domingo, 6 de dezembro de 2015

Crônicas de Antônio Maria



Conversa de pai e filha

Última Hora / 21 de julho de 1960

Pai, eu tenho um namorado. Pai, que ouve isto da filha mocinha, pela primeira vez, sente uma dor muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. Ele pensava, até então, que só a filha dos outros tinha namorado. A sua tem, também. Um namorado presunçosamente homem, sem coração e sem ternura. Um rapazola, banal, que dominará sua filha. Que a beijará no cinema e lhe sentirá o corpo, no enleio da dança. Que lhe fará ciúmes de lágrimas e revolta; pior ainda, de submissão, enganando-a com outras mocinhas. Que, quando sentir os seus ciúmes, com toda certeza, lhe dirá o nome feio e, possivelmente, lhe torcerá o braço. E ela chorará, porque o braço lhe doerá. Mas ela o perdoará no mesmo momento ou, quem sabe, não chegará, sequer, a odiá-lo. E lhe dirá, com o braço doendo ainda: “Gosto de você, mais que de tudo, só de você.” Mais que de tudo e mais que dele, o pai, que nunca lhe torceu o braço. Só de você é não gostar dele, o pai. E pensará, o pai, que esse porcaria de rapaz fará a filha mocinha beber whisky, e ela, que é mocinha, ficará tonta, com o estômago às voltas. Mas terá que sorrir. E tudo o que conseguir dela será, somente, para contar aos amigos, com quem permuta as gabolices sobre suas namoradas. Ah! O pai se toma da imensa vontade de abraçar-se à filha mocinha e pedir-lhe que não seja de ninguém. De abraçá-la e rogar a Deus que os mate, aos dois, assim, abraçados, ali mesmo, antes que torçam o bracinho da filha. Como é absurda e egoisticamente irracional amor de pai! Mais que ódio de fera. Ele sabe disso e se sente um coitado. Embora sem evitar que todos esses medos, iras e zelos passem por sua cabeça, tem que saber que sua filha é igual à filha dos outros; e, como a filha dos outros, será beijada na boca. Ele, o pai, beijou a filha dos outros. Disse-lhe, com ciúme, o nome feio. E torceu-lhe o braço, até doer. Nunca pensou que sua namorada fosse filha de ninguém. Ele, o pai, humanamente lamentável, lamentavelmente humano. Ele, o pai, tem, agora, que olhar a filha com o maior de todos os carinhos e sorrir-lhe um sorriso completo de bem-querer, para que ela, em nenhum momento, sinta que está sendo perdoada. Protegida, sim. Amada, muito mais. E, quando ela repetir que tem um namorado, dizer-lhe apenas: - Queira bem a ele, minha filha.


Eram cinco e quinze

Última Hora/25 de novembro de 1959

Tudo entre nós havia que continuar sendo casual. Não tínhamos nada que marcar encontro das cinco e quinze, no tal bar, tido e havido como discreto. Resultado: aquele sem jeito, aquela falta de ar, aquela vontade de voltar para casa, que nós, apesar de lúcidos e afins, não conseguimos explicar. Mas que foi engraçado, foi. Primeiro, para termos direito a uma mesa, o garçom exigiu que fizéssemos uma despesa qualquer. Dinheiro havia. O que nos faltava era apetência. Deixamos a cargo do garçom o preço que haveríamos de pagar pelo local e pela discrição do nosso rendez-vous. Podia ter estourado um Moêt & Chandon, mas, homem cauto, olhando-me nas alpargatas, trouxemos uma coca-cola tamanho família e um sanduíche de grande montagem. Eu, como sempre brilhante naquilo que irei dizer e em tudo que poderia ter dito, na hora de falar, não disse coisa nenhuma. Julguei que se tratasse de uma simples burrice inicial que passaria tão logo nos habituássemos à novidade de estarmos sós. Mas não. Andou o tempo e nós continuamos naquela conversinha de Alvarenga e Ranchinho, que não vende nem compra coisa alguma. Repare bem, o que dissemos não valia mais que: “ehh, cumpade... pois é... tá sorto”. E por quê? Prometemos, no dia seguinte, uma explicação telefônica que nos reabilitasse, um para o outro e cada qual perante si mesmo. Infelizmente, prezada senhora, a explicação encontrada não é das mais honrosas. Primeiro, para esse negócio de namoro, é preciso ter peito. Nós não temos, hélas! Depois, é necessário, ao menos no começo, que um leve o outro no bico. E nós não podemos. Somos muito puros, um no outro. Muito iguais, muito devassados, um para o outro. Podemos falar, sim, já falamos. Mas, na realidade, não temos nada que contar um ao outro. Em nosso caso, desgraçadamente, seria chegar, abraçar e deixar sentir. Mas cadê peito? Continuemos, então, a viver dos acasos, até que um deles, um dia, seja o mais importante e cumpra, afinal, o nosso fado.


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