sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Morte no Posto do Avião



Posto do Avião – anos 60

O desenho do Centro Histórico de Porto Alegre era bem outro há meio século, no inverno de 62. Onde hoje está o prédio dos Correios, na Rua Siqueira Campos, atrás do edifício do Santander Cultural, havia um posto de gasolina com formato de avião.

Além de abastecer carros da clientela, abrigava uma espécie de estacionamento, e mais, tornou-se referência geográfica na cidade: o Posto do Avião.

Nesse cenário, por volta das 2h de 16 de julho de 1962, o motorista de táxi da Praça da Alfândega Ubirajara Gonçalves Pereira foi lá trocar a bateria do carro.

Bateu na porta e estranhou que o plantonista Elirio Bianchi, 37 anos, pai de dois filhos, não o atendesse de pronto, como fazia sempre.

Decidiu entrar no posto.

Encontrou o amigo assassinado, com duas manchas de sangue no peito.

A gaveta do caixa estava arrombada.

Bem próximo dali, funcionava a boate Marabá. Com muita música, danças e mulheres, era parada obrigatória dos boêmios da época.

Fidélis Pereira, funcionário da casa, sempre que necessário, socorria-se do posto para “fazer troco” das cédulas de maior valor.

Naquela noite, ele foi até lá duas vezes, primeiro para trocar Cr$ 10 mil (hoje cerca de R$ 700, em valores corrigidos), depois para conferir e “acertar o troco”, porque Elirio havia se equivocado no número de cédulas de Cr$ 1 mil.

Ele se despediu e provocou o frentista, dizendo-lhe que o deixava “em agradável companhia”. Referência às mulheres que ali estavam com outro homem.

Elirio respondeu que as conhecia.

 Não foi difícil para a polícia chegar às três prostitutas que, em muitas madrugadas frias, abrigavam-se nas asas ou no interior do Posto do Avião.

O comissário Alfredo Vitorino Vargas estava preocupado com as investigações do Caso Kliemann, ocorrido menos de um mês antes, mas tão logo a notícia do crime do posto chegou até ele, foi para lá.

Ao amanhecer daquele dia, Sônia Maria, 23 anos, Maria Eugênia, 21 anos, e Beatriz, 18 anos, foram presas, na residência da última. Elas se preparavam para fugir, e o destino era São Paulo. Também foi identificado um homem suspeito, apontado como amante de Sônia Maria. O comissário Vargas, a esta altura, tinha ouvido um depoimento essencial: o motorista de táxi que foi buscado por uma delas, para levá-las dali, depois do crime. Ele alertou: um homem entrou no táxi com as mulheres.

Depois de um dia de interrogatório, elas acabaram por confessar: o plano era distrair o frentista com provocações sensuais, enquanto o parceiro de crime arrombava o caixa. Elirio pressentiu o assalto, pretendeu buscar auxílio, e aí foi abatido com dois tiros de revólver 38.

Quem era o homem, o parceiro, o assassino?

Começou aí uma grande embrulhada.

O primeiro suspeito era um soldado que tinha álibi perfeito. Estava no quartel naquele horário.

A cada depoimento, as mulheres mudavam a versão.

Foram sendo investigados, como autores dos disparos, todos os malandros, toxicômanos e parceiros da Praça da Alfândega.

Um a um, eram recolhidos, ouvidos e liberados. Todos tinham explicações, todos tinham álibis.

A única verdade era o valor do roubo: cerca de Cr$ 23,6 mil (cerca de R$ 1,7 mil atualizados). Ninguém viu que, em outra gaveta, havia mais Cr$ 14 mil (R$ 985.00).

O conhecido delegado Júlio de Souza Moraes encarregou-se do inquérito policial daquele caso que, pelas circunstâncias, mobilizou a opinião pública e foi manchete durante vários dias na imprensa de Porto Alegre.

 Foi dele a providência de determinar que o Instituto Médico Legal examinasse detidamente as três mulheres, inclusive com a perícia de decalque de parafina nas mãos.

Não demorou e o laudo do IML respondeu que sim, havia cristais de pólvora usada em revólveres nas mãos de Maria Eugênia e Beatriz.

Diante da evidência, as mulheres decidiram mudar a estratégia: assumiram por inteiro a responsabilidade pela morte de Elirio Bianchi.

Com isso, buscavam não comprometer quem estava com elas na madrugada. Tinham medo, foi o que concluiu a polícia, de serem mortas pelo homem que as teria ameaçado.

Elas foram indiciadas, julgadas e punidas com 15 anos de prisão.

O homem nunca foi identificado.

Da coluna Boletim de ocorrência, em ZH, por Celito De Grandi.


O Posto do Avião já foi demolido e, hoje, abriga o novo prédio da Agência Central dos Corrreios. Ele estava localizado na Rua Siqueira Campos, defronte ao hoje Santander Cultural.

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