segunda-feira, 7 de julho de 2025

Rap Rapadura

 Jô Soares 

(Para ser cantado ao som de qualquer rap)

É o rap, é o rap,

é o rap rapadura,

que arrebenta a dentadura,

é o rap, é o rap

é o rap rapadura,

que arrebenta a dentadura. 

Sobe o preço da comida apesar da contenção,

só o salário é que não sobe segurando a inflação.

Uma guerra vai pro morro pra acabar com traficante,

e a coisa fica feia de assustar qualquer passante.

Outro dia, sem problemas, um governador cansado

pediu férias atrasadas sem ficar encabulado. 

É o rap, é o rap,

é o rap rapadura

que arrebenta a dentadura. 

Se você sai de relógio e fica um tempo no sinal,

o relógio vai pro bolso de um armado marginal.

Se você pega uma estrada é preciso ter cuidado,

muitas vezes a autoestrada é um caminho esburacado.

Na mata também se mata, mas a morte mais morrida

é a morte da própria mata que pelo fogo é lambida. 

É o rap, é o rap,

é o rap rapadura

que arrebenta a dentadura. 

Quem não fuma mais cigarro com filtro de ficção

tem seu pulmão atacado pela própria poluição.

Temos eleições diretas, isso todo mundo aplaude,

a não ser quando nas urnas vem o voto e vem a fraude.

Fica a revolta sentida da grana do aposentado,

depois de tanto trabalho tem seu dinheiro aviltado. 

É o rap, é o rap,

é o rap rapadura

que arrebenta a dentadura. 

Na cadeia tem malandro pobre preso a toda hora,

mas muito malandro rico consegue ficar de fora.

E pra ficar doente com tanta vicissitude

basta olhar a fila enorme em qualquer posto de saúde,

mesmo assim ainda tem gente que só pensa o dia inteiro

em botar a mão no bolso deste povo brasileiro. 

É o rap, é o rap,

é o rap rapadura

que arrebenta a dentadura,

é o rap, é o rap

é o rap rapadura

que arrebenta a dentadura. 

******* 

Da revista Veja de 14 de dezembro de 1994.

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