Paulo Mendes*
Havia as quietudes vestidas com rendas de gelo, o amanhecer, alvo das geadas estendidas nas várzeas, os pátios, as mangueiras e os caules. O lampião a querosene dependurado num caibro do galpão, enquanto a madrugada se bandeava e nós ali, eu e Mirica, dando início a mais um dia de julho. A mangueirinha era improvisada ao lado do bolicho lá de casa, tudo era pegado, ajoujado, pertinho, a casa grande foi virando, com o tempo, um amontoado de puxadinhos, estrebarias, na mesma caída do zinco. Tudo porque havia um declive e fomos aproveitando o terreno. Entre as duas casas, uma onde era a cozinha, o bolicho e os galpões integrados, e a casa nova, a dos quartos de dormir, fizemos aterros. Mas depois do poço, só o galinheiro e a patente nova. À esquerda, solitário, um galpão que, por muitos anos, se tornou a casa do gaiteiro. Uns 50 metros abaixo, as taquareiras e o campinho das rosetas, dos jogos domingueiros de futebol.
Esse conjunto de madeiras e zinco silenciava cedo no inverno. Eu fechava a porta da venda com a tramela e uma tranca em cruz. Não havia telejornais ou novelas. Eu e meu irmão fazíamos os temas, ajudávamos a fazer a janta no fogão à lenha e a botar fogo no fogareiro. Nos dias mais frios, mais carvão. Enquanto dona Mirica terminava os afazeres da casa, ficávamos acocorados ao redor do fogareiro, eu, o pai e o irmão, mais novo, um guri, que logo dormia com a cabeça sobre a bombacha cinza do velho Mendes. Às vezes, pedíamos para ele contar um causo de seu tempo de tropeadas, as passagens com o gado por vaus traiçoeiros, os bois fujões, as comidas improvisadas do cozinheiro tio Carrapicho, irmão da Mirica, as historias de assombrações que apareciam nas rondas enluaradas em campos de estâncias antigas.
Foi nessas invernias de antanho que forjei este jeito de enfrentar sem medo as friagens malevas. Respeito muito o vento gelado que vem das cordilheiras, o minuano desgranido que enregela os ossos, atravessa como carneadeira os ponchos e machuca a carne. Mas medo, não. Lá, nos confins e corredores, aprendi que temor todos temos, um tem do outro, por isso é necessário enfrentar de peito aberto todas as adversidades. Para além do frio estão a temperança, as artimanhas, os abrigos, as fogueiras, o tutano da raça, os pelos eriçados, os pelegos de lã crioula, os palas trançados, os chapéus e lenços, as palhas de milho dentro das botas, o tijolo quente enrolado em jornais velhos nos pés para principiar o sono, o santa-fé dos tetos simples na beira da estrada.
(...) Neste momento, enquanto o vento uiva lá fora, viajo para um mundo ameno e claro, de passarada cantando nos galhos, dos campos verdejantes, de cabelos voando no bafo apaixonante de setembro. Porque além das invernias, estarão sempre, as flores perfumadas da primavera.
(De Campereadas, no jornal Correio do Povo,
7 de julho de 2024)
* Paulo Mendes fez Comunicação Social pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 1986, e se tornou Mestre em Letras, área de Literatura Brasileira, pela Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1994. Desde 1990 trabalha no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre (RS), onde hoje integra o quadro de editores. Escreveu “Campereadas”, de crônicas, contos e causos do Sul.

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