Jô Soares
(Para ser cantado ao som de qualquer rap)
É o rap, é o rap,
é o rap rapadura,
que arrebenta a dentadura,
é o rap, é o rap
é o rap rapadura,
que arrebenta a dentadura.
Sobe o preço da comida apesar
da contenção,
só o salário é que não sobe
segurando a inflação.
Uma guerra vai pro morro pra
acabar com traficante,
e a coisa fica feia de
assustar qualquer passante.
Outro dia, sem problemas, um
governador cansado
pediu férias atrasadas sem ficar encabulado.
É o rap, é o rap,
é o rap rapadura
que arrebenta a dentadura.
Se você sai de relógio e fica
um tempo no sinal,
o relógio vai pro bolso de um
armado marginal.
Se você pega uma estrada é
preciso ter cuidado,
muitas vezes a autoestrada é um
caminho esburacado.
Na mata também se mata, mas a
morte mais morrida
é a morte da própria mata que pelo fogo é lambida.
É o rap, é o rap,
é o rap rapadura
que arrebenta a dentadura.
Quem não fuma mais cigarro
com filtro de ficção
tem seu pulmão atacado pela
própria poluição.
Temos eleições diretas, isso
todo mundo aplaude,
a não ser quando nas urnas
vem o voto e vem a fraude.
Fica a revolta sentida da
grana do aposentado,
depois de tanto trabalho tem seu dinheiro aviltado.
É o rap, é o rap,
é o rap rapadura
que arrebenta a dentadura.
Na cadeia tem malandro pobre
preso a toda hora,
mas muito malandro rico
consegue ficar de fora.
E pra ficar doente com tanta
vicissitude
basta olhar a fila enorme em
qualquer posto de saúde,
mesmo assim ainda tem gente
que só pensa o dia inteiro
em botar a mão no bolso deste povo brasileiro.
É o rap, é o rap,
é o rap rapadura
que arrebenta a dentadura,
é o rap, é o rap
é o rap rapadura
que arrebenta a dentadura.
*******
Da revista Veja de 14 de
dezembro de 1994.

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