quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Palavras a uma mãe ausente

 Evandro Farias

Quase ao final da cerimônia, de “Homenagem às Mães”, a diretora da escola se aproxima do microfone e diz com voz tranquila: 

‒ Antes do encerramento, vamos ouvir a aluna Sofia, turma 109, da professora Carina. 

Ela olha para a menina e, com um sorriso encorajador, acrescenta: 

‒ Tens a palavra, Sofia. 

Sofia, uma menina de apenas sete anos, levanta-se com um sorriso tímido. Seus olhos brilham de ansiedade enquanto ela caminha até o microfone. Com voz clara e determinada, ela começa: 

“Boa tarde a todos! Meu nome é Sofia, tenho sete anos e sou aluna da professora Carina. Quando soube que teríamos esta solenidade em homenagem às mães, pedi, implorei, incomodei muito a professora Carina para dizer algumas palavras. Até que, um dia, ela confirmou a autorização da diretora Helena.” 

Sofia faz uma pequena pausa, respira fundo e sorri para a diretora. 

“Obrigada, diretora Helena. Muito obrigada mesmo por me permitir estar aqui.” 

Ela, então, olha para o público e começa a falar com uma maturidade que surpreende. 

“Quando pensamos nas mães, logo nos vem à mente aquela pessoa que nos acolhe com carinho, de fala mansa, que tem aquele cheiro único. Cheiro de mãe é uma delícia, não é?” 

O público, ainda sorrindo, concorda em silêncio. 

“Quando precisamos de algo, de carinho, de conforto, de ajuda, o primeiro nome que chamamos é ‛Mãe! Mãe! Manhê!’ Eu também preciso da minha mãe. Todos os dias. E também chamo: ‛Mãe! Mãe! Mas não ouço resposta’. 

A sala se enche de silêncio, e Sofia, olhando para o chão por um instante, continua com a voz suave: 

“Como disse, tenho sete anos, e faz sete anos que Deus levou a minha mãe.” 

A emoção começa a tomar conta do auditório. Pais e professores trocam olhares de compaixão. Sofia, porém, mantém sua serenidade e diz: 

“Meu pai sempre me diz que Deus fez uma troca. Levou sua rainha e enviou uma princesa... Eu!” 

Ela sorri timidamente e, depois de um breve suspiro, prossegue: 

“Mas eu daria tudo para ouvir a voz da minha mãe, para sentir seu abraço, o seu cheiro. Faria qualquer coisa para estar com ela, só por um segundo... E poder dizer: Eu te amo!” 

A intensidade das palavras de Sofia ecoa na sala. Ela continua: 

“Meu pai me conta histórias como ela era. Que ela amava estudar, que tinha acabado de terminar a faculdade de Pedagogia e estava preparando seu mestrado. Meu pai também diz que ela era a mulher mais linda que ele conheceu. E eu acredito! Já vi fotos dela... Era realmente deslumbrante!” 

Sofia faz outra pausa e, com um olhar pensativo, fala: 

“Eu nunca ouvi sua voz, nunca senti seu colo, mas tenho certeza que seria algo divino. Imagino como seria ter um pedacinho dela comigo. Às vezes, fico perguntando como ela seria comigo. O que ela diria se estivesse aqui. E sinto uma saudade enorme. Saudade de algo que nunca experimentei, mas que imagino ser maravilhoso, porque tudo o que vem de uma mãe é especial.” 

Ela olha para o público com mais intensidade agora: 

“Então, eu queria pedir a vocês que estão aqui. Não percam tempo. Abracem suas mães. Toquem nelas, sintam o cheiro delas, falem com elas. Mãe não quer presente caro. Quer um abraço, um elogio, quer que você diga ‛Oi, mãe, estava com saudades’. Isso é o verdadeiro presente. E acredite, quando vocês fizerem isso, ela vai saber que todo o esforço valeu a pena. As noites sem dormir, as preocupações, as dores que ela sentiu. Tudo vai parecer pequeno diante do amor dos filhos”. 

Sofia sorri uma última vez, e com as palavras ainda pairando no ar: 

“Sabem por quê? Porque o carinho de um filho é o remédio que cura qualquer dor”. 

Ela respira fundo, como se estivesse liberado um peso do peito, e conclui com firmeza: 

“Muito obrigada a todos. E, por favor, feliz Dia das Mães!” 

O silêncio da sala é quebrado por aplausos calorosos, mas também misturados a lágrimas que escorrem discretamente pelos rostos emocionados dos presentes. 

“Mãe, você me teve,

mas eu nunca tive você.” 

John Lennon na música “Mother” 

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