Paulo Mendes*
Morro um pouco a cada novembro que chega, a cada final de ano, a cada aniversário. Vão-se as coisa que eram só minhas, amigas, companheiras de horas doloridas e amargas, aquelas recordações que ficam acalentadas por anos, lá nos escaninhos mais secretos da alma, cutucando, ferindo, cavando fendas bem profundas, incomodando todos os dias e noites, fazendo-me perder o sono nas madrugadas dos galos, mas que “por supuesto” finjo não sentir nada. Gostava tanto de passar os dias e meses no colégio aprendendo, brincando com os colegas, me divertindo, socializando. Mas, inevitavelmente, chegava novembro e tudo terminava. Ia embora a pé para casa, chorando por dentro, pelos internos, e nem via ou sentia nada. Não sentia o vento da primavera me atordoando, não via as lavouras substituindo os campos, não enxergava os tratores tomando o lugar das juntas de boi. Nada.
Hoje, aqui onde estou, consigo dimensionar o que vivia. Na época, eram só pequenas despedidas de novembro, mudanças de fim de ano. Mesmo assim, intuía as transformações, pressentia os fatos. Caminhava assobiando algumas canções de Gildo de Freitas, Pedro Raimundo, Teixeirinha e, vez por outra, alguma do Roberto Carlos. Outras melodias italianas e correntinas que tocavam na antiga Rádio 14 de Julho. Nas solitárias noites, o velho rádio Philips era meu companheiro até dona Mirica mandar desligar e ir dormir. Aprendi, naquele tempo, a sintonizar as ondas curtas e acompanhar programas argentinos, onde conheci o tango e o chamamé. Era curioso, como todo guri. Foi um período que acompanhei a passagem de muita gente indo embora, estrada afora, a pé, com trapos às costas, carregando tarecos. Outros montados em cavalos magros, ancas de vaca, que se sumiam na polvadeiras, ao longe, alguns para nunca mais voltar. Como Nelinho, seus pais e seus irmãos. Fizeram uma parada no bolicho, tomaram água, venderam uma faca de prata, deixaram a cadela Piranha e seis filhotinhos, e se mandaram “a la cria”.
Novembro traz consigo uma tropa plúmbea de vaquilhonas magras, de cabeças baixas, que rumam a passos trôpegos a um açude de águas encardidas. Um gado triste, sem rumo e destino, repontado por tropeiros vagos, perdidos e desatinados. Em novembro, a primavera perde as flores e fica na boca o gosto amargo do fim de algo que nunca houve. Eu amava ver a Belinha com seus cabelos dourados, da cor das lavouras de trigo maduro. E para isso fazia tudo ligeiro para ir ao colégio. Mas quando chegava o fim do ano, eu nem isso tinha. Teve anos que dava um jeito de sair mais cedo, ficar sentado em um lugar onde ela passava. Ia levantar e dizer que seus olhos azuis eram maravilhosos, que queria dar um tchau. Mas quando eu a via, eu paralisava, olhava para baixo e ficava tremendo. Ela passava feliz, pulando, cantando, vivendo a vida alegre que eu sonhava, que queria também. Depois ficava algo amargo, um vazio que de tão imenso e insuportável chegava a doer.
A vida é assim. A gente perde o controle, não diz o que quer, quer o que não deve querer. Chegou um novo novembro e, apesar de anos terem se passado, parece que sigo o mesmo, sem expressar direito o que sinto. Foi também num longínquo novembro, quase perdido na memória, que partiu José Mendes, meu pai adotivo. Até hoje sinto uma saudade latejante das nossas tropeadas curtas, repontando as vacas de leite para o banho contra o carrapato, dos longos silêncios ao redor do fogareiro a carvão, das carroceadas à noite, sob o clarão da lua cheia.
Novembro tem um jeitão de quem se vai, porque partir também faz parte da vida. Como na canção de Gujo Teixeira (letra) e Mauro Moraes (música): “Vai uma saudade e mais nada / Uma esperança emalada / Quando um gaúcho pega a estrada...”
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*Crônica de Camperada, do
Correio do Povo, novembro de 2024

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