sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Quem sou eu?

 


Não venha me falar de razão, não me cobre lógica, não me peça coerência. Eu sou pura emoção, tenho razões e motivações próprias, me movimento por paixão, essa é minha religião e minha ciência. 

Não meça meus sentimentos, nem tente compará-los a nada, deles sei eu. Eu e meus fantasmas, eu e meus medos, eu e minha alma. Sua incerteza me fere, mas não me mata. Suas dúvidas me açoitam, mas não deixam cicatrizes. 

Não me fale de nuvens, eu sou Sol e Lua. Não conte as poças, eu sou mar, profundo, intenso, passional. Vivo em cada molécula. Sou um todo e às vezes sou nada. Você não me vê, mas me sente, estou tanto na sua solidão, quanto no seu sorriso. Vive-se por mim, morre-se por mim, sobrevive-se sem mim. Eu sou começo e fim e todo o meio. 

Todas certas, todas imperfeitas, todas lógicas apenas em motivações pessoais, todas corretas, todas erradas. Sou seu objetivo, sua razão que a razão ignora e desconhece. Tenho milhões de definições. Sou tudo, sem mim, tudo é nada. Sou amanhecer, sou Fênix, renasço das cinzas. 

Sei quando tenho que morrer, sei que sempre irei renascer. Mudo protagonista, nunca a história. Mudo de cenário, mas não de roteiro. 

Sou música, ecoo, reverbero, sacudo. Sou fogo, queimo, destruo, incinero. Sou vento, arrasto, balanço, carrego. Sou tempo, sem medidas, sem marcações. Sou furacão, destruo, devasto, arraso. Sou água, afogo, inundo, invado. Sou clima, proporcional a minha fase, mas sou tijolo, construo, recomeço... Sou cada estação, no seu apogeu e glória. Sou seu problema e sua solução. Sou seu veneno e seu antídoto. Sou sua memória e seu esquecimento. Eu sou seu reino, seu altar e seu trono. Sou sua prisão, sou seu abandono e sou sua liberdade. Sua luz, sua escuridão e seu desejo de ambas, velo seu sono... 

Poderia continuar me descrevendo, mas já te dei uma ideia de quem sou... Muito prazer, tenho vários nomes, mas aqui, na sua terra, chamam-me simplesmente de...  

Amor  

(Autor desconhecido)

Petições Incríveis!

 Não dá para acreditar!

“Fulano de tal, falecido em 08 de maio de 2003, conforme certidão de óbito em anexo, doravante denominado reclamante, por seu advogado signatário, vem perante Vossa Excelência ajuizar ação trabalhista.” 

(De uma petição inicial na Vara do Trabalho em Varginha, MG) 

“O devedor pode ser localizado na casa nº. 242 da rua que fica aos fundos do cemitério, não precisando o oficial de Justiça alegar medo, como pretexto para não realizar a diligência, porque se trata de rua despovoada de almas do outro mundo.”

(De uma petição, na comarca de São Jerônimo, RS) 

“O contestante nega ser o pai da criança, pois não chegou à mãe do investigante. Mesmo tendo sido uma noite de orgias, com vários participantes, o investigado limitou-se a uma única cópula, com outra pessoa da roda, após o que ficou com o tiche murcho.”

(De uma contestação em ação de investigação de paternidade,

numa Vara de Família em Porto Alegre) 

“A empresa é responsável, em casos de assaltos dentro de seus coletivos, pois deveriam ter câmeras acopladas a satélites para a segurança de passageiros.”

(De um voto vencido, em acórdão do TJRJ) 

“Edital é uma forma de fazer uma pessoa saber o que ela não sabe, só que, muitas vezes, porque não lê o jornal, ela não vai mesmo ficar sabendo.”

(Resposta em uma prova de Processo Civil,

em Faculdade de Direito da Grande Porto Alegre) 

“O réu jamais se furtou ao recebimento da citação. Ocorre que reside em um local onde têm várias casas com o mesmo número, uma espécie de apartamento  deitado.”

(De uma contestação, em processo na comarca de Pelotas, RS,

com o réu tentando explicar que não se escondera do oficial de Justiça) 

“Bens móveis são aqueles que são fabricados nas marcenarias. Já os bens imóveis são aqueles que não se movimentam, como um edifício, e também, por exemplo, um veículo que por estar sucateado não tem como ser removido.”

(De um universitário, ao fazer a diferenciação entre bens móveis e bens imóveis,

numa prova de Direito Civil) 

“A parte autora diz que no contrato de compra e venda estão presentes o sujeito e o objeto, mas não aponta onde estará o predicado.”

(De uma contestação em ação revisional) 

“Ordem de vocação hereditária é quando o filho segue a mesma profissão do pai, ou seja, filho de peixe, peixinho é.”

(Candidato, em Exame da Ordem) 

“Deixei de fazer a citação tendo em vista que o réu está em lua-de-mel e me respondeu por telefone que nos próximos dias não está nem aí...”

(De uma certidão de oficial de Justiça) 

“Penhorei uma mesa de comer velha de quatro pés...”

(Certidão lançada por um oficial de Justiça, em Passo Fundo, RS,

após efetuar uma penhora) 

“O mutuário foi para São Paulo melhorar de vida. Quando voltar, vai liquidar com o Banco.”

(Informação de oficial de Justiça, não tendo encontrado o réu) 

“... um crucifixo, em madeira, estilo colonial, marca INRI − sem número de série.”

(Descrição da penhora feita por um oficial de Justiça de Porto Alegre)


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Os homens e seus segredos...

 

Numa convenção de homens de negócios, reuniram-se, num quarto de hotel,  cinco velhos amigos, todos esteios da mesma comunidade. Daí a pouco, estavam falando sobre seus defeitos.

- Quanto a mim - disse um deles, grande comerciante, conhecido por ser abstêmio – confesso que tenho uma fraqueza. Gosto de beber. Mas nunca deixo que isso prejudique o meu trabalho. De tempos em tempos saio para outra cidade, alugo um quarto num hotel vagabundo, faço uma farrinha. Bebo tudo a que tenho direito. Bebo uísque, vodka, conhaque, cachaça. Fico doidão, vomito tudo, e continuo bebendo até amanhecer. Depois tomo um banho, dois engov e volto para casa, em perfeitas condições. 

- Pois devo confessar que minha fraqueza são as mulheres – disse outro. - De vez em quando, vou para uma cidade um pouco distante, procuro um bordel e traço tudo: loura, morena, mulata. Como até o traveco que cuida da limpeza e, para terminar, como até a dona do bordel, uma velhota que pesa 150 quilos. Volto para casa tranquilo e ninguém fica sabendo de nada. 

- A minha fraqueza é o jogo − disse o banqueiro mais importante da cidade. - Quando tenho a oportunidade de viajar, aposto alguma coisa em cavalos. Entro em mesa de pôker, jogo dadinhos até com vagabundos de rua. Eu já perdi, uma vez, até a roupa do corpo. Voltei só de cueca para casa. 

- Eu vou contar uma coisa, mas que fique só entre nós, pois pertenço a Liga da Decência desta comunidade, e sou um homem casado e tenho quatro filhos. Quando vou a uma cidade, onde ninguém me conhece, me dá uma vontade incrível de queimar a rosca, isto é, dar o brioco. Encaro qualquer sujeito na rua. Chego a ser enrabado umas cinco vezes numa noite. Volto pra casa numa boa, como se nada tivesse acontecido. 

E então todos olharam com um ar de expectativa para o quinto membro do grupo, mas ele não parecia disposto a contar coisa alguma. 

- Como é? Vá falando... – disseram os outros. – E você? 

- Eu... eu... não posso dizer... estou até com vergonha – esquivou-se ele. 

Todos ficaram interessados. Que sinistro vício estaria ele encobrindo? 

Pediram, insistiram, e afinal disseram que ele não estava sendo correto, uma vez que todos tinham sido francos. 

- Muito bem – disse o homem afinal, com relutância. – Se vocês fazem questão de saber... A minha fraqueza é falar mal da vida alheia. Sou um tremendo linguarudo! E estou louco para sair deste quarto!...

Se eu pudesse...

 

Ah, se eu pudesse voltar ao passado...

Eu beijaria Maria, pois ela queria,

mas eu não sabia...

Eu tinha 9 anos.

Ela, eu não sei.

Mas sabia mais do que eu. 

Se eu pudesse voltar ao passado...

leria mais, aprenderia mais

e não desperdiçaria meu tempo de infância

com ideias de adulto. 

Se eu pudesse, apenas se eu pudesse,

mudaria os erros em acertos.

Mudaria em compreensão a ira em meu coração.

Saberia perdoar.

Saberia postergar maldades ou mesmo evitá-las. 

E se pudesse, não prenderia aquele passarinho,

que acabou morrendo

por falta de cuidados ou de liberdade. 

Se eu pudesse voltar ao passado,

seria para corrigir injustiças,

evitar acidentes,

prolongar amizades e amores

que me foram tão caros. 

Pudesse eu voltar,

eu me aproveitaria de Marlene,

pois era isso que ela queria

(mas eu não sabia).

Coxas que acariciei tremendo,

(aos onze anos),

as de Marlene eram como peças de mármore

...macias...

Eu poderia ter Marlene,

mas não sabia bem o que fazer com ela.

Ela sabia o que fazer comigo.

E foi bom! 

Ah, se eu pudesse voltar ao passado.

Veria, então, o que hoje não me agrada aos olhos.

Veria a confiança, a ingenuidade e a alegria

que enchiam o coração do povo brasileiro.

Seria muito bom.

Se eu pudesse voltar...

mas eu não posso... 

Clarival Vilaça

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Qual a origem da continência militar?

 

A continência militar tem uma origem comum com o nosso hábito de apertar a mão, e ambos datam dos tempos em que, geralmente, todos os homens andavam armados. Quando dois homens se encontravam, em boa paz, cada um deles levantava a mão direita para mostrar que não trazia arma e que podiam aproximar em segurança. Quando os civis deixaram de trazer armas, continuou o hábito de levantar a mão direita em forma de saudação. Tornou-se, depois, costume tocar nas mãos e finalmente, passou-se ao aperto de mão, tal como o conhecemos.

No caso daqueles que continuavam a usar armas − os militares −o levantar da mão tornou-se uma questão mais grave, resultando daí a atual continência cerimoniosa. 

(Almanach Bertrand, 1930) 

A origem da continência militar


Frutos de uma sociedade isolada e tementes às terríveis invasões bárbaras, os cavaleiros eram um dos mais notórios integrantes do mundo feudal. Dedicado ao uso das armas e à proteção de propriedades, o cavaleiro deveria honrar pela sua posição mostrando pronta disposição para participar de uma luta ou defender as terras de seu senhor. Mais do que a bravura e o poder bélico, esse intrigante personagem medieval também se distinguia por uma série de rituais que reafirmavam sua condição.

Segundo alguns historiadores, para assinalar suas origens, os cavaleiros se singularizavam através de símbolos, acessórios e gestos. É nesse momento que podemos sugerir uma resposta sobre a gênese das saudações militares. Na Idade Média, quando passava por membro de mesma condição, o cavaleiro costumava levantar o visor de seu elmo em sinal de respeito e amizade. Ao olhar diretamente para seu próximo, buscava reafirmar a partilha de habilidades e valores com o outro cavaleiro. 

Com o passar do tempo, esse gesto foi preservado na medida em que o uso de forças militares foi ganhando maior espaço e importância. Em outros relatos, temos a descrição de outro ritual que também pode ser visto como um precursor da continência militar. Quando se apresentava para o seu superior, o cavaleiro segurava a rédea de seu cavalo com a mão esquerda e levantava a mão direita para demonstrar que estava pronto para participar de um combate. 

Muito provavelmente, por conta do desconforto que a armadura do cavaleiro propiciava, esse movimento foi simplificado até se resumir ao gesto de se levar a mão à cabeça. Ao longo da formação das monarquias nacionais, entre os fins da Idade Média e o início da Idade Moderna, essas saudações foram mantidas como meio de indicar a subordinação à hierarquia militar organizada no interior dos exércitos. 

Nas fileiras do Exército Britânico, por voltas do século XIX, o soldado poderia executar a continência tocando seu chapéu com a ponta dos dedos ou retirando o mesmo da cabeça. Na década de 1890, em plenas minúcias da Era Vitoriana, o governo da Inglaterra decretou que a continência fosse realizada quando um subordinado estivesse portando algum tipo de boné ou chapéu. 

Atualmente, a reverência militar deve ser feita em pé com a movimentação da mão direita até a cabeça. Rompendo as fronteiras da esfera militar, a continência hoje é também utilizada por facções terroristas e grupos paramilitares, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Contudo, podemos ainda falar sobre alguns casos em que se tentou desviar dessa célebre tradição. 

Aficionado pelo esplendor militar do antigo Império Romano, Adolf Hitler resolveu trocar a continência clássica pelo “Ave, César” dirigido ao cônsul (e depois ditador) romano Júlio César. Nessa continência, o subordinado deveria erguer o braço direito em uma inclinação de quarenta e cinco graus. No caso, a saudação sonora foi devidamente substituída pelo “Heil, Hitler”, que também era ruidosamente reproduzida por vários cidadãos alemães durante os comícios do führer. 

Por Rainer Sousa, Graduado em História

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Pequenas histórias de Almanaques

 

Um passageiro num vagão de trem de primeira classe insistia em fumar. Um outro, indignado, protestou, e quando ia dirigir-se ao fiscal queixando-se, o primeiro antecipou-se-lhe com a seguinte observação:

− Senhor fiscal, verifique que esse homem anda viajando com bilhete de terceira classe. 

Este explicou: 

− Ora é porque se viu uma ponta do bilhete fora da algibeira e eu reparei que era da mesma cor que o meu. 

***** 

Uma senhora de idade assistia a uma conferência sobre Fisiologia. No final do seu discurso, o conferencista convidou os assistentes a fazerem-lhe as perguntas que quisessem. A senhora levantou-se: 

− Era obséquio informar-me, disse ela, − se a parte do cérebro a que chamam “cerebelo” fica dentro ou fora da cabeça. 

***** 

− Ó papai, se eu tirar cinco tostões da algibeira de um sujeito, é roubo? 

−Está claro que é. 

− E seu ganhar cinco tostões numa aposta, é jogatina? 

− De certo 

− Ma se eu impingir a alguém por 550 uma coisa que vale cinco tostões? 

− Ah! Isso então é outra coisa, isso é negócio! 

***** 

Resultado imprevisto 

Um fidalgo, ricaço, resolveu oferecer um lauto jantar aos seus amigos. 

Fez os seus convites e meteu-se no seu automóvel para ir distribuir. Mas já dentro do carro, reparou que lhe tinham esquecido os convites. 

− Manuel! Vai ao meu escritório e traze-me o maço de cartas que me ficaram sobre a mesa onde eu costumo fazer as paciências. 

Segue o automóvel e o fidalgo ia indicando ao criado: 

− Aqui, o senhor Visconde de tal; ali, no número 50, o senhor conselheiro de tal; etc. 

Quando chegou a certa altura perguntou: 

− Manuel, faltam muitas cartas ainda? 

− Não, meu senhor. Falta só o duque de espadas e o valete de copas!... 

***** 

Lógica 

O médico: − Essas dores nos músculos da perna esquerda, senhor Anacleto, são devidos à idade avançada que você já vai tendo, sabe? 

O Anacleto: − Sim, senhor doutor? Mas então minha perna direita tem a mesma idade e ela não me dói! 

***** 

Vingança cruel 

Estavam muito apaixonados, mas por fim chegou um dia em que tiveram uma grande questão e se separaram, cada um deles resolvido e nunca mais ver o outro, enquanto vivessem.

Passaram anos, e quase se tinham esquecido por completo dessa pequena intriga amorosa, quando uma noite se encontraram, cara a cara, num baile. 

Ele ficou um tanto embaraçado, mas, todavia, dirigiu-se para ela precipitadamente e disse, com uma certa afabilidade: 

− Estimo muito vê-la, Elisa. 

Ela olhou-o com indiferença e respondeu friamente: 

− Tem graça! Seria você ou seu irmão que foi dantes um grande admirador meu? Já me não lembro. 

Ele sentiu-se melindrado, mas manteve-se à altura da situação. 

− Efetivamente, também me não recordo − retorquiu com um sorriso de ironia − mas é mais natural que tenha sido meu pai. 

***** 

O caminho a seguir 

O advogado: − Diga-me então lá quais palavras de que o réu se servia no libelo de que o senhor se queixa. 

O queixoso: − Disse que me desafiava a encontrar um maior ladrão e mentiroso do que eu era. 

O advogado: − E o que foi que o senhor respondeu? 

O queixoso: − Disse-lhe que vinha ter com o meu advogado. 

***** 

Ela por ela 

O criado de escritório: − O patrão disse-me que lhe dissesse que ele não estava. 

O visitante: − Ah! Sim? Pois pode dizer ao seu patrão que eu não vim cá.

***** 

Tudo menos marido 

A Brígida, a empregada da casa, dirigiu-se à patroa. 

− Eu vinha pedir à senhora se me dava uma semana de licença − disse ela − porque me queria casar. 

A Brígida tinha sido sempre boa rapariga, por isso a patroa deu-lhe a semana de licença, e ainda mais um vestido branco, uma mantilha e um pudim. 

No fim de semana, A Brígida voltou. 

−Ah! Minha senhora − exclamou ela. Isso é que eu estava uma noiva bonita! O vestido ficava-me muito bem, a mantilha era um encanto, e o pudim estava esplêndido. 

− ainda bem, Brígida, gosto de saber que tudo correu bem − disse-lhe a patroa − e espero que tenha alcançado um bom marido. 

A Brígida mudou logo para um tom indignado. 

− Ah! Minha senhora, não queira saber o que me aconteceu? O grande malvado nunca chegou a aparecer! 

Segurança primeiro que tudo 

O eletricista estava embaraçado. 

− Olha lá! −disse ele para o ajudante, − ponha aqui a sua mão num desses fios. 

O ajudante assim fez 

− Sente alguma coisa? 

− Não senhor. 

− Ainda bem, −disse o eletricista − eu não tinha certeza qual deles era. Não toque no outro que lhe dá morte instantânea.

(Textos dos Almanaques Bertrand, de 1925 e 1930)

Pessoas que dizem mas

 Cláudia Tajes*

Foi meu filho quem reparou.

“Mãe, notou que para tudo tu tens um mas?”

Eu não havia percebido. Então, depois que ele falou, passei a prestar a atenção no que eu me tornei: uma pessoa que diz mas. 

O filme é interessante, mas o ator é péssimo.

O restaurante é ótimo, mas o atendimento é bem ruinzinho.

Entreguei o trabalho, mas podia ter ficado melhor.

Pintei o cabelo, mas acho que ficou muito claro.

Chegou a comida, mas veio fria.

Comprei um vestido, mas não caiu muito bem. 

E, assim, ad infinitum.** 

Não sei em que momento me tornei essa pessoa. Sempre ouvi que eu era positiva, otimista. Talvez seja a idade, é mais fácil ser positiva e otimista aos vinte e poucos, trinta anos. Os problemas existem, apenas não perecem insolúveis na saúde e na juventude. Com um bom amor juvenil, nada é ruim o bastante. Até a falta de dinheiro é menos dura quando existe colágeno. 

(...) 

Voltando ao presente. 

Nós, as pessoas que dizemos mas, não ficamos satisfeitas nunca. Por mais que se mexa, se invente, se vá atrás, se desdobre, se vire, sempre falta alguma coisa. 

Consegui o emprego, mas não era bem o que eu pensava.

Mudei de telefone, mas odiei o sistema.

Emagreci, mas fique flácida.

Casei, mas que tédio.

Tive o filho que eu queria, mas não durmo mais.

Mudei de apartamento, mas é muito barulhento. 

Pior que o mas não é usado apenas em desproveito próprio. Pessoas que dizem mas nem percebem que estragam a alegria alheia. Gramaticalmente uma conjunção coordenativa adversativa, o mas é também uma crítica − muitas vezes, fora de hora −, uma bola nas costas, um sinal de azedume, uma demonstração de maus bofes. É o elogio com contrapeso incluído. 

Gostei do teu cabelo, mas preferia como era antes.

Teu churrasco é bom, mas tem muita gordura.

Gostei do teu livro, mas o final podia ser melhor.

Tua ideia é ótima, mas eu faria diferente.

Pode sair com essa camisa, mas a outra é mais bonita. 

Agora que me reconheci uma pessoa que diz mas, tentarei diminuir o adversativo não nas minhas frases, mas nos meus pensamentos. Ainda que não seja fácil, porque o adverso tem nos acompanhado em praticamente todos os dias deste ano. 

Não sei se vai dar certo. Mas assim como cheguei ao fim deste texto sem usar qualquer mas que não fosse de efeito, digamos, cenográfico, vai que consigo ficar limpa de tanto mas também na vida?


* Cronista do caderno Dona, de Zero Hora, novembro de 2020. 

**Que não tem fim ou limite, sem limite no tempo ou no espaço; indefinidamente.