domingo, 30 de novembro de 2014

Histórias de paraquedistas XI

Uma história incrível que dizem ser verdadeira.



O mudinho paraquedista

Nos anos cinquenta, havia, nas imediações da Área de Estágio, um surdo-mudo que era o maior quebra-galho dos paraquedistas. Com altura mediana, magro, mas muito forte, aparentava ter, na época do fato que vou narrar, mais ou menos vinte anos. Era um tremendo vibrador com coisas relacionadas ao paraquedismo.

Ele, constantemente, desafiava os pqdts para uma sessão de flexões, cangurus, pulos-de-galo ou polichinelos, e quase sempre ganhava. Quando tinham que testar algum equipamento da Área, o comandante dava a ordem: “Chama o mudinho!” Ele, para testar o cabo de aço da torre, saltava com o maior entusiasmo; testava o balanço, testava a potência do motor que arrastava os pqdts no chão ao serem arrastados numa ventania. Fazia tudo com o maior prazer e não tinha medo de nada. Se fosse normal, com certeza, seria um dos melhores paraquedistas do Exército Brasileiro.

Segundo contam os mais velhos, ele, geralmente, engraxava os butes dos oficiais, ia ao bar buscar refrigerantes ou água para os sargentos e soldados. Fazia tudo por qualquer gorjeta. Dava-se com todos, sorria para todos. Estava sempre de bem com a vida.

Um dia, um tenente falou: “Vamos fazer o mudinho saltar de uma aeronave.” Para um civil meio maluco-beleza e ainda surdo-mudo era uma temeridade. Mas todos concordaram que seria uma tremenda homenagem a um grande vibrador. Arranjaram um fardamento, equiparam o mudinho e foram para o Campo do Afonsos. Os pilotos nem desconfiaram que havia um deficiente físico num avião militar. E o mudinho saltou com maior entusiasmo. Imaginem vocês, o mudinho, ao chegar à sua casa, no subúrbio onde morava, e “contar”, na linguagem dos mudos, a sua façanha aos seus familiares e amigos. Devem ter internado o mudinho.

Os personagens desta história nunca vão assumir que ela tenha realmente acontecido. Ela é contada à boca pequena nas reuniões dos veteranos paraquedistas. Alguns sabem até o nome do autor da façanha, mas é segredo militar. Aqui a contamos pela primeira vez, para mostrar a mística que envolve a nossa corporação, que vê em um ser humano, mesmo sendo ele um deficiente, as qualidades inerentes de um vibrador que amava, infantilmente, tudo relacionado à nossa Brigada de Infantaria Paraquedista.

Se vocês ficaram impressionados com esta narrativa, não a levem muito a sério; ela pode ser, apenas, mais uma história de paraquedistas...


Adendos:

Eu conheci o Mudinho e sei até o nome do tenente que o fez saltar, parece que era Fonseca. Ele batia no peito, desafiando um pqdt, e mostrava qual exercício que queria disputar com ele, e sempre ganhava o desafio.

          Casemiro Scepaniuk

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          Nobre companheiro Paraquedista!

          Bom dia:

De forma considerável é este seu amigo uma testemunha ocular no que diz respeito ao personagem descrito em seu belo texto. Vivi nas épocas – foram duas, décadas de 50 e 70 – depois de considerável período na primeira, ele simplesmente desapareceu, voltando bem mais tarde, na década referida, de forma surpreendente.

Na verdade, suas atuações dizem respeito, fundamentalmente ao exercício da atividade de engraxate. Exatamente magro não era, mas se confirma seu bom porte físico e músculos pronunciados, aprimorados em continuadas sessões de aparelhos de ginástica. É preciso, contudo, que se tenha cautela quanto à afirmativa que ele teria sido fardado e levado a saltar de paraquedas. Vivi mais de vinte anos no âmbito da Brigada e jamais ouvi qualquer alusão a esse fato. Não obstante, para uma confirmação mais definitiva, irei conversar com veteranos como este seu amigo e depois retomarei o assunto.

Afirmo, não obstante, que ao lado de outros detalhes mencionados em seu texto, o que está definitivamente confirmado, além da atividade de engraxate já referida, suas motivações pela aparência física, que procurava sempre demonstrar de forma ostensiva e orgulhosa, era, possivelmente os saltos da torre e o desafio para as corridas.

Complemento com o que faltou! Embora não se confirme, alguns dizem que se chamava Humberto.

Cap. Domingos Gonçalves – Rio de Janeiro

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Rio, 17 Abril 2007

Caro Fagundes

O personagem ao qual se refere o texto existiu de fato, nos idos de 1957, ano de minha incorporação já o encontrei lá. Não me recordo o nome dele. Para nós ele era o “mudinho”, até porque ele não gostava e reagia. Vivia entre a Colina e o QG, mas só gostava de engraxar os boots dos oficiais. É verdade que, por graça, por vezes o uniformizavam. Mas nunca como na charge exibida abaixo porque naquela época boina não existia ainda.

A boina surgiu, anos mais tarde, em um 7 de setembro, quando no trajeto final para o desfile, trocamos o fibra preto que era o usual pela boina que trazíamos escondida sob o dolmam (época, hein, já vai longe). Na véspera corria um zunzum que algo iria acontecer por ocasião do desfile e toda a tropa da Colina, na época GUA ou GUD, não me recordo bem, fomos todos ameaçados de prisão. O Cel Cmt era f..., reuniu o grupamento, todos concordaram, e fomos à luta. Deu-se a implantação da boina vermelha, que uns dizem ser bordô.

Mas quanto ao mudinho saltar de uma aeronave, aí é forte demais. Nunca foi do meu conhecimento. Da torre sim. Saltou várias vezes. Era diversão!

Agradeço a oportunidade de me proporcionar  o prazer de boas recordações.

         Abraços, Ivan da Cunha Reis – Pqdt 3301 – 1957/5

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 Nilo:

Realmente é muito legal e intrigante esta história do mudinho. Veja bem, eu soube em primeira mão disso, quando conversando com o nosso Cel. Cláudio Neto Di Primio, sobre a “Operação último voo da águia”, que é o nome batizado por mim, para o translado e posterior cumprimento do último desejo do Pqdt 7717, Lima Vieira, de após a cremação do seu corpo, que suas cinzas fossem levadas para o Rio de Janeiro e jogadas por uma aeronave em cima das dependências da Brigada Paraquedista.

O Di Primio, que estava em contato com o Coronel Gobatto, que é da Casa Militar em Brasília e que havia trabalhado com o Lima Vieira na presidência, para tentar facilitar a operação, quando ele veio com esta pérola:

- Freire, esta operação deve ser feita como o salto do mudinho, no mais absoluto sigilo.

Como ele viu que eu nem sabia de quem se tratava, ele fez o devido relato do assunto, e é claro que poucas pessoas tiveram acesso a tal informação.

Mas, para finalizar, sugiro que no final do teu relato, mantenhas o mistério. Talvez o Gonçalves consiga com outro companheiro o nome correto deste “desconhecido e pitoresco herói semiparaquedista”.

          Ricardo Freire, Pqdt 30.346 – 1978/1

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   Prezado Fagundes:

A história é verdadeira! Eu conheci o mudinho. Nunca soube o nome dele e nunca vi ou ouvi alguém conhecê-lo pelo nome (mesmo porque, obviamente – não iria surtir efeito). Na verdade, ele “malhava”, e muito (o dia inteiro), naquele galpão que existia em frente ao avião, perto da torre velha. Lá havia uma espécie de ginásio (tinha cama elástica, paralela e muitos pesos e barras para prática de halterofilismo). Num de repente, o mudo sumiu de circulação. Voltou magro e dizia ter estado muito doente. Depois disso nunca mais soube dele. Quem conheceu o mudo: Luiz Gonçalves Correa (Luiz Mochila). O Luiz era da equipe de cama elástica/paralela/argola e outras modalidades existentes, também, no referido galpão. Outros... Itacolomi; Eneas; Aluízio; Gomes (carpinteiro); Bomfim (carpinteiro) e todos que estiveram na Colina Longa pelos anos de sessenta... e tal. O mudo foi lançado e se orgulhava muito. Usava boot marrom e calça de salto. Bons tempos. Sinto muitas saudades daqueles amigos (muitos já nos deixaram... mas ficou a lembrança de grandes amizades). É bom lembrar que o Mudo era pessoa de fino trato. Educado, respeitador e sempre com um sorriso acompanhados dos sons característicos de quem não fala. Quem teve o prazer de conhecê-lo sabe que não são elogios mentirosos.

           Abraços. Xavier. Até mais

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 Assunto: O Mudo

Prezado Paulo Fagundes.

Realmente quem serviu naquela época (1963) sabe da existência do mudo. Ele era moreno, baixo, normalmente andava com a camisa aberta e, se não me engano, usava bute marrom. A história de que algum oficial o botou para saltar talvez seja invenção, mas que ele existiu, existiu. Só não sei que fim ele levou.
          Um abraço.

          Sergio de Oliveira Mattos, Pqdt 10919 – 1963/9

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Uma lenda, um folclore, sem história? Fagundes, eu vivi e convivi com o nosso inesquecível Mudinho. Gostei da imaginação do autor anônimo da história. Como dizia um antigo político mineiro: O que vale é a versão e não a história.

Valeu!
          Ly Adorno – Pqdt 503 – 1951/3

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 Caro Paulo Cezar:

Em fevereiro de 1955, quando incorporei na Art Pqdt, na Colina Longa – o último prédio, lá estava o mudinho; na ocasião ele era engraxate, fazia mandados, fazia educação física conosco (e que preparo físico), jogava dupla de vôlei bem e estava em todas as peladas, entrava sempre em forma com a Bia Cmdo Sv sob o Cmdo do Cap. Vieira, que mais tarde, devido a um acidente, passou a chamar-se Pé-de-Chumbo, fazia as refeições com todos nós cabos e soldados. Durante um bom tempo, tivemos o dia a dia com ele, mais ou menos até o ano de 1957. Na ocasião ele tinha cama e mesa proporcionada pelo quartel. Financeiramente, vivia dos engraxates e por contribuição de todos nós, que no dia do pagamento cada um dava um valor, inclusive oficiais e sargentos.

Ele era muito querido por todos e era o quindim do Cel Ascendino, Cmt do Grupo de Artilharia. Vou ver se consigo com o pessoal da época os dados pedidos pelo amigo, assim que souber de alguma coisa, envio-lhe.

Na mesma ocasião, havia um garoto que vendia doces (sonhos) na área do Grupo, lá na Colina Longa, que também, apesar de residir em Magalhães Bastos, após vender os sonhos, permanecia o dia todo nas dependências do Grupo – tomava parte e assistia às instruções como se soldado fosse; não me lembro o nome dele. Só me lembro que, por jogar futebol de campo muito bem, o Cap. Art Soares levou-o para o Flamengo; se profissionalizou e, durante uns três anos, fez sucesso como centroavante titular do Flamengo. Mesmo com o sucesso, sempre que tinha uma folga, aparecia no Grupo de Artilharia.

Abraços,

          Edgard Cordeiro, Pqdt 1709 – 1955/2

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O Mudinho morava na Colina Longa e o nome dele era Arnaldo. Ele construiu uma academia de musculação lá no salão de ginástica, que ficava ao lado do rancho. Eu, inclusive, malhava com ele. Cheguei a ser Mister Pernambuco, em 1968, e Mister Brasil, em 1978.

Ele era muito forte e musculoso, morava e era arranchado na Colina Longa, até que um General Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre o mandou embora.

Resail Carmelo Alves de Castro, Pqdt 5621 – 1959/3

Epílogo do Mudinho da Colina

Sim, esta história é verdadeira. Ela se passou há mais 70 anos. As testemunhas, que foram poucas, sabiam que ela nunca poderia ser contada, mas um Cel contou para um pqdt, que contou a outro e ela chegou até a mim (?). Num dia da semana, num único avião colocaram o Mudinho numa aeronave e fizeram um único pedido a ele: Você entra mudo e sai calado”.

Dizem quem escreveu esta narrativa foi o... , mas isso é outro grande mistério...

(Do Almanaque Paraquedista, capa abaixo)



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