quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O campinho das rosetas



      A minha alma continua sendo um pequeno quadrado de campo de grama rala, com uma goleira feita com três taquaras e uma bola costurada com tentos. Acordo no meio da noite e ainda sinto o cheiro do sereno quando depois de tantos gols, jogadas inacreditáveis, gargalhadas, discussões e gritos, o cansaço batia e deitávamos de barriga para cima. Ficávamos ali, rindo, olfatando o véu escuro da noite que se abria e deixava tudo difuso e nem enxergávamos mais os vultos dos animais lá no fundo, perto das taquareiras. Ficávamos só esperando a mãe chamar com o tradicional “Olha a janta”. Corríamos para nos lavar numa bacia alouçada, toda descascada sobre um tripé de ferro, nos secávamos nas pequenas toalhas feitas de sacas de farinha de trigo. Era assim, todo o santo dia, naquelas tardes de verão. A vida era um jogo, uma bola que ia girando, girando e eu achava que aquilo seria para sempre. Mas não foi.

        Jogávamos sempre descalços porque os kichutes eram para irmos ao colégio. O grande problema era quando as rosetas invadiam o campinho e se alastravam, cravando doloridos espinhos em nossos pés. Fazíamos paradas estratégicas para o “atendimento médico” aos atletas, mas mesmo assim, estragavam nossa alegria. Em anos de rosetas, o jogo do final da tarde perdia um pouco da graça. Jogávamos sempre com a iminente possibilidade de uma ferroada no pé. O bom era quando a grama ficava toda verdinha, macia e ainda “perfumada” pelo esterco das vacas leiteiras. Lembro da vez que o Chupim pisou numa bosta de vaca, escorregou, perdeu um gol feito e o jogo acabou ali porque rimos tanto que ninguém mais parou em pé. O Chupim, coitado, ficou tão ofendido com as risadas que foi embora e ficou dias sem aparecer. Quando voltou, disse que tinha pegado uma gripe. Para disfarçar, claro. Naquela época éramos assim, simples, ingênuos e nos envergonhávamos até por tropeçar num esterco fresco de uma tambeira que não gostava de futebol.

       Ah, meus amigos, cuidávamos tanto daquele campinho, mas o tempo se encarregou de mudar as coisas. A gente cresceu, viramos homens, eu vim embora, os amigos se espalharam e a nossa felicidade juvenil se transformou numa lavoura de soja. Passei lá esses dias e um cerro inchou na minha garganta quando lembrei de tudo isso. Meus olhos viraram uma lagoa quando desci do carro e comecei a correr, de um lado para o outro, exatamente como fazia há quarenta e tantos anos atrás. Eu gritava: “Vai, Chupim, essa é tua”, “Segura esta, Luizinho”, “Corre, Mulita”, lembrando dos parceiros, do tempo rodando, mas depois parei, esbaforido, acabado. Pelo menos, lá no fundo, resistiu uma touceira de taquara, as mesmas com que fazíamos as goleiras. Trouxe comigo uma taquarinha fina. Para sentir o cheiro da infância perdida. Para lembrar de um tempo que fomos tão felizes, mas, diacho, só agora é que me dou conta disso…


(Da coluna Campereada – de Paulo Mendes – no Correio do Povo)




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