sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Pingo e a Pinga

 Sampaulo* ‒ chargista de Zero Hora

Quando a chuva pinga no meu pago 

E pela estrada eu venho no meu pingo, 

Me apeio à procura de algum gringo 

Dono de bolicho, quero um trago! 

Bebo pura a pinga, mas não pago 

E boto uma peleia com o gringo. 

Sai cara a pinga, mas nem um pingo 

De dinheiro na guaiaca eu trago! 

E enquanto ele grita: ‒ “Paga a pinga!” 

Eu pego pela goela o pobre gringo 

E, despacito, despacito, o apago. 

Depois, na garupa, levo a gringa 

Que vai pingando o pranto no meu pingo 

E eu, fedendo a pinga, pelo pago.

******* 

* Sampaulo foi o pseudônimo artístico de Paulo de Tarso Faria (1931–1999), um dos mais importantes e premiados cartunistas, chargistas e ilustradores brasileiros, consagrado especialmente no Rio Grande do Sul.

Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho

 

O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado. 

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos, não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.

As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca ‒ é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa. 

Trecho do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ladainha

 Texto de Lourenço Diaféria

Dizem que vai faltar açúcar, todo mundo corre a procurar o doce.

Dizem que vai faltar o óleo, todo mundo corre a procurar a fritura.

Dizem que vai faltar o trigo, todo mundo corre a procurar a broa.

Dizem que vai faltar o fubá, todo mundo corre a procurar o angu.

Dizem que vai faltar o ferro, todo mundo corre a procurar a treliça.

Dizem que vai faltar o cimento, todo mundo corre a procurar o concreto.

Dizem que vai faltar a água, todo mundo corre a procurar o balde.

Dizem que vai faltar o sarilho, todo mundo corre a procurar o poço.

Dizem que vai faltar o vinagre, todo mundo corre a procurar o vinho.

Dizem que vai faltar o vinho, todo mundo corre a procurar o copo.

Dizem que vai faltar a luz, todo mundo corre a procurar a vela.

Dizem que vai faltar a carne, todo mundo corre a procurar o bife.

Dizem que vai faltar o orégano, todo mundo corre a procurar a pizza.

Dizem que vai faltar a galinha, todo mundo corre a procurar a canja.

Dizem que vai faltar o peixe, todo mundo corre a procurar a moqueca.

Dizem que vai faltar a paz, todo mundo corre a procurar as armas.

Dizem que vai faltar o samba, todo mundo corre a procurar o pandeiro.

Dizem que vai faltar o sol, todo mundo corre a procurar a praia.

Dizem que vai faltar a chuva, todo mundo corre a procurar o chuveiro.

Dizem que vai faltar o dinheiro, todo mundo corre a procurar o banco.

Dizem que vai faltar o cometa, todo mundo corre a procurar a luneta.

Dizem que vai faltar o horóscopo, todo mundo corre a procurar a cartomante.

Dizem que vai faltar estrelas, todo mundo corre a procurar o firmamento.

Dizem que vai faltar eleições, todo mundo corre a procurar candidatos.

Dizem que vai faltar governo, todo mundo corre a procurar revoluções.

Dizem que vai faltar a liberdade, todo mundo corre a procurar prisões.

Dizem que vai faltar navios, todo mundo corre a procurar o porto.

Dizem que vai faltar os fatos, todo mundo corre a procurar boatos.

Agora: quando dizem que vai faltar vergonha, ninguém se toca, está todo mundo acostumado.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (VI)

 Castro Alves

Existe um povo que a bandeira empresta

Pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!..

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca este pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta de teus mares! 

São Paulo, 18 de abril de 1868.

Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876). In: ALVES, Castro. Obra completa. Organização e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198. 

Antônio Frederico de Castro Alves, 14 de março de 1847 – 6 de julho de 1871, foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de “poeta dos escravos”. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

As qualidades para se ter bom senso

 

O bom senso é a capacidade de agir e julgar com equilíbrio, sabedoria e razoabilidade, adaptando regras e comportamentos ao contexto prático da convivência social. 

As principais qualidades e atitudes associadas a quem tem bom senso incluem: 

● Empatia: Saber se colocar no lugar do outro, ouvir sem julgamentos e respeitar sentimentos e opiniões divergentes e manter o equilíbrio e a força diante de pressões ou dificuldades.

 ● Escuta ativa: Prestar atenção genuína ao que o outro diz antes de formular uma resposta ou julgamento. 

● Inteligência emocional: Controlar impulsos, manter a calma e preferir o diálogo ponderado a reações agressivas ou precipitadas. 

● Humildade: Reconhecer os próprios erros, aceitar limitações e não agir de forma egocêntrica ou arrogante. 

● Ponderação e prudência: Analisar os riscos, os benefícios e as consequências de uma decisão antes de agir. 

● Respeito às regras e ao coletivo: Compreender os limites da convivência social e agir em harmonia com os valores da comunidade. 

● Confiança: Acreditar no caráter, na lealdade e nos valores de alguém. 

● Criatividade: Capacidade de inovar e criar coisas novas. 

● Tolerância: Habilidade de aceitar diferenças e perdoar pequenos erros. 

● Amorosidade: Transmitir carinho, atenção e respeito aos outros. 

● Sinceridade: Ser uma pessoa honesta, franca e leal. 

● Foco: Habilidade de se concentrar para cumprir tarefas e metas. 

● Extroversão:  Facilidade para se comunicar e socializar. 

● Disciplina: Capacidade de realizar obrigações com constância.

domingo, 25 de outubro de 2026

A casa do casal de barreiros

 Paulo Mendes

Construíram, os dois, uma casa feita de barro e capim, porta virada para e leste, bem em cima do moirão grosso, ali no piquete dos cavalos de encilha. Levaram 20 dias, faziam muitas viagens diárias naquela primavera chuvosa, com as bolinhas de terra e palha no bico. 

Naquele ano eu acompanhei toda a faina e os dias nervosos em que os dois apaixonados ergueram aquela casinha em forma de forno. No final da tarde, davam uma pausa e, lado a lado, cantavam sobre a cerca. Até que ficou pronta a moradia e a fêmea se aquietou no ninho, chocando três ovinhos brancos. Foi no início de outubro que nasceram os barreirinhos, que descobri quando o casal começou a fazer novas incursões e voltava com frutinhas, larvas e minhocas para alimentar os filhotes. Três semanas depois, o primeiro apareceu na porta numa manhã de domingo, mirou o céu azul da Vila Rica, abriu as asas, partiu por sobre o capão e desapareceu. É sempre assim, quando a gente abre as asas, nunca mais. 

Em janeiro, chegou a minha vez, juntei meus trapos, abracei pai, mãe e irmão, e também abri as asas. Olhei o campo, os matos, o açude, meu cachorro, os galpões e alcei voo. Quando voltei, não havia mais casas, nem minha, nem a do casal de barreiros. 

Do caderno + domingo,

do jornal Correio do Povo, de 25.10.2026.

* Barreiro, em algumas regiões do Rio Grande do Sul, é o nome regional do joão-de-barro (Furnarius rufus) é uma ave  Passeriforme da família Furnariidae. É conhecido por seu característico ninho de barro em forma de forno (característica compartilhada com muitas espécies dessa família). 

Glossário das palavras gaúchas 

Moirão: estaca grossa de madeira, concreto ou pedra cravada verticalmente no solo, usada principalmente para sustentar arames, telas ou ripas na construção de cercas. 

Piquete: pequeno potreiro próximo das habitações, onde se recolhem os animais para serviços diários. 

Cavalo de encilha: cavalo pronto para se montar. 

Capão: porção de mato isolado no meio do campo.


sábado, 24 de outubro de 2026

E como vota o analfabeto político?

 

01. Ele vota no candidato que está levemente à frente das pesquisas. Ele quer ter a ilusão de vencer sempre. 

02. Quando assiste a um debate entre dois candidatos na TV, ele acredita sempre no que faz mais promessas. * 

* O pai desse candidato, esse vídeo está na internet, deu uma entrevista aconselhando a quem quiser se candidatar a um cargo político, a prometer, prometer, pois o importante é ganhar a eleição, o resto a gente vê depois. 

03. Ele não pesquisa a vida dos candidatos, ignora os seus maus feitos, sempre votou em políticos de seu partido, e votará sempre nos que o partido indicar. 

04. Muitas vezes, por burrice ou ingenuidade, ao parar num sinal de trânsito, aceita um adesivo, um botom, uma bandeira de algum candidato, e resolve votar nele. 

05. Sempre aceitou as dicas de um parente, geralmente um cunhado, para saber em quem deverá votar. Sua mulher, irmã do cunhado, sabe das fraquezas dele, e o obriga a votar no político simpático à família. 

06. Ele vota pelo efeito manada. Se nas pesquisas do seu Estado a maioria está votando em tal candidato, ele acha que o povo todo está com razão. 

07. Uma vez Nélson Rodrigues, grande jornalista e teatrólogo brasileiro, disse uma frase antológica: “Toda a unanimidade é burra”. Ele, em qualquer circunstância, seguirá sempre a unanimidade, de qualquer partido, de qualquer candidato. 

08. Se for um empregado ou uma empregada de alguém rico, ao ouvir a conversa de seus patrões em quem irão votar, julgando que eles sabem muito mais do que ele (ela), toma a decisão de votar em quem seus patrões irão votar. 

09. Muitos patrões empresários obrigam o ignorante político a votar no seu candidato, sob pena de perder o emprego, mesmo ele sabendo que na cabine de  votação estará ele e a urna, ninguém irá ficar sabendo em quem ele votou. 

10. Mas, na grande maioria das vezes, ele não tem nenhuma consciência de classe. Não sabe que o partido que mais o representa está numa ponta e o outro, que não tem nada a ver com sua classe social, está na outra. Ele, por pura burrice, fica na dúvida em quem votar! Não sabe ele que o seu voto, se votou no candidato que o representa, irá melhorar a sua vida e, consequentemente, a vida do país. 

P.S. O pior de tudo é o eleitor fanático religioso que aceita, sem contestar, as determinações do pastor de sua igreja evangélica*. Não sabe ele que político safado, uma das primeiras coisas que ele faz, ao se candidatar a algum cargo eleitoral, é se converter a alguma comunidade religiosa para tirar proveito disso, pois sabe ele que o líder de algum grupo religioso tem total domínio sobre os fiéis que acreditam piamente nas suas determinações sobre em quem devem votar.

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* O Brasil possui aproximadamente 178 mil a mais de 180 mil templos e igrejas evangélicas, segundo estimativas recentes baseadas em dados do Censo e registros oficiais. A maioria são igrejas honestas que seguem com muita fé os verdadeiros ensinamentos cristãos. Muitas dela delataram que um tal político não é uma pessoa confiável e estão se afastando dele, determinando a seus fiéis total liberdade para votar em quem sua consciência achar melhor. 

Conselho final: 

“Na dúvida, fique sempre ao lado dos pobres.”

 Dom Pedro Casaldáliga

NSM