sábado, 29 de março de 2014

Patacoadas de Cornélio Pires




Num fará mar?


No interior do Brasil, ao se chegar a uma casa em hora de refeição, especialmente na roça, é comum perguntar-se:
– Quem sabe se o senhor não almoçou ainda? – Quem sabe não jantou?
Mas algumas vezes se esquecem de perguntar e a situação do hóspede não é das melhores.
O Balduíno, no seu cavalo abombado, chegou uma tarde a uma fazenda e, tendo-se atrasado no caminho, não alcançou o jantar.
Os donos da casa foram amabilíssimos. O fazendeiro mandou desencilhar o cavalo e dar-lhe uma ração de milho, antes de soltar no pasto. Mas que descuido! Ninguém se lembrou de perguntar ao Balduíno se já havia jantado. Com o “estômago nas costas” o caipira até perdeu o jeito de conversar.
Ao chegar a hora de se deitar, veio, na forma do antigo costume, o bacião de água enorme, para o hóspede lavar os pés...
– Lavá os pés im jejum, num fará mar?
E foi um corre-corre para arranjar um jantar para o caboclo.

Boa definição

Tanto se falou em socialismo, ao ruir dos tronos na Europa, que a palavra chegou aos ouvidos caipiras.
O Ponciano, encontrando-se com o Juvêncio, perguntou-lhe:
– Compadre, tive na Vila e vi uns home falano de suçalismo... O que é que vem a sê isso?
– É um modo novo de vivê que tão inventano... muito bão!
– Cumo é?
– Vancê que vê o que é suçalismo? - Meu cachimbo tá vazio e eu num tenho fumo... vancê tem um tostão aí?
– Tenho.
– Vancê me dá o tostão, eu compro o fumo, encho o cachimbo, e vô só esfumaceano...
– Ué! Eu dei o tostão... vancê pita... e eu o que é que faço?
– Mecê cospe... Isso que é suçalismo...

Fui no embrulho

O roceiro goza quando há uma pessoa da cidade.
Encontrando um caboclinho, num terreiro de uma venda de encruzilhada com sua espengarda, puxei prosa:
Nisso... tátátátátá! Um juriti pousou no galho de uma árvore pequenina.
– Olha! Um passarinho sentado ali no galho!
– Num tem passarinho sentado, ninhum!
Tem, não tem e o caboclinho desafiou:
– Aposto uma garrafa de vinho que naquela arve num tem passarinho sentado!
– Está feito!
E o caipirinha gozando:
– Eu tô veno o passarinho, mais num tá sentado... tá de pé no gaio... Passarinho num tem assento pra sentá...
E foi saborear o vinho de “limpa-queixo”...

Nem o advogado...

Um roceiro dirigiu-se ao escritório de um advogado e expôs um caso.
– Seo dotor: um vizinho, no queimá sua roça, o fogo pulô nas terra de outro; pra num perdê o serviço do fogo, o “tar” prantô no chão aleio e coleu. Cumo num recramassem, no outro ano o “tar” prantô outra veis nas terras do vizinho... Notro ano o “tar” semeô e prantô catinguera, feiz pasto e vai mudá a cerca, pegano um bom pedaço pra diante da divisa... O “tar” agora tem direito, depois de tanto tempo de mudá o rumo?
– Isso é questão líquida! Passe-me uma procuração e eu ponho esse tal intruso para fora!
O caipira, enrolando a aba do chapéu, foi fastando, fastando, até ganhar a porta da rua, de onde, todo maneiroso, gritou para o doutor:
– Seo dotor... Eu é que sou o “tar”...

Pescaria

O João Ramalho, o Alcides, Dr. Teixeirinha e mais amigos costumavam promover pescarias em que o Carlos Custódio mostrava a arte de fazer churrasco, no Corumbataí, no sítio do Natalino Camargo.
Havia sob a mata, à margem do rio, um rancho de sapê, que ficando largado muito tempo, ao chegarmos, precisava ser varrido.
Um caipira, companheiro nosso, apanhando uma braçada de ramos, improvisou uma vassoura e pôs-se a varrer, levantando uma poeira sufocante, ao que outro aconselhou logo:
– Compadre, para que vancê num varre guspino?
– Pra quê?...
– Pra apagá puera.

São mesmo!

Quando Rui, o sublime, em propaganda de sua candidatura, falou em Campinas, produzindo um de seus formidáveis discursos, um caipira comentou:
– Bunito descurso! Fala que é um devegado, mais porém eu conheço um livro que tem esse descurso inteirinho... palavra por palavra!
– Ora, deixe-se de ser trouxa! Então Rui lá precisa de plagiar!
– Puis susternto o que disse...
– E que livro é esse?
– O dicionário...

Agilidade

Durante uma tempestade caiu um raio perto da casa de Bormann, imigrante alemão. O filho, assustado, correu junto dele e disse:
– He, pai! Si eo num estafa maiss ligera, a raio me pecafa!




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