sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ontem e Hoje



Ontem

Nas noites de verão, depois do jantar, as pessoas saíam para as calçadas, cadeiras na mão. Os velhos, ou os donos da casa, sentavam-se junto à porta. Os outros, em volta. Primeiro, os mais chegados, parentes ou não. Depois, amigos, conhecidos, visitas ocasionais, numa hierarquia da qual as crianças estavam excluídas. Quando as pessoas chegavam, os donos da casa estavam à porta, à espera. Não que fosse praxe. Simplesmente costume. Mas se os donos ali não estivessem, as conversas começava na sala, junto com o café. Transferindo-se para a calçada à medida que chegavam mais gente. O que interessava eram os casos de família, a educação dos filhos, a política, a escola, os casamentos das viúvas, as árvores genealógicas, quem fez e não fez, o filme com Tyrone Power, a Igreja condenando os ciganos que tinham acampado na cidade, os pracinhas que iam voltar da guerra. As rodas na calçada, às vezes se estendiam pela rua. Sem perigo. Em toda a cidade existiam dois ônibus, trinta caminhões que transportavam leite, lenhadores e sacos de café, oito carros de aluguel e cinquenta veículos particulares. As crianças corriam, rodavam na roda, atravessavam a rua num pé só, brincavam de pique. Os homens fumavam, as mulheres tomavam refresco, licor de jabuticabas ou figo. O café era servido à chegada e quase no fim, quando o apito da fábrica soava, dez e meia. As visitas começavam a se levantar. Ficavam um pouco de pé, costurando rabos de assuntos, enquanto os pais recolhiam os filhos e as mães buscavam os bebês que dormiam, cobrindo com mantas, por causa de um golpe de ar. Em quinze minutos a rua se esvaziava.



Hoje

Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o toque. Para emitir som e luz, imagem e movimento. Todos se ajeitam. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia, do escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme. Todos sabem que não virá visita. E se vier alguma, vai chegar antes da telenovela. Conversas esparsas durante os comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais. Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo. Enquanto o corpo suportar, estarão ali. Depois, tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida.


(Ignácio de Loyola Brandão. Dentes ao Sol,
Editora Codecri, 1980, pág. 288)


Um comentário:

  1. Podem me chamar de saudosista, mas que tempo bom, eu sou do interior e tive o privilégio de viver tudo isso, sim privilégio.

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