Hugo Ojuara
Enquanto seu discurso tá
pronto na internet,
Prenderam o neguinho ali na
Praça Sete,
Que tava pedindo dinheiro pra
vender chiclete,
Mas, com playboy fumando um
boldo ali, ninguém se mete.
Porque o pai é juiz, e a mãe
é delegada,
Enquanto a mãe do neguinho é
sua empregada.
Um corre danado, maior agonia,
E pega um busão lotado pra
delegacia.
Chegando na delegacia,
A mãe do neguinho pergunta
assim para o doutor delegado:
‒ Mas o que foi que ele fez
para estar algemado?
O doutor começa então a
descrever o caso:
‒ É que ele é preto demais,
Corre demais, fala demais,
sorri demais.
Tá estudando demais,
comprando demais,
Viajando demais e assim não
dá mais.
Mas ele joga demais, dança
demais,
E canta demais, é bonito
demais.
Tá se unindo demais,
planejando demais,
Assim ele vai passar o meu
filho pra trás.
Há-há pro terror de vocês,
Os tempos de submissão do
nosso povo
Estão com os dias contados,
Vão tentar nos silenciar, nos
forjar,
Mas nosso plano tá mais que
traçado.
Então só quem é negão
E tem muito orgulho de ser
preto,
E preto demais,
Vai cantar assim, ó.
É que eu sou preto demais,
corro demais,
Falo demais, sorrio demais,
Tô estudando demais,
comprando demais,
Viajando demais, eu só quero
paz.
Eu também jogo demais, danço
demais,
Canto demais, sou bonito
demais.
Tô me unindo demais,
planejando demais
E vou fazer comer poeira os filhinhos de papai.

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