terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Polêmica Noel Rosa X Wilson Batista



A polêmica musical entre Noel Rosa e Wilson Batista começou quando Wilson Batista lançou a música “Lenço no Pescoço”. Tal música gerou réplica por parte de Noel Rosa, tréplica de Wilson Batista e assim por diante, ofertando à MPB vários sambas geniais.

Lenço no Pescoço

(Wilson Batista)

Meu chapéu do lado,
tamanco arrastando,
lenço no pescoço,
navalha no bolso
eu passo gingando
provoco e desafio,
eu tenho orgulho
em ser tão vadio.
Sei que eles falam
deste meu proceder.
Eu vejo quem trabalha
andar no miserê.
Eu sou vadio
porque tive inclinação,
eu me lembro, era criança,
tirava samba-canção.
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão.
E eles cantam
(Breque)
e você canta
e eu não dou.

Rapaz Folgado

(Noel Rosa)

Deixa de arrastar o teu tamanco,
pois tamanco nunca foi sandália,
e tira do pescoço o lenço branco
compra sapato e gravata,
joga fora essa navalha
que te atrapalha.
Com chapéu do lado deste rata,
da polícia quero que escapes
fazendo samba-canção
já te dei papel e lápis,
arranja um amor e um violão.
Malandro é palavra derrotista
que só serve pra tirar
todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
não te chamar de malandro
e sim de rapaz folgado.

Mocinho da Vila

(Wilson Batista)

Você que é mocinho da Vila,
fala muito em violão,
barracão e outras coisas mais,
Se não quiser perder o nome,
cuide do seu microfone,
e deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário,
fala de malandro que é otário,2
mas falando não se faz.
Eu de lenço no pescoço,
desacato e também tenho o meu cartaz.

Feitiço da Vila

(Noel Rosa)

Quem nasce lá na Vila
nem sequer vacila
ao abraçar o samba,
que faz dançar os galhos
do arvoredo
e faz a lua nascer mais cedo.
Lá em Vila Isabel
quem é bacharel
não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite
e a Vila Isabel dá samba.
A Vila tem
um feitiço sem farofa,
sem vela e sem vintém
que nos faz bem.
Tendo nome de princesa,
transformou o samba
num feitiço decente
que prende a gente.
O sol na Vila é triste,
samba não assiste,
porque a gente implora.
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
que as morenas vão logo embora.
Eu sei tudo que faço,
sei por onde passo
paixão não me aniquila.
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte, meus senhores,
eu sou da Vila!

* Novos versos

 (para o rádio)

Quem nasce pra sambar,
chora pra mamar
em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
é a nossa Vila,
o berço dos folgados.
Não há cadeado no portão,
pois lá na Vila não há ladrão!

Conversa Fiada

(Wilson Batista)

É conversa fiada
dizerem que o samba
na Vila tem feitiço.
Eu fui ver para crer
e não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
porém eu vos digo: cuidado!
Antes de irem dormir
dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui na Vila ver o arvoredo se mexer
e conhecer o berço dos folgados,
a lua nessa noite demorou tanto
me assassinaram um samba
veio daí o meu pranto.

Palpite Infeliz

(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz,
que sempre souberam muito bem
que a Vila não quer abafar ninguém,
só quer mostrar que faz samba também.
Fazer poemas lá na Vila é um brinquedo,
ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
você não viu porque não quis
quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
que tira samba mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
onde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Frankenstein da Vila

(Wilson Batista)

Boa impressão nunca se tem
quando se encontra um certo alguém
que até parece o Frankenstein.
Mas, como diz o rifão,
por uma cara feia
perde-se um bom coração.
Entre os feios estás na primeira fila,
eu te batizo “Fantasma da Vila”.
Essa indireta é contigo
e depois não vás dizer
que eu não sei o que digo
(sou teu amigo).

Terra de cego

(Wilson Batista – 1ª versão)

Perde a mania de bamba
todos sabem qual é
o teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
mas na terra de cego
quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
não deves apelar
para um barulho à mão.
Em versos podes bem desabafar,
pois não fica bonito
um bacharel brigar.

Noel achou a melodia da música acima interessante e, para terminar a polêmica, Noel faz nova letra para “Terra de cego”.

Terra de cego

(Noel Rosa e Wilson Batista – 2ª versão)

(Para Ceci que foi amante dos dois)

Deixa de ser convencida
todos sabem qual é
teu velho modo de vida.
És uma perfeita artista, eu bem sei,
também fui do trapézio
até saldo mortal no arame eu já dei
(muita medalha eu ganhei!)
E no picadeiro desta vida
serei o domador,
serás a fera abatida.
Conheço muito bem acrobacia
por isso não faço fé

em amor de parceria.

Dos livros:

“Noel Rosa - uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier,
“Wilson Batista e sua época”, de Bruno Ferreira Gomes,
“Wilson Batista”, de Luís Pimentel e Fernando Vieira.

CD:

Obs.: Existe um CD chamado Polêmica de um disco de 10 polegadas da Odeon, cantados por Roberto Paiva (músicas de Wilson Batista) e Francisco Egídio (músicas de Noel Rosa), vendido na Livraria Saraiva, das principais capitais brasileiras.



Acima, Wilson batista e Noel Rosa; abaixo, A capa do LP e do CD



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