domingo, 9 de novembro de 2014

A fábula da China



(Zero Hora - Cultura – tradução de Sérgio Capparelli e Márcia Schmaltz)


               Uma vez, ao pôr-do-sol, Zhuang Zi cochilou debaixo de uma árvore e sonhou que havia se transformado numa borboleta. Ele bateu asas, certo de que era uma borboleta...
              Esvoaçou aqui e ali com um regozijo tal, que logo se esqueceu de que era Zhuang Zi. E depois, ao acordar, ficou confuso: Zhuang Zi tinha sonhado ser uma borboleta ou era uma borboleta que havia sonhado ser Zhuang Zi?
               Talvez Zhuang Zi fosse a borboleta! Ou talvez a borboleta fosse Zhuang Zi!
               É esse resultado da transformação das coisas.


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              No reino de Qi, havia uma moça em idade de casar. Era muito bonita e tinha muitos pretendentes, mas não sabia que noivo escolher. Um dia, dois moços diferentes foram à sua casa pedi-la em casamento. Um morava no Leste e o outro no Oeste.
              O moço que morava no Leste era feio, mas vinha de uma família muito rica. O moço que morava no Oeste era bonito, mas vinha de uma família muito pobre. Os pais da moça não sabiam qual marido apresentar para sua filha. Então eles permitiram que ela desse a sua opinião sobre com quem devia se casar.
               A moça ficou encabulada. Passou o tempo, e nada de uma resposta. Seu pai chamou sua mulher para um canto e perguntou:
               - Nossa filha não tem coragem de falar?
               A mãe foi até onde estava sua filha e disse:
           - Se está com vergonha de falar, apenas aponte para o rapaz de sua preferência. Quer dizer, nem precisa apontar. Toque seu próprio braço. Se tocar o braço esquerdo, é que gosta do rapaz do Oeste, que está a sua esquerda. Se tocar o braço direito, é que gosta do rapaz do Leste, que está na sua direita.
            Depois de algum tempo, a moça voltou, mas ainda não tinha tomado a decisão. De repente, ela tocou seu braço esquerdo. Ela queria então se casar com o moço do Oeste. Porém, logo em seguida, tocou também seu braço direito.
              - O quê? Você pretende se casar com os dois? – perguntou o pai surpreso.
             - Não – ela respondeu, falando pela primeira vez, com uma voz sussurrante. - Eu quero comer na casa do moço do Leste e dormir na casa do moço do Oeste.
              Seus pais disseram:
              - Não é possível ter sempre tudo o que se quer. Às vezes é preciso fazer opções!
              A moça pediu mais algum tempo para pensar.


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              Certa vez um criador de animais disse aos seus macacos:
              - Vocês agora vão receber três bananas de manhã e quatro de tarde.
        Os macacos ficaram transtornados. Agarraram-se às grades. Guincharam. Alguns até mostraram os dentes.
              O criador disse para eles:
              - Certo, certo! Que tal então quatro bananas de manhã e ter de tarde?
              Ouvindo isso, os macacos ficaram contentes e se aquietaram.
              Alguns deles comentaram que aquela, sim tinha sido uma grande vitória.

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             Yu Lizi diz que: “A força do tigre é, sem dúvida, alguma, superior à do homem. O tigre possui garras e dentes afiados e fortes, enquanto o homem não os possui, logo, é natural que o homem seja devorado pelo tigre. Contudo, é raro se ter notícia de homem devorado por tigre, mas é freqüente tapete de tigre nas casas. O que acontece?
             O tigre usa a força, enquanto o homem usa a inteligência. O tigre possui apenas garras e dentes afiados, enquanto os homens manejam armas. A força é equivalente a um, enquanto a inteligência é equivalente a cem; o tigre atua sozinho, enquanto o homem atua em grupo. Um tigre contra cem homens, apesar de sua ferocidade, sempre perderá. Um homem só será alimento de tigre, se for impedido de usar a sua inteligência ou de usar as suas armas.
              Por isso é que se diz, que um homem que usa apenas a sua força e não a sua inteligência, ou atua sozinho e não em grupo, é considerado um tigre. Então, por que estranhar que a pele dessas pessoas seja usada nas casas como tapetes?”


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           O gato achou que estava ficando velho demais para pegar rato. Colocou um colar de monge ao redor do pescoço e saiu para passear. Os ratos ficaram muito surpresos com a mudança, pois monges geralmente não comem carne.
           - O gato agora é vegetariano – gritou um deles, correndo para anunciar a novidade.
         Depois de uma longa reunião, os ratos decidiram ir em cortejo agradecer ao gato por uma decisão tão sábia. Um pequeno grupo decidiu não participar da cerimônia de agradecimento, dizendo que podia se tratar de um truque do gato.
         O cortejo já era esperado pelo gato e tudo saía conforme ele havia planejado. Ele, partiu então para o ataque, agarrando três ratos, dos grandes, e devorou-os ali mesmo, na frente dos outros, que fugiram apavorados.
           Os ratos reuniram-se novamente para discutir a situação. Um deles disse:
           - Eu bem que avisei que podia ser um truque!
           Houve quem não apreciasse esse comentário. Um rato, que ali estava de visita, explicou:
        - Esse fato apenas comprova que os gatos vegetarianos são mais ferozes do que os carnívoros!
           Depois disso, suspenderam a reunião para observar melhor o comportamento do gato.

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