domingo, 6 de dezembro de 2015

Um tempo sem nome



O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para nós este primor de blues Essa pequena, cuja letra vai aí abaixo. Mas rendeu também a uma interessante crônica Um tempo sem nome da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo.

Essa Pequena

Chico Buarque*

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra.
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora.
Temo que não dure muito a nossa novela, mas...
Eu sou tão feliz com ela.

Meu dia voa, e ela não acorda.
Vou até a esquina, ela quer ir pra Flórida.
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas...
Não canso de contemplá-la...

Feito avarento, conto os meus minutos,
Cada segundo que se esvai,
Cuidando dela, que anda noutro mundo.
Ela que esbanja suas horas ao vento, aiii...!

Às vezes, ela pinta a boca e sai.
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas...
  O blues já valeu a pena.


Um tempo sem nome

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando  “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos  constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida.

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um  senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes - obras na casa demolida - a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da  medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que  o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até  então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem  é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem  que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade.

Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em  que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações  com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era  nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por  progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com  uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor.  Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice  que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser  uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez  sobre o desfecho.

“Meu  tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala  de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das  células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da  traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura, ora música, cantando um novo amor, é a  quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se  chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por  enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e foi eleita para a Academia Brasileira de Letras




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