domingo, 10 de novembro de 2024

Ode a Machado de Assis

 (O negro favelado que me inspirou a escrever) 

Caio Ferraz

Na minha época não existia Enem. Para ingressar numa universidade pública todos tinham que prestar um concorrido Vestibular. Quando prestei para Ciências Sociais, na UFRJ, lacrei nota máxima em redação, além de ter me saído muito bem nas provas discursivas. 

Não sabia, contudo, que eu escrevia bem o dialeto da elite. Um menino pobre ‒ de pai e mãe operários, que mal terminaram o primeiro grau ‒  nascido e criado numa favela violenta e abandonada deste país rico, porém injusto, não podia ter conseguido essa façanha. Como conseguiu? Qual foi sua fonte de inspiração? O Quim. 

Quim, como eu chamava Joaquim, o novelista, cronista, romancista e poeta negro nascido e criado no Morro do Livramento foi e é para mim a maior fonte de inspiração. Desde jovem eu queria entender como ele ousou escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro? Como? A resposta veio ao ler quase tudo do mestre. 

Com o Machado nas mãos abri caminhos na floresta virgem da minha existência. Com Assis em meu coração, consegui passar de um simples aprendiz para alfaiate do manto que iria mais tarde me proteger do frio das pessoas. 

Se hoje sou o que sou, devo isto ao amado companheiro das letras Joaquim Maria Machado de Assis, o favelado que fundou e foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. 

Machado de Assis, o negro favelado, demonstrou que elite de nosso país não teve a capacidade de interpretar a alma e o desejo do povo brasileiro. Por isso, ele é considerado o maior e mais completo escritor brasileiro. 

Mestre Quim, obrigado pelo amor e carinho.

A nota dez que tirei na redação do vestibular foi a forma que tive de lavar a alma e dizer que o mergulho que fiz em sua literatura não foi em vão.

  *******

* Caio Ferraz ‒ poeta, sociólogo e ativista de direitos humanos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário