domingo, 11 de setembro de 2016

A camisa canarinho do Brasil

Criador do uniforme da seleção não torce para o Brasil




“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o estádio como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração.” O relato é do escritor José Lins do Rego, no dia seguinte à derrota do escrete brasileiro na Copa de 1950.

A notícia chegou ao gaúcho Aldyr Schlee durante uma seção de cinema no Uruguai: “Atenção: o Cine Rio Branco tem o prazer de informar que os uruguaios são os campeões do mundo”. Aldyr morava em Jaguarão, na fronteira com o país vizinho, que sempre visitava. A derrota que deixou o Brasil em luto teve uma importância inimaginada em sua vida.

Em 1953, aos 18 anos, vence concurso promovido pelo jornal Correio da Manhã e pela Confederação Brasileira de Desportos para desenhar um novo uniforme para a seleção. Via-se no que era usado até então, azul e branco, uma falta de simbolismo moral e psicológico.

Havia apenas uma regra para participar: o uniforme devia ter as quatro cores da bandeira nacional. Aldyr resolveu o quebra-cabeça: tascou amarelo e verde na camisa; branco e azul no calção. Ganhou de outros 201 concorrentes.

Em sua carreira, a criação do uniforme canarinho foi quase acidental. Depois disso, escreveu reportagens, romances e contos premiados. Ao longo dos anos, viu a camisa ser maltratada por muitos patrocinadores, até se aproximar do design original na Copa de 2006. Engana-se quem pensa que ele é um torcedor fanático da seleção. Seu time é justamente o dos nossos carrascos de 1950: o Uruguai.

Futebol - O Brasil em campo, de Alex Bellos (Jorge Zahar, 2003).



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