terça-feira, 21 de maio de 2019

É ela! É ela! É ela!



É ela! é ela! - murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou
- é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura
-
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela!
- repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!


(Álvares de Azevedo, 1831-1852)


In “Humor e Humorismo”, Editora Brasiliense − São Paulo, 1961)


Mude

Edson Marques


Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia, ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abre e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama.
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV,
compre outros jornais, leia outros livros,
Viva outros romances!
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira, de malas.
Troque de carro.
Compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude! Mude! Mude!
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, mude de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores, que as já conhecidas
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!


Edson Marques, formado em Filosofia pela USP, é um escritor e poeta brasileiro. Participou da fundação da Ordem Nacional dos Escritores.Vencedor do Prêmio Cervantes/Ibéria em 1993.
Obras:
“Mude”, 91 páginas, Ed. Original, 2006, SP.
“Manual da Separação”, 160 páginas, Ed. Filosoft, 1998, SP.
“O Canto dos Poetas”, antologia da Ordem Nacional dos Escritores.
“Beijos no céu da boca”, Ed. Do Autor, 1985, esgotada.


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Bossa Nova para principiantes

Edson Aran


Se você acha que amar é tolice, bobagem e ilusão, é bossa nova.

Se amar foi sua ruína, é samba-canção.

Se a ingrata deu pro Assum Preto, pro Pintassilgo e pro Ditão, é música sertaneja.

Se você acordou de manhã se sentindo miserável, não é bossa nova, é blues.

Se a última fileira do teatro consegue te escutar, não é bossa nova.

Se a primeira também não escuta, é show do Philip Glass.

Se você vai à praia de tardinha para ver o barquinho, é bossa nova.

Se você só viu barcão, solzão, canção ou outra coisa terminada em “ão”, é samba-enredo.

Menos improvisação. Aí é jazz.

Música com maçã, Iansã e febre terçã, é coisa do Djavan.

Mas, se tiver pau, pedra e um resto de toco, é o fim do caminho.

Se você fica deprimido quando pensa no amor, é bossa nova.

Se você pensa no amor e fica deprimido, é impotência.

Se você é cantora e mostra o joelho, é bossa nova. Se mostra a bunda, é axé music.

Se mostra que só sabe gemer com voz fina e estridente, é a Sandy. Ou o Junior. Uma das duas.

Se as mulheres jogam calcinhas no palco quando você canta, definitivamente não é bossa nova.

Se você é homem e tira a calcinha no palco, é Tropicalismo.

Se você é mulher e entra no palco sem calcinha, é a Lady Gaga.

Se ela passa num doce balanço a caminho do mar, é bossa nova.

Se a sua alegria atravessou o mar, é outra coisa.

11 versos inéditos do Djavan


01 – Iansã / Sabor de febre terçã / Pera, uva ou maçã

02 – Anil cor de canil / Céu de barril / Pega no funil

03 – Festa de São João / Fanta com empadão / Vou soltar rojão

04 – Dinossauro samurai / Barquinho vai / Enfia, amor, vai

05 – Mullah sem razão / Jihad de paixão / Ih, lá vai o avião

06 – Idade do céu / Sabor caramel / Me vê um chops e dois pastel

07 – Tutu-marambá / Ioruba Babalorixá / Chega de blábláblá

08 – Mugido animal / Roupa no varal / Cadê meu Sonrisal?

09 – Mar de orgasmo / Índio pasmo / Aquele som do Erasmo

10 – Foi tão bom / Baile com acordeom / Respira fundo e fala “Ooooommmm”

11 – Espada de sereia / Lua meio cheia / Óia lá a baleia


João Nogueira mudou o canto do samba



João Nogueira por JBosco

João tinha planos de gravar novo disco, ao vivo, em São Paulo, na casa de espetáculos Tom Brasil. Estava com viagem marcada para cá: viria ainda nesta semana para montar o show que resultaria no CD, mesmo que estivesse com dificuldades de locomoção e de equilibrar-se, em função do último derrame. Na madrugada de domingo para segunda-feira, 5 de junho de 2000, sentiu-se mal. Ângela, sua mulher, ainda tentou levá-lo a um hospital, mas não houve tempo. O corpo foi velado no Cemitério São João Batista, na zona sul carioca, e deveria ser sepultado lá, às 17 horas.

João Batista Nogueira Júnior nasceu no subúrbio do Méier no dia 12 de novembro de 1941. Seu pai era advogado e músico, tendo chegado a tocar em regionais importantes como a de Rogério Guimarães. Aprendeu a tocar violão de ouvido e começou a compor aos 15 anos, em parceria com sua irmã, Gisa Nogueira. Pouco mais tarde, passou a frequentar o bloco carnavalesco Labareda do Méier, que chegou a dirigir e para o qual compunha. Um dos integrantes do bloco era Airton Silva, filho do saxofonista Moacir Silva, que dirigia a gravadora Copacabana. Apresentado a Silva, Nogueira conseguiu gravar seu primeiro samba, Espera, ó, Nega, em 1968, acompanhado por um conjunto de samba que não tinha nome e depois seria conhecido como Nosso Samba. Outro filho de gente famosa entrou em sua vida para ajudá-lo: o compositor Paulo Valdez, filho de Elisete Cardoso, passou a frequentar o bloco do Méier, ouviu João, encantou-se com suas belas melodias, levou-as para que a mãe as ouvisse e Elisete gravou, em 1970, Corrente de Aço. Era um aval de muito peso: Elisete estava no auge, era uma das grandes damas da canção popular. Nogueira pôde convidar o radialista Adelzon Alves, o grande porta-voz do mundo do samba para ser seu produtor. O resultado foi um disco precioso, Quem Samba Fica, que foi lançado em 1971.

Lugar assegurado no clube dos grandes compositores, João Nogueira começou a ser gravado pelos principais intérpretes − entre eles, e principalmente, Clara Nunes, que, naquele mesmo ano, lançou Meu Lema, de João e Gisa Nogueira, e Morrendo de Verso em Verso. Ainda em 1971, Nogueira venceu um concurso de sambas da Portela (com Sonho de Bamba) e passou a integrar a ala de compositores da escola. No ano seguinte, lançaria num compacto (disco de 33 rotações por minuto com uma faixa só de cada lado) a música que virou seu prefixo: Espelho, com letra com Paulo César Pinheiro (que se tornaria seu principal parceiro) é um samba em tom menor, triste, lento, denso, quase falado. É um samba de recordações dolorosas, do filho que tem saudade do pai morto. Com Espelho, Nogueira mostrou uma face que até então havia ficado em segundo plano − a do cantor. Ele foi o maior cantor moderno do samba. Tinha uma maneira especial de dividir as frases musicais dentro do compasso, puxando a síncope para trás, atrasando as entradas. Ninguém havia cantado daquela forma. Nogueira virou marca. Lançou 18 discos-solo e participou de outros tantos.

O segundo elepê saiu em 1974, E lá Vou Eu, e, no ano seguinte, saiu Vem Quem Tem, uma tomada de posição que destacou dois números: Mineira (com Paulo César Pinheiro, uma homenagem à cantora mineira Clara Nunes, mulher do letrista) e Chorando pelos Dedos (com Cláudio Jorge). Em seguida, Nogueira viajaria pelo Brasil dividindo o palco com Cartola, pelo Projeto Pixinguinha, da Funarte. Lançou, em seguida, o elepê Espelho (a música só estava disponível naquele compacto já citado) e, em 1978, Vida Boêmia, do qual participava o jornalista Sérgio Cabral. Os discos eram cada vez melhores e esse foi o melhor tempo do artista João Nogueira.

Em 1979, com Alcione, Martinho da Vila, Beth Carvalho e outros grandes, fundou o Clube do Samba, que presidia. O nome Clube do Samba também batizou um de seus discos, mas talvez sua obra-prima seja o elepê que lançou logo em seguida, em 1981: Wilson, Geraldo e Noel, em que rendia tributo a Wilson Batista, Geraldo Pereira e Noel Rosa, para ele (e para quem entende de samba) a trindade fundamental do gênero. A política da indústria fonográfica escondeu o samba, nos anos 80, mas João Nogueira continuou fazendo discos excelentes − e, com Clara Nunes, a quem voltaria a homenagear, ele era o grande defensor do gênero. O tema de Espelho voltaria a ser abordado em Além do Espelho, disco de 1992 que reuniu algumas parcerias de João e Paulo César Pinheiro. Dois anos depois sairia outro disco com a obra deles dois, Parceria, esse gravado ao vivo. João cantou na Ópera do Malandro, de Chico Buarque, montou grandes espetáculos (como Carioca, Suburbano, Mulato e Malandro, de 1979), compôs alguns dos mais belos sambas de todos os tempos − seu O Poder da Criação é uma obra-prima. Ele gostava de cantar O Poder da Criação (a letra é de Paulo César Pinheiro) à capela, empregando toda a paixão interpretativa. Invariavelmente, quando ele terminava, havia gente chorando na platéia. Mas o pagode dos anos 90 ameaçava tirar o compositor de cena. Em 1998, ele cedeu e gravou música do Raça Negra no irregular CD João de Todos os Sambas. Sua última participação num disco foi no trabalho coletivo Esquina Carioca, que dividiu com Luiz Carlos da Vila, Beth Carvalho, Moacyr Luz, Walter Alfaiate e Dona Ivone Lara.

(Do Estadão, junho de 2000)



João Nogueira por Carlos Wolfgram

 Labareda

(Homenagem a João Nogueira)

Compositores: Jorge Simas e Paulo César Feital

Como é que sai o Clube sem seu bamba,
Quem é que vai puxar o samba,
Riscando no chão sua pemba de fé, quem é?
Vem a meio pau nossa bandeira,
Solução, Méier, Madureira
E aquela mesa do Alcazar.
Sei, foi bambear no infinito
E hoje o céu é mais bonito,
Existe uma estrela gingando por lá.
Quem é?
Quem tocou na alma brasileira,
Como quem toca a companheira,
Pele com pele até sangrar.
Pôs samba jorrando por todos os poros,
De bantos, de lusos, bororos
Pra denunciar ou sonhar.
Quem é esse malandro de primeira?
Com sobrenome de madeira
E labareda no olhar.
João, o bloco sai queira ou não queira
E a gente toma a saideira,
Depois que a saudade desfilar.
Só vem quem tem força e canta
E solta esse nó na garganta,
Em prantos que a sua lembrança traz.
Cantando essa dor se estanca sim,
Uma luz se agiganta
E ajuda a gente a viver em paz.

O vaso quebrado



Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas.

Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada da torrente até a casa, enquanto aquele rachado chegava meio vazio.

Por longo tempo a coisa foi em frente assim, com a senhora que chegava em casa com somente um vaso e meio de água.

Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer. Depois de dois anos, refletindo sobre a própria amarga derrota, falou com a senhora durante o caminho:

− Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho me faz perder metade da água durante o caminho até a sua casa...

A velhinha sorriu:

− Você reparou que lindas flores têm somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e, portanto, plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado e todo dia, enquanto a gente voltava, tu as regavas. Por dois anos pude recolher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa.

Cada um de nós tem o próprio específico defeito.

Mas o defeito que cada um de nós tem é que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante.

É preciso aceitar cada um pelo que é e descobrir o que tem de bom nele.

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. 2 Coríntios 4.7
    
Segunda versão:


O pote quebrado

Um jovem carregador de água sempre levava dois potes pendurados em cada ponta de uma vara.

Um dos potes tinha uma rachadura pequena, enquanto o outro estava inteiro e sempre chegava completo de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do patrão do carregador.

O pote rachado sempre chegava apenas com a metade da carga de água. Assim foi por dois anos, diariamente, o carregador entregando um pote e meio de água na casa de seu chefe.

Claro, o pote perfeito estava orgulhoso de suas realizações. Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição e sentindo-se miserável por apenas ser capaz de realizar metade do que lhe era designado fazer.

Depois de algum tempo, o pote rachado disse ao o homem, à beira do poço:

− Estou envergonhado, quero pedir-lhe desculpas.

− Por quê? − perguntou o homem − De que você está envergonhado?

− Nesses dois anos só fui capaz de entregar metade da minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que boa parte da água vaze pelo caminho da casa de seu senhor. Por causa do meu defeito, mesmo tendo todo esse trabalho, você não ganha o salário completo pelos seus esforços.

O homem apenas acenou com a cabeça. No caminho para a casa de seu senhor, o homem disse ao pote:

− Você notou como existem flores no seu lado do caminho? Notou que, dia a dia, enquanto voltávamos do poço, era você quem as regava? Por dois anos pude colher essas flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Se você não fosse do jeito que é, ele não poderia ter tanta beleza para dar graça a sua casa.

Potencial das pessoas

Uma das habilidades mais importantes de um Líder é a capacidade de perceber e desenvolver o potencial das pessoas. Todos nós temos limitações em determinadas áreas, em contrapartida somos muito bons em várias outras.

Precisamos compreender que não existe “saber mais” ou “sabe menos”, o que existem são “saberes diferentes”.

Em uma equipe, os conhecimentos se completam, e o respeito pelas habilidades e limitações de cada um é a chave para o bom relacionamento.


domingo, 19 de maio de 2019

Trovador e Pensador



Oswaldo Soares da Cunha é poeta, pensador e filósofo. Nasceu em 25 de fevereiro de 1921, às margens do rio Doce, em Baguari, município de Figueira do Rio Doce, hoje Governador Valadares. Aliás, quando da mudança do nome para homenagear o governador de Minas, Soares da Cunha fez protestos em versos, mas os bajuladores de plantão não ouviram a voz do poeta. Seu interesse pela poesia e pelas trovas nasceu na juventude, em Belo Horizonte, quando recebeu um livro de trovas. Meu coração em cantigas, do poeta Nilo Aparecido Pinto. Aí eu pensei, diz ele, vou fazer um livro deste também. Seu primeiro livro foi Sangue da Alvorada. Depois vieram vários: Rosa dos Ventos (poemas); Maria (trovas); Pastor das Nuvens (trovas); Lua no Poço (trovas); Torre Sondra (trovas); Mínimas (pensamentos); Canção dos Condenados da Mina (poemas); Livro das Trovas (coletânea); Trovas de Sêneca.

Amigos são todos eles
Como aves de arribação.
Se faz bom tempo eles vêm
Se faz mau tempo eles vão.

Saudade sombra fantasma
Coisa que bem não se explica:
Algo de nós que alguém leva,
Algo de alguém que nos fica.

Qual menino sonhador
eu fico às vezes pensando,
que a borboleta é uma flor
que gosta de andar voando.

Toda água que existia
sumiu dos sertões distantes,
para brotar, em seguida,
dos olhos dos retirantes!

Aos olhos cheios de afeto
da mãe que o viu pequenino
seja qual for sua idade
o filho é sempre um menino.


Ir pelo campo entre os bois,
sem sapato nem chapéu
mastigando capim verde
e cuspindo azul do céu...

O arvoredo se arrepia,
amante dos mais sensíveis,
quando a brisa o acaricia
com seus dedos invisíveis.

Céu puro da minha infância,
ó céu das saudades minhas,
vejo-te além, na distância,
rabiscado de andorinhas!

Aquelas duas palmeiras,
que pena que dão de olhar:
lado a lado a vida inteira,
sem poderem se abraçar.

Eu vi de longe a palmeira
no meio do chapadão...
Foi a imagem mais perfeita
que eu vi da solidão.

O soldado Fabino



Fabino era um soldado bajulador. Todos o detestavam por isso. Ficava sempre perto do comandante, tentando adivinhar do que ele precisava, o que ele queria, para que ele, Fabino, pudesse providenciar. Esse comportamento seria aceitável se ele não colocasse os colegas em apuros sempre que podia, para se promover junto ao comandante. E aí veio o acampamento. Fabino conseguiu, usando o nome do comandante, que sua barraca ficasse junto a dele de modo a poder atendê-lo mais prontamente. E ouviu o comandante dizer que precisava de dez folhas de cartolina, de diversas cores, para uma exposição que faria aos oficiais e sargentos, naquela tarde. Fabino sabia que seria impossível, naquele mato, conseguir o papel, mas logo se apresentou para cumprir a missão e conseguir realizar a proeza. Como, ele descobriria mais tarde. O importante era agradar o comandante.

Saiu então em busca de um motorista e de um jeep, sempre falando em nome do seu chefe. Conseguiu. O soldado falou que não guiava bem, que o jeep não estava funcionando direito e que não conhecia nada daquela região. Fabino ignorou a ojeriza demonstrada pelo soldado e disse que era ordem do comandante e partiram.

Se embarafustaram por estradinhas e estradas “projetadas”, até alcançar uma rodovia de verdade. Fabino escolheu uma direção e rumaram pra lá. Deveria haver uma vila, uma cidade, onde pudesse comprar o papel. Acharam a pequena vila um bom tempo depois de rodarem pela estrada e Fabino começou a ter dúvidas se saberia voltar ao acampamento. Conseguiu achar um armarinho e lá comprou as folhas de cartolina, de cores variadas. Dispensando que fossem embrulhadas, pulou para jeep e mandou que o motorista pisasse fundo. Mal retomaram a rodovia, o carro parou, enguiçado. “Você sabe alguma coisa de mecânica?”, perguntou ao motorista. “Nadinha, nadinha!” − respondeu o soldado, rindo por dentro.

Fabino colocou os papéis debaixo do braço e se virou para o soldado: “caso você conserte o jeep, me alcance, vou seguir a pé ou de carona, até chegar ao acampamento”. Dito isso, partiu resoluto. Em sua mente, via o comandante sorrindo, ao vê-lo chegar com as folha de cartolina. Que sucesso! Achou uma estradinha e entrou por ela, achando-a familiar. Seguiu achando que ela fazia uma curva e andou, andou. Com o tempo nublado, não tinha certeza sequer da direção. Tinha apenas a esperança de dar de cara com as barracas. Mas que nada. Depois de quase duas horas de caminhada viu ao longe, à sua frente, a rodovia. Lá estava o jeep e o soldado tentando fazê-lo funcionar. Viu o carro finalmente se movendo e gritou, mas não foi ouvido e seu passaporte para o acampamento seguiu adiante. Teve vontade de chorar. Não vira carro algum passando por ali, o tráfego era mínimo. Sentou-se num barranco e pensou: o que mais poderia dar errado?
  
Aí, começou a chover. Forte.

Clarival Vilaça