quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Por pena

Darcy Azambuja




Eu conto como me contaram.

Diz que foi logo depois do combate do Cerro... hein? Não, senhor. Que noventa e três! Foi na de agora. Pois o entrevero foi brabo; rolou facão e choveu bala que foi barbaridade. Le digo! É coisa séria! Se não fossem os calos da outra e a obrigação de agüentar o tirão... Depois, antigamente era mais ferro branco que outra coisa. Cada talho que saía alumiando, e cada lançaço que era um mandado. Com o ferro tinindo no ferro do parceiro, a gente estava mais à vontade. Olho vivo e destreza, no mais. Agora, não. É bala que é um castigo. A tal de metralhadora, então!... Olhe, quando a coisa ferve, é como temporal de verão. É aquele guascaço da chuva levantando poeira; depois estia, vai afrouxando, quando é de repente se desata de novo em manga de pedra. Naquela zoada desgraçada às vezes se perde a cabeça. É gente estrebuchando de um lado, é cavalo pateando do outro, é o remoinho dos entreveros, é um flanco que se solta campo fora como uma trovoada, e vai arrebentar lá longe, e volta, corcoveia, vai de novo... E as balas pipoqueando sempre, como fogo em taquareira!

Pois o do Cerro foi igual. Nossa Senhora! que correu chumbo. Era como pra acabar de um tudo com a gauchada. Depois de três horas de fogo, como visse que a coisa não dava de si, o nosso comandante começou a mandar carga. E aí é que era! De vez em quando, se despencava um esquadrão, e os fletes não chegavam a dar vinte em duas quadras, já a máquina velha estralava detrás de um caraguatal, e era aquela ceifada!

Lá fresca! Hai que ver; não é coisa de graça. Foi mesmo numa dessas que o Coronel Ribas... Mas, Bueno; isso é coisa sabida. Vamos ao caso.

Vocês conheceram o Quirino e o Juvêncio, lá das Palmas, da gente do Coronel Pedruca? Pois são os cujos. Dois turunas, já le digo, índios de lei, no trabalho como na guerra. Criaram-se sempre juntos, e peleavam juntos. E peleavam!... Pois, como dizia, naqueles entreveros do fim, que nem é bom falar, que quem saiu de em pelo saiu bem aperado, os dois irmãos se perderam num caroço brabo da ala esquerda, cortados dos companheiros que iam retirando. E foi que não sei de que jeito, lhes bateu em cima o Hilarião Chico com um piquete. Era coisa de conta antiga entre eles. Rabo de saia, que o Hilarião... Mas, bueno. Foi a noite que ajudou. Os dois riscaram na picanha; o Juvêncio com uma perna estrompada duma rodada e com uma lançaço na costela. E se foram, tangidos pelos de trás. Nem é bom pensar o que seria aquela disparada sem rumo, noite afora. Frio, então: mês de agosto. Encarangados, sem saber aonde iam os matungos cansados, e pressentindo atrás o inimigo que vinha, e se chegasse...

O Juvêncio ia mal, com a ferida aberta e agüentando dores de matar. O outro dava coragem, foram tocando. Mas por fim ele não aguentou mais a apearam numa recosta, sem saber onde. No brete do matador, porque dali pra morte... e ainda se fosse só! O Quirino quis ver se tratava da ferida do irmão e foi então que este, gemendo, com a voz travada, pediu:

- Quirino, não aguento mais, não vou pra adiante.

- Não afrouxa, irmão. Um homem é um homem.

- Me liquidaram desta. Não vou mais longe.

- Pois morremos aqui, e ainda pelamos.

- Não. Eu, com mais um pouco... O Hilarião vem aí. Tu vais embora.

A noite estava quieta. Nem coruja, nem quero-quero. Mas é um medo grande que vem não sei como, e arrepia e engasga a gente, quando vai acontecer alguma coisa. Os dois tironeados do destino se encostavam um no outro, pra agüentar melhor.

- Quirino, vai embora, senão são dois, eu não quero.

- Bueno, chega. Tu sabes que é escusado.

- Não. Tu vais. Escuta: é o último pedido.

A voz dele estava flaquita, mas era duma dor mui grande, que não se acalma, e que por fim a gente ainda vive porque ela dói. Les digo, eu sei o que é isso...

E foi então que ele pediu.

- É a última coisa, irmão. Jura

- Mas que é? Tu sabes que eu faço.

- Jura?

- Por Deus, Nosso Senhor. Por alma da nossa mãe.

- Eu quero morrer aqui, ouviu? Não posso mais.

- Pois sim, ficamos.

- Não. Tu vais. Mas não me deixas vivo. Tu sabes...

O outro levou um estremeção.

- Mas irmão...

- Jurou. Não posso falar quase. Vai embora enquanto é tempo. Pelo amor de Deus! Agarra a minha faca que está cortando...

Vocês entendem, não? E o que havia ele de fazer? Eram irmãos, tinham vivido e peleado como irmãos, sempre juntos. Agora, um tinha que ir. O inimigo vinha vindo, e se chegasse... Coisas antigas que não têm perdão. Nem tinha volta. O Hilarião, pior que tigre! Tinha dito e fazia.

- Não, Juvêncio, ainda peleamos.

- Quirino, tu tens que ir embora... que é pra depois... Vocês ainda se encontram.

O coração do outro estava pequenininho de pena, e grande de raiva, de ver o irmão se finando e não poder fazer nada... senão aquilo!

- Deus me ajude. Quirino, tu juraste... é pra meu bem.

Nisto quero-queros gritaram longe. Era como avisando...

- São eles! Ligeiro, meu irmão!...

O Quirino, já meio transtornado, agarrou a faca. E foi o outro que estendeu o pescoço, e foi a mão do outro que apertou a dele que tremia... O sangue esguichou na mão do que matava de pena.

Quando os quero-queros gritaram de novo, ele montou sem olhar para trás, e se foi, com o peito arrebentado, sem poder chorar.

Vocês entendem? Que havia de fazer? Para diante, o irmão não podia; atrás vinha o outro. E era conta velha, que não há libra que pague. E havia de ser, se ele chegasse, as quatro estacas, o marmeleiro, ou... Para que dizer? A gente sabe. A guerra entre o mesmo povo tem isso. Será castigo. Tinha que ser assim. Matou, mas de pena, mas de bom, para não ver um ente, que era irmão, padecer mais.



Darcy Pereira Azambuja nasceu em Encruzilhada, RS, em 1901 e faleceu em Porto Alegre, em 1970. Sua estreia, em 1925, com No Galpão, teve o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras, mereceu a melhor crítica e recebeu o favor público. Entretanto, só voltaria a publicar novo livro de contos regionalistas, nos moldes do primeiro, em 1956. Ao longo desse largo espaço de tempo, deixou de fazer literatura para entregar-se ao magistério superior e à administração pública. Chegou a catedrático da Faculdade de Direito de Porto Alegre e a secretário do Interior e Justiça do governo do Rio Grande do Sul. Nada, porém, impediria que seu livro de estreia continuasse a "fazer carreira literária". Dizem que, se os escritores deixassem sucessores, como nos inventários, este contista seria o herdeiro de Simões Lopes Neto.






Nenhum comentário:

Postar um comentário