sexta-feira, 28 de março de 2014

As três orquídeas




As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda de pureza,
com leve mácula violácea para a pureza de um sonho triste, um dia.
Que dia? que dia? dói-me a sua brevidade.
Ah! não veem o mundo. Ah! não me veem com eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o eterno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho.
Se elas não veem o mundo, que o mundo as visse,
o tênue caule de tão delicado verde.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
E paira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurardes em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.


(Este foi o último poema escrito por Cecília Meireles)




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