quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nosso Adão

Montiel Ballesteros


Nós também tivemos nosso Adão, crioulo, de quem Deus pegou uma costela para formar uma Eva que lhe apresentou como companheira.

Depois da china lhe trouxe o pingo, para a lida do trabalha e a diversão do passeio ou das carreiras; e a guitarra, que lhe presenteou para adoçar os pesares e para ensaiar cantares em que extravasasse a poesia de sua alma.

Mais adiante, para defendê-lo da intempérie, lhe apresentou o rancho, com um fogão onde assaria o churrasco para alimentar-se e com um berço para abrigar o filho por nascer.

Depois lhe trouxe o cachorro vigilante e a companhia matinal da calandra para, na aurora, despertá-lo com sua música tão doce.

E o homem, com todos esses tesouros, ainda parecia não estar contente.

E Deus lhe perguntou:

- Que falta?

O paisano lhe respondeu, filosofando:

- Tudo passa, Papai Deus, menos a dor... Minha mulher pode se ir com outro; haverá momentos em que não terei vontade de cantar; quando eu for velho não montarei o pingo, meu filho fará rancho aparte, pode fugir o cachorro, cair a casa... E a mim não restaria nenhum companheiro. Um companheiro a quem contar devagarinho as penas, as tristezas da vida; que me faça sentir sua quente mão de varão, e que seja sério calado e fiel.

Então, Deus lhe presenteou o mate amargo.




*Adolfo Montiel Ballesteros (Paysandú, 1888 - Montevideo, 1971) é um clássico da literatura campeira do Uruguai, destacando-se dentre suas obras “Queguay el niño índio”, “Fábulas” e “Querência”.



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