terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ouvido de Músicos



Em 1956/57 o conjunto Os Gaudérios era um dos grandes sucessos da Rádio Farroupilha, inovando na música regionalista, com arranjos belíssimos e usando instrumentos até então alijados daquele segmento musical. Jarbas, vocalista e violonista; Moraes Filho, vocalista; Fernando Miranda - o Neneco -, acordeonista e o maestro José Gomes, arranjador e violonista, traziam em cada apresentação maior brilho às raízes musicais dos gaúchos.

O conjunto explodiu em sucesso não só no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil e, até, na Argentina e Uruguai. E isto significava viagens. Viagens que Neneco, com seu pânico em viajar de avião, detestava.

Frequentemente ele fugia do voo, trocando uma passagem aérea por uma de ônibus. Mas o problema ficou incontornável quando os Gaudérios teve uma apresentação em Paris.

Sobrevoar o Atlântico durante quase 24 horas, dentro de um Super G Constellation, era demais para Neneco. Tentou todos os argumentos, oferecendo substitutos e, até, ameaçando adoecer. Mas não houve como escapar. Doses maciças de calmantes, acompanhadas de uísque, trouxeram a coragem necessária para subir a bordo. Neneco sentou junto à janela, a lado dos motores. Suando frio, não desviava os olhos arregalados das hélices que começavam a girar. Durante o taxiamento na pista e a decolagem ele não ousava se mexer, como se um movimento seu pudesse desequilibrar o avião.

Quando o enorme Constellation ganhou altura e estabilizou o voo, Neneco levantou e chamou aos gritos:

- Aeromoça! Aeromoça! Venha urgente! Agora!

José Gomes, a seu lado, tentava, inutilmente, acalmá-lo:

- Calma, Neneco. Está tudo bem.

- Tudo bem, uma ova! Aeromoooçaaa!

Os passageiros, já meio alvoroçados, apressaram a chegada da comissária de bordo.

- Pois não, cavalheiro. Algum problema?

- Problemão! O que está acontecendo com estes dois motores? - falou apontando pela janela.

Uma olhadela e a resposta tranquila:

- Nada, senhor. Os motores estão normais.

- Normais, coisa nenhuma! Estou cuidando desde a decolagem. Estes motores estavam, em Si bemol e agora estão em Ré maior! Por que mudaram?

* * * * *




Músico da Rádio Farroupilha, Arthur Elzner, foi atropelado por um carro à noite, quando se dirigia para o restaurante Treviso, atravessando a Avenida Borges de Medeiros, entre a Prefeitura e o Mercado Público.

O acidente não foi grave, mas ele caiu junto ao meio-fio. O carro fugiu e alguns notívagos vieram ajudá-lo.

- Está machucado? - perguntou um deles.

- Não, estou bem. Tudo bem.

- O senhor viu a placa ou a marca do carro? - perguntou outro.

- Não, meu filho. Não vejo nada. Sou cego.

Fez-se um silêncio constrangido.

- Mas a buzina do carro era em Si bemol, completou Arthur, acreditando que prestava uma ajuda inestimável para identificar seu atropelador.



Do livro “Making Off”,
 Histórias bem-humoradas dos primeiros anos do Rádio e da TV,
de Sérgio Reis




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