Gaúcho de Zero Hora)

Colaborou Luis Zildo Spadoni,
pesquisador sobre a história da Casa Branca.


Casa branca, o QG dos Farrapos.







Nenhum comentário:

Postar um comentário