domingo, 18 de setembro de 2016

Semana Farroupilha


Semana Farroupilha

Da Ronda Crioula de 1947 nasceu a Semana farroupilha

Liderados por Paixão Côrtes, os estudantes comemoram o 20 de setembro
com treze dias de festas no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

Texto de Antônio Augusto Fagundes


Paixão Côrtes

A primeira Semana Farroupilha não foi nem semana, nem farroupilha. Durou treze dias e se chamou “Ronda Crioula” – como, aliás, ainda se chamaram muitas semanas de 14 a 20 de setembro que viriam a seguir. Foi só na década de 60 que os gaúchos se acostumaram a chamar a Ronda Crioula de “Semana Farroupilha”.

Mas como aconteceu a primeira semana farroupilha? É importante saber, porque afinal sua história se confunde com a própria história do tradicionalismo gaúcho.

Sem se conhecerem, três rapazes, em Porto Alegre, em 1947, estavam trabalhando para o mesmo fim. É, os três estavam santamente revoltados com a progressiva americanização dos brasileiros. Depois da 2ª Guerra Mundial os americanos tinham entrado aqui como quem entra em estância de viúva nova – de chapéu tapeado, no mais! Fomos bombardeados com chicle, Coca-Cola, plástico, discos, “Seleções”, revistas em quadrinhos, uísque, cinema made in Hollywood e o diabo a quatro. Falar em gaúchos era grossura. A ditadura de Vargas tinha rasgado a nossa bandeira; e, do nosso hino, nem falar.

Os rapazes eram Barbosa Lessa, jovem gênio de 16 anos, que andava com um caderninho colhendo assinaturas de apoio para a criação de um clube tradicionalista. Glauco Saraiva, mais velho, casado (ainda na casa dos 20), escoteiro e mestre-maçom, que agauchara uma tropa de escoteiros trocando-lhe o nome de Patrulha para “Estância” do Quero-Quero e já autor de alguns poemas famosos, como Chimarrão. O terceiro? Ah, esse vai ser o detonador do movimento. Seu nome era João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes, estudante, como Lessa (mas não se conheciam) do Colégio Estadual Júlio de Castilhos.

Não vê que na frente do colégio, ali na Avenida João Pessoa, na cara da estátua do general bento Gonçalves, havia um barzinho de quinta categoria. Ali o paixão foi um dia tomar um café e viu um pano colorido, velho, sujo e rasgado, fazendo as vezes de cortina. Desconfiado, estendeu as dobras da “cortina” E viu que se tratava da sagrada bandeira do Rio Grande do Sul. Dizem que foi essa a única vez que o Paixão chorou na vida.

Falava-se que o governo ia trazer de Livramento os restos mortais do general Davi Canabarro e o Paixão se dirigiu à Liga de Defesa Nacional oferecendo-se para formar uma escolta de cavalarianos gaúchos. A direção da LDN gostou e deu viatura militar para o Paixão conseguir cavalos e arreios. E assim montou com mais sete companheiros, hoje todos nomes aureolados na história tradicionalista (um deles, João machado Vieira, o querido “Galo Velho”, morreu recentemente*; era primo do Paixão. Fizeram um alto na Praça da Alfândega, naquele 5 de setembro de 1947. Ali apareceram para o paixão o Lessa, com seu caderno, e o Glaucus Saraiva, que o Paixão conhecia de nome porque declamava dele o (poema) Chimarrão.

Bueno, o que sei é que na madrugada de 7 para 8 de setembro o Paixão montou de novo, com Cyro Dutra Ferreira, entre outros, e foi recolher uma “muda” do Fogo Simbólico da Pátria, na hora de sua extinção, para acender o candeeiro crioulo, que eles haviam inventado, no Colégio Júlio de Castilhos, para arder até o dia 20 de setembro. Traziam tochas improvisadas, incendiaram os trapos, quase se queimaram, o cavalo do Paixão meio atropelou a esposa de um general, mas tudo bem: a galope (era ali, pertinho) foram implantar o primeiro candeeiro crioulo da história. (Só não digo onde eles foram depois comemorar a gauchada...)

Assim começou essa que eles chamaram Ronda Crioula. Houve baile (irradiado por um jovem locutor bem penteado chamado... Mendes Ribeiro), concurso de prenda (que ganhou uma senhora casada, muito bonita, chamada Leda – esposa de Glaucus Saraiva) e concurso de gaúcho melhor vestido ao estilo antigo (ganhou o próprio Paixão Côrtes, usando chiripá) e ao estilo atual (ganhou José Laerte Vieira Simch, bela estampa de gaúcho, usando bombachas). Vieira Simch, o “Cincha”, como era chamado carinhosamente pelos companheiros, foi da primeira hora. Nos porões de sua casa nascera a 24 de abril de 1948 o 35 CTG, dando início formalmente ao tradicionalismo gaúcho. Ele, porém, morreria tragicamente pouco depois afogado no rio Jacuí.

Estavam presentes a esse baile, realizado no Teresópolis Tênis Clube, intelectuais especialmente convidados pela rapaziada: Manoelito de Ornellas, Valdomiro Souza e Amandino Bicca. E durante todos esses dias a indiada comeu arroz-de-carreteiro e churrasco, tomou mate e canha da buena, e se cantou e declamou a la farta. Tudo isso – menos o baile – lá nos pátios do “Julinho”, que não era o colégio de hoje, embora, quase no mesmo lugar e destruído por um incêndio, mais tarde.

Assim foi a primeira Semana Farroupilha – mais antiga, como se vê, que o próprio tradicionalismo, nascido dela, a bem dizer.


*Essa crônica é de 1993.

Zero Hora, de 18-09-1993

Texto reeditado no Almanaque dos Gaúchos de 1997




2 comentários:

  1. Tenho aprendido, e recordado muitas passagens desde que comecei a ler o Almanaque Cultural Brasileiro, faço isso diariamente, parabéns

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  2. Obrigado, amigo, por mais este amável comentário.

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