terça-feira, 18 de novembro de 2014

Histórias de paraquedistas IX

A história da capa de um livro histórico

Por Nilo da Silva Moraes, Pqdt 11779 – 1964/4


01)  Quando foi lançada, em 1995, a obra “Ser Pára-Quedista”*, o livro do Jubileu de Ouro da Brigada de Infantaria Paraquedista, do, na época, 1º Sargento Ly Adorno de Carvalho, quase ninguém notou o trabalho artístico do ex-soldado José Fernando Martins do Monte, pqdt 3426, do 1957/6.

02)  Ly Adorno havia encomendado a capa a um pintor, mas este, ao fazer o esboço do trabalho, não captou o “espírito paraquedista”, não se ateve a detalhes que identificam a mística do vibrador aeroterrestre. Após muitos debates entre o Sgt Ly Adorno, Pqdt 503, Sgt José Álvaro Diniz Nogueira, Pqdt 108,  Cel José Roberto Marques Frazão, Pqdt 26138, Maj Antônio Carlos Lobo Cordeiro, Pqdt 35817, e sua equipe, Ten Arlindo Marins da Luz, Pqdt 8287 e o Sd José Fernando Martins do Monte, Pqdt 3427, foi eleita a capa acima com a definitiva.

03)  Ly Adorno deu-nos explicação do que significava cada elemento gráfico do  trabalho artístico da capa, na elaboração de cada detalhe que pudesse nos identificar como integrantes de uma tropa de elite do Exército Brasileiro.

04) A costa marítima brasileira aparece com a cor azul em dois tons cromáticos distintos: o azul-celeste, mais suave, sugerindo até onde vai o nosso limite territorial das 200 milhas; o azul-marinho, onde começa o Oceano Atlântico internacional.

05) O “T”, da vertical do ponto, que marca, pelos precursores, o local exato do lançamento das equipes de paraquedistas pelos Mestres de Saltos, dando plena condição de salto, no caso acima, foi ideia do Prec 15, José Álvaro Diniz Nogueira, Pqdt 108. A vertical do ponto está sobre a cidade do Rio de Janeiro, onde os pretendentes de todo o Brasil vão fazer o seu curso básico, na tentativa da conquista do bute marrom, do brevê de prata e da boina vermelha. Segundo Nogueira, foi uma forma de homenagear os valorosos MS do Núcleo da Divisão Aeroterrestre.

06) A silhueta do nosso país está acima dos demais países de America do Sul, em dourado,  na cor verde das nossas riquezas vegetal, hídrica e mineral. A fronteira, em amarelo, é como se houvesse um muro que deve ser defendido das nações limítrofes, bem como a foz do Rio Amazonas, entrada para a maior reserva florestal do mundo.

07) A frase: “Brasil, acima de tudo” é de Manuel José Godim da Fonseca (1899-1977), que foi escritor, jornalista e historiador. Esta frase está no seu livro “Que sabe você sobre petróleo?”, edição de 1955, página 37, quarta edição, Livraria São José, Rio de Janeiro/RJ.

08) A contracapa do livro foi sugestão do Prec Nogueira e do Tenente Arlindo Marins da Luz, pqdt 8287, do 1962/1, mostrando fotos de símbolos de arrojo e coragem da nossa tropa paraquedista.

Curiosidade

09) Por que o pqdt está sobre o oceano? Quem explicou foi o próprio artista ao autor do livro:

− Sargento Ly Adorno, eu fiz uma pequena mudança no pqdt saltando sobre o mapa do Brasil.

− Qual, Monte?

− Já que as 200 milhas são nossas, eu o fiz cair sobre o Oceano, para que nenhum aventureiro pense que elas não têm dono. Elas são nossas, sim senhor!

Falou o bravo mestre.

− Monte, é por estas e outras que qualquer missão pqdt, ela sempre será cumprida; nosso soldado tem iniciativa, valeu!


*grafia da época.

Adendos

José Álvaro Diniz Nogueira, Pqdt 108 e Prec 15

10) Deve-se ressaltar a colocação do Brasão da Brigada, que consta na capa.

11) Nas orelhas, há  a  foto captada no 1º Salto de Veteranos Precursores, em 10 de dezembro de 1994, e biografia organizada pelo autor, mas redigida por seu inconfundível amigo, Prec. Nogueira, escritor e poeta – mesmo ele negando ser o autor. Nogueira sempre terá os agradecimentos de Ly Adorno pela sua generosa colaboração em todo o livro, através da firme amizade e de sua fértil memória, o que facilitou nas entrevistas com os pioneiros e veteranos, revivendo passagens por ele testemunhadas desde os idos de 1947, quando incorporou no Núcleo de Formação e Treinamento Paraquedista.

12) Na contracapa há diversas fotos sobre a atividade paraquedista. O escudo pqdt, hoje selo da Brigada, foi o 1º símbolo a ser usado pela tropa pqdt, em desfile na Avenida Duque de Caxias, na Vila Militar, onde foi rezada uma missa campal. Todos os soldados eram ainda pés-pretos, nos idos de 1948.

13) Quando a capa estava toda aprovada, Ly  e Nogueira mostraram-na ao veterano Capitão Pqdt 187 – 1950/1 Afrânio de Sant’Ana que, num repente, encerrou a reunião dizendo que, por dever de amor, justiça e patriotismo, deveriam ser inseridas três frases: “Amor ao Paraquedismo, Dedicação ao Exército e Veneração à Pátria”.

14) Deve ser ressaltado o esquecimento do nome do Subtenente ou Sargento responsável pelo setor dos meios de apoio da Seção Técnica do CIP-GPB, cuja presteza e colaboração com fotografias da contracapa e muitas outras, foi inestimável, e, por um lapso de memória, não saiu na  página dos agradecimentos.

Ly Adorno de Carvalho, Pqdt 503, Prec 16, FE 14*

 15) As fotos da contracapa do livro “Ser Pára-quedista”, de Ly Adorno de Carvalho, são de uso do site da Brigada e de antigas revistas do Regimento Santos Dumont. Cremos que as antigas foram tiradas pelos fotógrafos Gaspar, na Colina; e Soares, no RSD.

16) Na  contracapa, há a foto: À porta! – de um Soldado-aluno do curso de pqdt, em seu primeiro salto. Vê-se que ainda está calçado de coturnos na cor preta, que simboliza o celeiro dos pretendentes. Esta foto consta, por um dever de gratidão aos que, de 1947 a 1948, construíram nossa "Sagrada Área de Estágio", servindo de cobaias aos pioneiros na preparação física e técnica, e que, também, derramaram sangue e suor nessa área. Por motivo de não existir paraquedas, que só chegariam em 1949, foram licenciados sem ser pqdts. Fica aqui nossa indelével gratidão e reconhecimento − é uma homenagem sincera aos  "Pqdt Honoris Causa”.

Observação final do Cap Ly Adorno de Carvalho

Por um dever de justiça é imperioso reconhecer e legar às nossas gerações futuras tudo que falei e escrevi, pois nada haveria de se concretizar sem a valorosa atitude e confiança em mim depositada e o espírito de irmão paraquedista  do Excelentíssimo General Gilseno Nunes Ribeiro Neto, Pqdt 9912, MS 1153, Prec 84, SL 11 e MSSL 5, Comandante do Cinquentenário da Brigada de Infantaria Paraquedista, que soube valorizar e manter "Acesa, pela vida a fora / A chama ardente de Paraquedista" − herança imortal e perene legada pelos 47 Pioneiros do paraquedismo militar do Brasil...

Ly Adorno* − Capitão Pqdt 503 do 1951/3 − Vila Velha, maio de 2014.



Aterragem no Campo dos Afonsos

(Foto colorizada pelo Pqdt Stron)

* O Cap Ly Adorno de Carvalho faleceu em 20 de fevereiro de 2015, em Vila Velha-ES.



Nilo Moraes e Ly Adorno com seus respectivos livros.

Acima, Nilo com o esboço do livro que foi editado
como na capa abaixo.



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