quinta-feira, 24 de julho de 2014

Canto do Rio em sol



Guanabara, seio, braço
de a-mar:
em teu nome, a sigla rara
dos tempos do verbo mar.
Os que te amamos sentimos
e não sabemos cantar:
o que é sombra do Silvestre
sol da Urca
dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.
Guanabara, saia clara
estufando em redondel:
que é carne, que é terra e alísio
em teu crisol?
Nunca vi terra tão gente
nem gente tão florival.
Teu frêmito é teu encanto
(sem decreto) capital.
Agora, que te fitamos
nos olhos,
e que neles pressentimos
o ser telúrico, essencial,
agora sim és Estado
de graça, condado real.

Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida
como sangue, como seiva
- não são imagens exangues
como perfume na fronha
... como pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio

Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?
Irajá Pavuna Ilha do Gato
- emudeceram as aldeias gentílicas?
A Festa das Canoas dispersou-se?
Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José
pastoreando os fiéis da várzea?
Soou o toque do Aragão sobre a cidade?
Não não não não não não não

Rio, mágico, dás uma cabriola,
teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,
teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo
o tempo que humaniza e jovializa as cidades.
Rio novo a cada menino que nasce
a cada casamento
a cada namorado
que te descobre enquanto rio-rindo.
assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas. 

Carlos Drummond de Andrade

A força de um bloco popular: “Simpatia é quase amor”


Dia 2 de fevereiro de 2013, saio da praia de Ipanema e enfrento a multidão da foto acima, que desfila pela avenida Vieira Souto, numa manifestação contagiante da alegria dos foliões. O bloco carnavalesco Simpatia é quase amor arrasta quase cem mil jovens, todos moradores de todos os cantos da cidade, provando que sempre haverá uma renovação na vontade de se divertir de toda uma população, que, apesar de tudo, continua sendo a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil...

Nilo da Silva Moraes


A redação gaudéria

A professora Vera achou que os alunos já estavam bem grandinhos e os mandou fazer uma redação sobre o tema: Sexo ou assunto relacionado.

No dia seguinte, cada aluno leu a sua redação: A da Mariazinha era sobre métodos contraceptivos. A do Gerson falava da masturbação. A Analúcia escreveu sobre rituais sexuais antigos etc... (blá, blá...).

E chegou a vez do Joãozinho:

- Então, Joãozinho, você fez a redação que eu pedi?

- Fiz sim, professora!

- Então, leia sua redação!

E o Joãozinho começou a ler tom bem alto:

- Era uma vez, no Alegrete, há muitos e muitos anos. No relógio da igreja batiam 18 horas. Nuvens de poeira arrastavam-se pela cidade semideserta. O Sol já ofuscava o horizonte e tingia as nuvens de tons avermelhados. De súbito, recortou-se a silhueta de um cavaleiro. Lentamente, este se foi aproximando da cidade e, ao chegar à entrada, desmontou do seu cavalo. O silêncio pesado foi perturbado pelo tilintar das esporas.O cavaleiro chamava-se: Guaraniaçu Boy. Vestia-se todo de preto, à exceção do lenço vermelho que trazia ao pescoço e da fivela de prata que segurava os dois revólveres na cintura. O cavalo, companheiro de muitas andanças, dirigiu-se hesitante para uma poça d’água... Pum! O velho cavalo caiu morto com um buraco na testa. O cheiro da pólvora vinha do revólver que já tinha voltado para o coldre de Guaraniaçu Boy, que não gostava de cavalos desobedientes! Guaraniaçu Boy dirigiu-se, então, para o bolicho (bar). Quando estava subindo os três degraus, um mendigo, que ali estava, tocou na perna de Guaraniaçu Boy e pediu uma esmola... Pum! Pum! O esmoleiro esvaiu-se em sangue: Guaraniaçu Boy não gostava que lhe tocassem! Entrou no bolicho, foi até o balcão e pediu uma cerveja. O homem do bolicho serviu-lhe a cerveja. Guaraniaçu Boy provou e fez uma careta. Pum! Pum! Pum! Guaraniaçu Boy não gostava de cervejas mornas e detestava homens de bolicho relapsos. Os outros cavaleiros, que ali estavam, olharam surpresos para Malaquias. Pum! Pum! Pum! Pum!... Ninguém conseguiu reagir Guaraniaçu Boy era rápido no gatilho: não gostava de ser o centro das atenções! Saiu do bolicho... Deslocou-se até o outro lado da cidade para comprar um cavalo. Comprou o cavalo e, quando pagou, o vendedor enganou-se no troco. Pum! Pum! Pum!... Guaraniaçu Boy não gostava que o enganassem no troco! Montou no novo cavalo e saiu da cidade. Mais uma vez a sua silhueta recortou-se no horizonte, desta vez com o sol já quase recolhido. Todos aqueles mortos no chão. Até o silêncio era pesado. Fim...

Joãozinho sentou-se. A turma estava petrificada! A professora, chocada pergunta:

- Mas... Mas... Joãozinho... O que esta composição tem a ver com sexo?

Joãozinho, com as mãos nos bolsos, responde:

- O Guaraniaçu Boy era foda!!!


(Autor desconhecido)

Velhos carnavais



Entrudo na Rua do Ouvidor

“Mas, como enfim a sem-vergonhice está no fundo da natureza humana e como não há lodo que não goste de aparecer ao sol, inventou-se o carnaval - três dias libérrimos, setenta e duas horas descaradas em que ficou estabelecido que todos os vícios podem andar à solta, cabriolando na praça pública, de garrafa desarrolhada na mão e perna leve no pincho do can-can.”

(Olavo Bilac – 1890)

“O Carnaval do Rio de Janeiro é realmente uma festa de se assistir, de valer a pena aqui chegar-se de fora, mesmo do estrangeiro, a vê-lo; porque aqui se reservam as surpresas carnavalescas aos próprios dilettanti das amplíssimas e brilhantes feições da alegria humana como se revelam nas festas clássicas do Carnaval italiano.”

(Raul Pompeia – 1892)

“[O carnaval] - velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já não os fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia, e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de 22 anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d´água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo - chapéu, dignidades e botas. (...) Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d´água despejadas à traição.”

(Machado de Assis – 1893)

“Desde sábado não dormia. Era só folia, folia e mais folia. Aconteceu-me o que aconteceria a um automóvel abandonado pelo chofer. Fui esbarrar, sem direção, na doença. Achas feliz a comparação? É minha, inteiramente minha. Os homens são automóveis governados pelos motoristas Conveniência Social a doze quilômetros a hora. De repente o Carnaval atira a Conveniência no chão, toma o guidão e toca a cento e vinte a hora. Quando desaparece, com velocidade adquirida, os automóveis vão por aí perdidos e ou estraçalham-se ou precisam de conserto. Eu estou na garage.”

(Paulo Barreto, o João do Rio, - 1916)

“Finalmente foi nesse Carnaval histórico de 1917 que vi as Noites, as Holandesas, as Alsacianas, as Tirolesas, as Fadas, as Castelãs, as Pierrettes, as Colombinas, as Flores (todas) que dançavam decorosamente nas salas do Clube Belo Horizonte. A presença dos apaches e das gigoletes mereceu repulsa geral das senhoras que fiscalizavam a festa sentadas e cochichando punhalando atrás dos leques. Até quando eles entraram no salão, o maestroAriggo Buzzachi, que dirigia a orquestra (querendo se mostrar conhecedor de Paris e das danças de seu bas-fond), ensaiou ao piano as notas de um java (mi-fá-mi-mi-ré-ré-dó-ré-mi-dó). Mas logo o doutor Penido, que era da diretoria do clube, correu indignado e fez parar a valsa indecente. Ah! também lá isso é que não...”

(Pedro Nava, Memórias 3 – Chão de Ferro)

“O Carnaval é hoje a festa mais estúpida do Brasil. Nunca se amontoaram tantos fatos para fazê-la assim. Nem no tempo do entrudo, ela podia ser tão idiota como é hoje. O que se canta e que se faz são os suprassumo da mais profunda miséria mental. Blocos, ranchos, grupos, cordões disputam-se indigências intelectual e entram na folia sem nenhum frescor musical. São guinchos de símios e coaxar de rãs, acompanhados de uma barulheira de instrumentos chineses e africanos.”

(Lima Barreto – 1922)

“O paulista é um tipo reconhecidamente triste. Sobretudo nos momentos de alegria. Dá até raiva. O que os jornais chamam de regozijo popular é nesta terra a cousa mais fúnebre que se pode imaginar. Nem se pode imaginar. O Carnaval é uma prova. O paulista sai à rua para brigar. Brigar porque buliram com as filhas dele. Porque levou uma serpentina no coco. Ou uma bisnagada no olho. Ou um pisão no pé.”

(Antônio de Alcântara Machado – 1927)

“Sábado de Carnaval. Muita gente no Largo da Concórdia [no bairro paulistano do Brás] noturno e circunspecto. (...) O italianinho sujo veio da Argentina e aos ímpetos de Nápoles já prefere cantar seu tango com sotaque de gringo. (...) No chorinho de três mulatos, violão, gaita e ganzá, os mais corajosos principiam dançando, homem com homem porque as pretas se recusam a dançar na rua. Na maioria é português com português, se pisando.”

(Mário de Andrade – 1932)

   Por Roberto Pompeu de Toledo – Veja – fevereiro de 2013


Corso na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro





Coisas que usuários da internet estão destruindo



01 - A arte de discordar educadamente:

A internet aguçou o tom dos debates. A intolerância e falta de educação reina absoluta principalmente nos comentários dos blogs. Hoje em dia é normal discordar de qualquer coisa não com argumentos, mas com: “vai tomar no...”, “você é um filho da...” ou “este blog é uma m...da”.

02 - O respeito pelos mortos:

O Twitter se tornou uma tribuna aberta para piadas sobre a morte de pessoas famosas. 99,9% de muito mau gosto.

03 - Adolescentes ansiosos pela sua primeira Playboy:

Na minha época, um garoto de 13, 14 anos que possuía uma revista playboy era considerado pelos amigos quase um deus. Hoje a onipresença de pornografia gratuita e pesada na internet acabou com um dos mais importantes ritos de passagem para os meninos adolescentes: a compra de revistas de sacanagem. Porque tremer na banca para comprar a Playboy se você pode baixar montanhas de obscenidades direto no seu quarto?

04 - Lojas de discos:

Em um mundo onde as pessoas não estão dispostas a pagarem por música, cobrar delas R$ 30 por 12 músicas dentro de uma frágil caixa de plástico, definitivamente, não é um bom modelo de negócio. Mas também se perdeu a oportunidade de vasculhar com os dedos, pilhas de CDs e discos e encontrar às vezes, verdadeiras preciosidades e também a oportunidade de paquerar e fazer novos amigos.

05 - Ouvir um disco do início ao fim:

Os mp3 são um dos benefícios da internet. Por um lado, não é mais preciso aguentar oito músicas chatas para poder ouvir uma ou duas que valem à pena. Mas, por outro lado, álbuns que realmente valem a pena não terão a audiência que merecem.

06 - Escrever cartas:

E-mail é mais rápido, barato e conveniente. Receber uma carta escrita à mão de um amigo se tornou um prazer raro, e até nostálgico. Como consequência, frases de despedida como “Com as melhores saudações” ou “Um grande abraço” foram substituídas por um simples e imbecil “Valeu”.

07 – Pontualidade:

Na era pré-internet e pré-celular, as pessoas precisavam manter seus compromissos e chegar ao local combinado na hora certa. Enviar mensagens de texto cinco minutos depois do compromisso para avisar os amigos do atraso se tornou uma das grosserias comuns da era da conectividade.

08 - Listas de telefone:

Você pode encontrar tudo que quiser na internet, com dados muito mais completos do que as antigas e mofadas Páginas Amarelas. Mas o que você faz quando fica sem conexão?

09 – Memória:

Quando quase todo fato, não importa quão obscuro e misterioso, pode ser esmiuçado em segundos através do Google ou do Wikipédia, o “mero” armazenamento e recuperação de conhecimentos em sua mente se tornou menos valorizado.

10 – Concentração:

Quem, entre o Gmail, o Twitter, o Facebook e o Google News, consegue trabalhar? Uma nova tendência de distúrbio de concentração que se desenvolve.

11 - Decorar números de telefone:

Depois de digitar os números na agenda do seu celular, você nunca mais vai olhar para eles de novo. Você se lembra de cabeça os telefones de sua família?

12 - Teorias conspiratórias:

A internet é constantemente repudiada como dominada por pessoas excêntricas, mas, ao longo dos anos, se mostrou muito mais propensa para desacreditar teorias conspiratórias em vez de perpetuá-las.

13 - Preencher formulários na última página dos livros:

O mais próximo disso hoje são os serviços das livrarias virtuais como “Clientes que compraram este livro também compraram…”

14 - Álbuns de fotos e projeções de slides:

Facebook, Flickr e sites de impressão de fotos como Snapfish são a nova maneira pela qual compartilhamos nossas fotos. No início deste ano, a Kodak anunciou estar descontinuando a produção do seu clássico filme Kodachrome por falta de demanda.

15 - Relógios de pulso:

Ficar mexendo no bolso para pegar seu celular pode não ser tão elegante quanto olhar para um relógio de pulso, mas é mais econômico e prático do que andar por aí com dois equipamentos.

16 - Matar tempo:

Quando foi a última vez que você passou uma hora inteira olhando o mundo pela janela, “pensando na morte da bezerra”? Ou simplesmente sentado não fazendo nada? A atração da internet sobre a nossa atenção é implacável e, cada vez mais, difícil de resistir.

* P.S. Estou na Livraria Saraiva, no Barra Shopping, em Porto Alegre, tomando um cafezinho e piruando um livro. Ao meu lado, um garoto de uns 12 ou 13 anos, com um tablet nas mãos, teclando sem parar. Durante uns 15 minutos que fiquei na livraria, o garoto nem uma vez olhou para ninguém, e isso que havia umas meninas bonitas ao redor dele. Ele não deve, costumeiramente, interagir com ninguém. Só com seu “precioso amiguinho eletrônico”.




A paixão acontece



Se você recusou sua rotina, deixou de fazer aquilo que mais gostava em nome de alguém, torrou seus bens, abandonou os amigos e os prazeres mais fundamentais, isso não é amor, é paixão.

A paixão é uma fatalidade, o amor é uma escolha.

A paixão é egoísta, o amor é generoso.

A paixão é renúncia, o amor é recomeço.

A paixão arrebenta, o amor adapta.

A paixão é confinamento, o amor é abrigo.

Não há paixão pequena, paixão simbólica, paixão discreta: é grandiosa no início e escandalosa no final.

Não recomendo, muito menos desaconselho: é experiência para os fortes.

Nada do que viveu antes terá sentido, nada do que possa viver depois terá sentido. Conjugará interminavelmente o presente do indicativo.

Atingirá um extremo emocional perigoso: você passa a ser do outro em tempo integral. Conhecerá sua pior crise de nervos, seu mais fundo estresse emocional, seu mais absurdo esgotamento da memória, sua mais humilhante falência financeira.

Uma vez apaixonado, você rejuvenesce 10 anos em 10 horas. Mas, uma vez desapaixonado, você envelhece 10 anos em 10 horas.

A paixão ou é imensa, ou não é. Ela não pede desculpa, não negocia: equivale a uma dependência química em seu estado mais selvagem.

É o equivalente ao sequestro de uma vida. A própria vida. Você é o sequestrador e o refém ao mesmo tempo.

Não há desconto, adiamentos, pechincha. A paixão exige pagamento à vista, execução sumária.

Nunca vi nenhum apaixonado transferir compromisso para o dia seguinte, ele somente antecipa.

Não é que a paixão seja rápida, é devastadora, não sobra coisa alguma para continuar.

O apaixonado não abre negócios, mas fecha portas. Não areja a cabeça, não tem grandes ideias, não combate preconceitos, emburrece progressivamente, a ponto de só ter um número para ligar e um lugar para ir.

Ele não tem sangue-frio, não raciocina, não elabora planos, não arruma álibis.

A paixão é um crime malfeito, facilmente descoberto.

Os envolvidos desprezam o mundo, não se importam se estão sendo vistos, se beijam em público, se são casados, noivos ou recém-viúvos, se serão criticados pelos vizinhos e familiares.

O apaixonado joga tudo para o alto e não fica para segurar nada.

Ele não tem discernimento, não lê jornal, perde sua capacidade de decidir sobre a trajetória. Apresenta a superstição de um velho, a intuição de uma criança.

É um idiota sábio. Idiota porque não se defende da tristeza, sábio porque não se protege da alegria.

Não existe mais bom e ruim, certo e errado, esquerda e direita. Não tem sentido julgar. Não tem como se orgulhar do que foi realizado, muito menos se arrepender.

Você muda de personalidade, larga trabalho, descuida da família para se dedicar inteiramente a não pensar e somente sentir.

Não podemos nem dizer se a paixão ajuda ou atrapalha, ela acontece.

É uma sorte azarada.

Fabrício Carpinejar


Herros da puliça!



Depois das “Pérolas do ENEM” agora vamos rir das “Pérolas da Puliça”. Tal anedotário é obra de um Tenente Coronel da PM, que recentemente expôs o conteúdo de seu livro no Programa do Jô Soares, informando que todas as frases foram originalmente coletadas dos livros e relatórios de registro policial.

Alguns erros notórios escritos por policiais em ocorrências:

“Senhor delegado, deu entrada no Pronto-Socorro Municipal o cidadão, vítima de gargalhada'. 'Gargalhada' no peito, no rosto e nas costas. Segue anexo um 'gargalho de garrafa.”

“O veículo, durante o acidente, teve amassamento no para-choques e nos para-lamas dianteiros, sendo quem não pudemos colher melhores dados, devido à vítima haver fugido a galope.”

“O condutor foi preso em flagrante por estar dirigindo em velocidade incombatível com o local.”

“Ocorreu um abarroamento de pessoas. Os conduzidos, além da algazarra, ainda xingavam a todos com palavra de baixo escalão.”

“Demos cobertura à ambulância na condução de um 'débito mental' até o PSM'.”

“O condutor do veículo colocava em risco a segurança das pessoas, pois estava dando 'cavalo de Paulo' na rua.”

“Chegando ao local, encontramos a vítima caída ao solo, aparentando ter cometido um homicídio contra si mesmo.”

“No histórico da ocorrência, constava como objeto apreendido: duas latas de cera 'Odd' e uma lata de cera 'PPO'.”

“Formava uma 'língua de fogo que lavava a rua'.”

“O cidadão machucou o membro do rosto.”

“O conduzido, que foi preso em flagrante, disse que era inocente na acusação e que não estava passando de 'bode respiratório´.”

“O sujeito estava vestido com uma calça Jeans e uma camisa destampada.”

“...os indivíduos tentaram resgatar o autor do nosso domínio através do uso de força anônima.”

“O cadáver apresentava sinais de estar morto.”

“Foi apreendido um quilo de linguiça perfumada.”

“Atendemos à solicitação do solicitante, que nos narrou que o autor praticava atentado violento ao pudor, pois exibia para os transeuntes os órgãos sanitários.”

“Após discutir com a vítima, o autor desferiu um forte soco no rosto da mesma, que de tão violento, soltou a tampa de seu nariz.”


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Desmoronando*

         
O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido...” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.

No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minhas costas. Em vez disso, ouvi a voz do Dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.


* Esta é a primeira crônica de Luís Fernando Veríssimo, em 2014, depois de 24 dias de internação hospitalar, 12 deles na UTI do Hospital Moinhos de Vento, e mais 19 dias de repouso em casa. Ele voltou a escrever suas crônicas e desenhar seus personagens, para alívio de seus milhares de admiradores em todo país.