sábado, 29 de março de 2014

O leão reconhecido



Seguia um leão seu caminho,
Por entre a cerrada mata,
Quando sentiu que um espinho
Se lhe enfiara pela pata.

Por perto um tenente passa
De uma inglesa expedição;
Pede-lhe a fera que faça
Daquele espinho a extração.

‒ Com prazer! Diz-lhe o tenente
E, com o máximo carinho,
Tomando-lhe a pata doente
Extrai, cuidadoso, o espinho.

Inda bem que o fez; perdida
Não foi sua boa ação,
Pois que a fera, comovida,
Quis mostrar-lhe gratidão.

E, ‒ bravo! (diz-lhe) com que arte
Me aplacaste o sofrimento!
Uma prova apraz-me dar-te
Do meu reconhecimento.

‒ Que queres? Ser promovido?
‒ É essa a minha ambição.
‒ Pois farei nesse sentido
O que esteja em minha mão.

Assim falou; e, inda nesta
Mesma noite, a fera honrada,
Ao regressar à floresta,
Cumprira a palavra dada:

E disse ao tenente: ‒ Amigo,
Tens segura a promoção!
‒ Que me diz?! ‒ É o que te digo.
Já comi o capitão...


(Bastos Tigre em Recitália, Editora Minerva Ltda, Rio de Janeiro)



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