quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Histórias de paraquedistas X

Uma história de real de paraquedista

Esclarecimento

Se alguém quiser servir na Brigada de Infantaria Paraquedista, como voluntário, servirá um ano, podendo, se houver vaga, ficar até 9 anos. Terá que fazer cursos para ser um militar de carreira.

Num ano, viverá as maiores emoções de sua vida. Sofrerás castigos cruéis, alegrias imensuráveis, mas isso tudo, norteará a sua vida para sempre.

Os que ficam apenas um ano, como eu, para receber o bute marrom, a boina vermelha e o brevê prateado têm, em quatro semanas, que sofrer os piores castigos físicos, passar por provas que demonstrem coragem e determinação para um jovem de 18 a 19 anos, antes de entrar num avião e saltar de paraquedas em situação de combate.

Na Área de Estágios, nos anos 60, o bicho pegava. Os instrutores não queriam quantidade, eles queriam qualidade. Qualquer descuido, qualquer vacilo, você era desligado. Ou, então, pela pressão constante, você pedia para ir embora. Você estava no limite da sua força física e a pressão psicológica era cruel. “Eles”queriam que você desistisse, mas, na verdade, não queriam isso. Eles queriam homens de fibra. Homens de uma tropa de elite do Exército Brasileiro. Eles queriam verdadeiros paraquedistas!

E eu consegui ser um deles...

Agora, leia o texto abaixo...

 Apenas uma palavra...

Uma palavra pode ser apenas uma palavra, 
mas também ela pode ser a palavra!


Já contei esta história dentro de um contexto, agora vou contá-la dentro do seu verdadeiro enfoque histórico. Hoje, entendo por que ela foi dita, qual foi o seu verdadeiro sentido e o que, verdadeiramente, ela representava dento da atmosfera dramática em que foi dita. Era apenas uma palavra, mas foi a palavra que, ao seu nome, já tecia o destino de quem a ouviu e o conceito de valor de quem a pronunciou.

Quando envelhecemos, olhamos para trás e percebemos quantas coisas boas estiveram no nosso caminho, diante de nossos olhos, ao alcance de nossas mãos, com sons diante de nossos ouvidos, mas, muitas vezes, deixamos de contemplar tudo isso que esteve tão perto de nós...

Muitas vezes pensei em tudo que fiz na Área de Estágio (sempre ela) de certo, de errado, onde quase perdi tudo e onde ganhei, pois, afinal de contas, consegui. Cada dia, cada ato, era algo diferente. Você acha que está perto, mas pode estar longe do seu verdadeiro sonho. Também pode julgar que já conseguiu e, de repente, perder tudo. Suas ações, emoções, medos e determinação é que farão a verdadeira diferença.

Todos, na Área de Estágio, estão envolvidos no mesmo processo. Uns julgam, cobram, castigam, punem. Outros executam, sofrem, balançam e não podem tremer nem vacilar. Há muitas coisas que você que terá que fazer bem feitas e, numa delas, você poderá errar, seu corpo poderá desabar e pôr tudo a perder.

Numa sessão de toros em que participei, por exemplo, juntamente com mais sete instruendos, totalizando oito, era para ser apenas uma sessão de toros banal como todas as outras. Um instrutor experiente, com o seu pequeno toro para comandar o exercício, e oito homens fazendo tudo ao comando dele. No início, tudo certo, tudo coordenado: homens, força unida em dezesseis braços, fazendo o pedaço redondo de madeira um palito que sobe e desce na cadência rígida da contagem e ritmo do instrutor. Suor, cansaço, descompasso e aceleração. A madeira já não sobe com vigor. Os braços, antes firmes, já se encolhem; não existe mais suavidade ao repô-lo nos ombros. Agora é uma paulada em cada descida. O tronco flutua como se fosse uma cobra rastejando pelo chão. A força de todos agora é o limite de alguns. Ninguém sabe quem ajuda, quem faz o exercício, quem empurra para cima e o recoloca para baixo. A sessão se torna uma tortura devido a sua descoordenação.

Na Área de Estágio, problemas não podem entrar, dores não devem existir. Seu corpo tem que estar inteiro. Doenças? Nem pensar. Mas eu tinha um pequeno problema. Um furúnculo logo abaixo do ombro esquerdo. Um esparadrapo e tudo estará resolvido, pelo menos eu pensava assim... Protejo o corpo do tronco com as mãos, não o deixo encostar-se em mim. Já fiz muitas vezes esse procedimento e tudo deu certo, dará, com certeza, outra vez. Mas a duração, o vigor dos exercícios não são mais os mesmos, afinal, estamos na Área de Estágio...

O furúnculo arrebenta, sangue e areia se misturam no meu corpo. Dor não há nenhuma, não há cansaço, não há sede, só há o descompasso. Um instrutor, vendo aquela cena patética, onde homens tentam dar um mínimo de coordenação onde já não há mais nada para dar. Vendo que pinto com o sangue rubro meu coturno preto, percebe que, naquele momento, eu já havido conseguido, mesmo faltando muito a conseguir, dizendo a palavra dentro do que ele estava vendo, e julgando o esforço de um homem que ultrapassava seus limites, tentando se tornar glorioso. Então, ele disse a palavra, que ficou mais eloquente dentro uma pequena frase, que mais que uma simples palavra, era uma consagração: “Vamos lá, PQD!”.*

 Então, eu soube, muitos anos depois, por que só eu a ouvi. Porque naquele momento e para aquele instrutor eu já havia conseguido, pelo menos para ele, a minha brevetação como um verdadeiro paraquedista!


*PQD = paraquedista (só para os já formados). E quem disse essa frase foi o Sgt Milhomen

Nilo da Silva Moraes, Pqdt 11.779 – 1964/4

(História do livro Almanaque Paraquedista)




Na plataforma, Sgt Scepaniuk* comanda uma sessão de toros nos anos 50,
na Antiga Área de Estágios, na Colina Longa,


Sessão de toros anos 60



Sessão toros atual

*O Cap Casemiro Scepaniuk faleceu no dia 2 de fevereiro de 2016, aos 94 anos. 

Um comentário:

  1. A ginástica com toros visa criar no paraquedista o espírito de equipe, muito importante na vida militar.
    Paulo Fagundes Pqdt 11372 64-02

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