sábado, 26 de julho de 2025

Preto Demais

 Hugo Ojuara

Enquanto seu discurso tá pronto na internet,

Prenderam o neguinho ali na Praça Sete,

Que tava pedindo dinheiro pra vender chiclete,

Mas, com playboy fumando um boldo ali, ninguém se mete.

 

Porque o pai é juiz, e a mãe é delegada,

Enquanto a mãe do neguinho é sua empregada.

Um corre danado, maior agonia,

E pega um busão lotado pra delegacia.

 

Chegando na delegacia,

A mãe do neguinho pergunta assim para o doutor delegado:

‒ Mas o que foi que ele fez para estar algemado?

O doutor começa então a descrever o caso:

 

‒ É que ele é preto demais,

Corre demais, fala demais, sorri demais.

Tá estudando demais, comprando demais,

Viajando demais e assim não dá mais.

 

Mas ele joga demais, dança demais,

E canta demais, é bonito demais.

Tá se unindo demais, planejando demais,

Assim ele vai passar o meu filho pra trás.

 

Há-há pro terror de vocês,

Os tempos de submissão do nosso povo

Estão com os dias contados,

Vão tentar nos silenciar, nos forjar,

Mas nosso plano tá mais que traçado.

 

Então só quem é negão

E tem muito orgulho de ser preto,

E preto demais,

Vai cantar assim, ó.

 

É que eu sou preto demais, corro demais,

Falo demais, sorrio demais,

Tô estudando demais, comprando demais,

Viajando demais, eu só quero paz.

 

Eu também jogo demais, danço demais,

Canto demais, sou bonito demais.

Tô me unindo demais, planejando demais

E vou fazer comer poeira os filhinhos de papai.


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