quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Vida e morte de Adão Latorre

Luis Godinho


Adão Latorre, no centro, e seus ajudantes.

No ano de 1983 ao ler o livro “A história de Bagé” de Eurico Jacinto Sales, edição 1955, dei início a uma pesquisa sobre a vida de Adão Latorre (foto acima no meio), o que acabou em letra e música. Naquela época ainda não se dava muita importância à degola (combate do Rio Negro). Entendiam que o “Negro Adão” não passava de um covarde a mando do general Joca Tavares. Os anos se passaram e a música com letra de minha autoria e melodia de Luiz Carlos Camejo Cardoso (o Cardosinho de Bagé), interpretação de Wilson Paim, tornou mais popular e entendida a figura de Adão Latorre. Já no ano de 1993, Centenário da Revolução Federalista, a Urcamp, Bagé, através do ilustre mestre, professor, pesquisador e historiador Dr. Tarcísio Antônio da Costa Taborda, realiza um belo conclave em comemoração ao centenário da revolução, quando então anuncia que Adão Latorre era um tenente-coronel do Exército Uruguaio e que atuava como mercenário na dita revolução.

Já no ano 2004, juntamente com o Núcleo de Pesquisa Históricas de Bagé, que tem o nome em homenagem ao Dr. Tarcísio, visitamos o túmulo de Chico Diabo (na Guardinha) e logo a seguir o de Adão Latorre (cemitério de Santa Tecla) aproximadamente a oito quilômetros de Bagé. Mais adiante fomos informados por Eron Vaz Mattos do local onde moravam os pais de Adão Latorre (Rodeio Colorado) a partir da aí, então, é que entendemos o motivo da degola do Rio Negro, ou seja, o coronel Pedroso, depois de atear fogo na Estância do Limoeiro, cruza pelos “Olhos D’Água” e a poucos quilômetros, próximo a Encruzilhada, degola os pais de Adão Latorre e ateia fogo no seu rancho. Por esse motivo é que Adão Latorre se apresenta como voluntário aos revolucionários com o intuito de vingar o assassinato de seus pais por Manoel Pedroso, o que aconteceu com a sua degola e a seguinte narrativa, segundo o Dr. João Maria Colares, em História de Bagé por Eurico Jacinto Sales, página 278:


Manoel Pedroso:
- Adão, quanto vale a vida de um homem valente e de bem?
Adão Latorre:
- De bem... não sei! A vida de um homem vale muito, a tua não vale nada porque está no fio de minha faca e não há dinheiro que pague.
Manoel Pedroso:
- Pois então degola, negro filho da puta!
Dito isso, segurou-se a um arbusto, levantando a cabeça para facilitar a tarefa ao inimigo.

Assistiu essa cena Pedro Luis Lacerda que dizia ainda haver ouvido o pedido de Pedroso a Adão para que entregasse um anel de seu uso a uma filha residente em Pelotas, segundo informações foi cumprido o feito por Adão Latorre. Passou anos e segundo as pessoas que conviveram com Adão diziam que era um cidadão de paz, amigo e servidor.

Na minha passagem pelo Exército Brasileiro por quase 30 anos, conheci o Pedro Antônio de Souza Neto (tio Pedro), ferreiro do antigo 12º RC, hoje 3º Batalhão Logístico (Batalhão Presidente Médici), o qual, ao conhecer a música Adão Latorre e seu autor, confessou que, no ano de 1923, com a patente de 3º sargento do Exército, foi designado a integrar um pelotão para fazerem o translado do corpo de Adão Latorre do Passo da Maria Chica (Ferraria, Dom Pedrito) para Bagé, onde foi sepultado no cemitério de Santa Tecla onde se encontra até hoje, conforme registro fotográfico, juntamente com seu irmão, o major João Latorre. Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Pedro Antônio de Souza Neto desempenhou suas funções no 3º Batalhão Logístico, até os 90 anos de idade, vindo a falecer com toda a sua lucidez, aos 93 anos.


Adão Latorre e parceiro


Túmulo de Adão Latorre


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