sexta-feira, 11 de julho de 2014

Mensagem para um Amigo



A amizade torna os fardos mais leves, porque os divide pelo meio.

A amizade intensifica as alegrias, elevando-as ao quadrado na matemática do coração.

A amizade esvazia o sofrimento, porque a simples lembrança do amigo é alívio.

A amizade ameniza as tarefas difíceis, porque a nós não as realizamos sozinho. São dois cérebros e quatro braços a agir.

A amizade diminui a distância, embora longe, o amigo é alguém perto de nós.

A amizade enseja confidências redentoras: problema partilhando, percalço amaciado; felicidade repartida, ventura acrescida.

A amizade coloca música e poesia na banalidade do quotidiano.

A amizade é a doce canção da vida e a poesia da eternidade.

O amigo é a outra metade de nós. O lado claro e melhor.

Sempre que encontramos um amigo, encontramos um pouco mais de nós mesmos.

O amigo revela, desvenda, conforta.

É uma porta sempre aberta, em qualquer situação.

O amigo na hora certa é o sol ao meio dia, estrela na escuridão.

O amigo é a bússola e rota no oceano, porto seguro da tripulação.

O amigo é o milagre do calor humano que Deus opera num coração.

Poema ao amigo


Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro há de se lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade, construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.

Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

(Autor desconhecido)


Stand By Me


Compositor de “Stand By Me”, 
Jerry Leiber morre aos 78 anos

Norte-americano manteve uma conhecida parceria musical de 60 anos com Mike Stoller

Compositor de diversas conhecidas músicas, como "Stand By Me,", "Jailhouse Rock" e "Hound Dog," Jerry Leiber morreu aos 78 anos (23.08.2011), em decorrência de falência cardiorrespiratória. A informação é da revista norte-americana Rolling Stone.

Durante 60 anos, Leiber manteve uma prolífica parceria com Mike Stoller, que rendeu inúmeras composições pop. "Quando Jerry e eu começamos a compor, era com a intenção de nos divertirmos", disse Stoller em uma entrevista a Rolling Stone em 1990. Enquanto Leiber focava nas letras, Stoller cuidava das melodias.

Jerry era uma máquina de ideias", contou Stoller em "Hound Dog", livro de memórias lançado nos EUA em 2009.

A carreira de Leiber e Stoller ganhou impulso quando Elvis Presley gravou "Hound Dog" - a canção tornou-se um grande hit. Elvis mudou a letra da música, o que irritou os compositores. “A versão de Elvis não faz sentido para mim e, ainda mais irritante, não é a canção que Mike e eu escrevemos”, Leiber disse em 2009.

A fábrica de hits da dupla continuou nos anos 1960, com "Stand By Me", e nos 1970, com "Stuck in the Middle With You" - esta última gravada pelo Stealers Wheel.


Stand By Me

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid,
No I won't be afraid
Just as long as you stand,
stand by me

Chorus:

So darling, darling
Stand by me, oh, stand by me
Oh stand, stand by me,
Stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea

I won't cry, I won't cry
No I won't shed a tear
Just as long as you stand,
stand by me

Chorus

So darling, darling
Stand by me, oh, stand by me
Oh stand, stand by me,
Stand by me

Whenever you're in trouble,
Won't you stand by me
Oh stand by me,
Oh won't you stand now?
Stand by me


Fique Comigo

Quando a noite tiver chegado
E a terra estiver escura,
E a lua for a única luz que veremos,
Não, eu não terei medo.
Não, eu não terei medo
Desde que você fique,
fique comigo

Refrão:

Então, querida,
Fique comigo, oh, fique comigo,
Oh, fique, fique comigo,
Fique comigo...

Se o céu que vemos lá em cima
Desabar
e cair
Ou as montanhas desmoronarem
no mar
Eu não chorarei, eu não chorarei
Não, eu não derramarei uma lágrima,
Desde que você fique,
fique comigo

Refrão

Então querida, querida,
Fique comigo, oh, fique comigo,
Oh, fique, fique comigo,
Fique comigo

Quando você estiver com problemas,
você contará comigo
Oh, conte comigo
Oh, você não ficará agora?
Conte comigo



Stand by Me (Conta comigo) é um filme americano de 1986, do gênero drama, dirigido por Rob Reiner. O título vem de uma música com o mesmo nome de Ben E. King (que toca durante os créditos finais) e é baseado no conto The Body (no Brasil, “O outono da inocência - O Corpo”, presente na coletânea “As Quatro Estações”), de Stephen King.
  
Gordie Lachance é um escritor, e recorda do verão de 1959, quando tinha doze, quase treze anos e vivia numa pequena cidade do Oregon, quando ele e mais três amigos saem em busca do corpo de um adolescente que estava desaparecido na mata há mais de três dias. O que eles não imaginavam é que esta viagem se transformaria em uma jornada de autodescoberta, que os marcaria para sempre.

Conto Grafológico



É anunciada, a um grande industrial, a visita de uma pobre parenta, a irmã de sua mãe. Recebe-a friamente:

– Depressa, tia Delfina, tenho muito que fazer. Que deseja?

Tia Delfina põe-se a chorar. Entrara cheia de temor no suntuoso edifício de seu riquíssimo sobrinho, e as duas horas de espera acabaram por aviltá-la.

– Vamos, não percamos tempo, diz o industrial. Com lágrimas nada se resolve. Se veio pedir-me dinheiro, previno-a que não lhe darei.

– Não se trata de dinheiro. Trata-se do meu filho.

– Não há lugar para novos empregados.

– Ora, Pedro! Eu soube que na semana passada houve uma vaga na seção de correspondência. Pelo amor de Deus empregue o meu filho!

– Aqui o grau de parentesco não interessa. Acima de tudo está o interesse da indústria.

– Mas é justamente no interesse da casa que eu lhe peço que empregue o rapaz. Ele é formado em ciências comerciais, fala francês, inglês e alemão, é muito ativo e não tem vícios.

– Está bem. Diga-lhe que me escreva uma carta.

– Já a escreveu. Aqui está.

– Deixe-a comigo. Até logo.

Tia Delfina entrega-lhe a carta e sai quase chorando. O grande industrial é tomado de repentina cólera. Que maçada, que aborrecimento esses parentes, que estão sempre a pedir! E, num ímpeto, pega a carta e, rasgando-a, atira-a para dentro do cesto. Com esse gesto, sua cólera desaparece e considera o fato com mais calma. Se o rapaz possui mesmo tantas qualidades boas, talvez pudesse dar-lhe o emprego almejado. Afinal de contas, tia Delfina é irmã de sua mãe…

Arrependido, torna a pegar a carta rasgada do cesto, recompõe-na e, quase como penitência, escreve-a novamente de seu próprio punho. Depois chama o secretário:

– Envie esta carta para a seção de emprego. O candidato é meu parente, mas não quero preferência. O lugar deve ser dado a quem o merecer.

Duas semanas depois o lugar é ocupado, mas não pelo filho de tia Delfina. Esta pede nova audiência.

– Por que não empregou o meu filho? O lugar foi dado a um jovem rico que não precisa dele. Como farei, agora? A quem devo dirigir-me se você não me quer ajudar?

– Que houve no concurso para o emprego? – diz severamente. – Entre os candidatos havia um certo Eugênio Tavares, bom jovem, formado, muito competente. Por que não lhe deram o lugar?

– Verdadeiramente, senhor – diz humildemente o chefe da seção – esse Eugênio Tavares teria sido o melhor de todos. Mas o senhor ordenou que a caligrafia dos candidatos fosse examinada pelo grafólogo para conhecer o caráter, o que foi feito. Porém, esse exame grafológico revelou que quem a escreveu é um sujeito antipático, desonesto, despótico, malvado e vulgar.

Folco Masucci em O livro que diverte; antologia de anedotas,
curiosidades, Contos humorísticos etc. São Paulo, Leia, 1953. p. 169-171.


A história de uma canção



Um dos patrocinadores do programa do Chacrinha (à época, ainda no rádio) era uma tradicional indústria carioca, a U.F.E., fabricante do Sabão Português. Entusiasmado com algumas composições que lhe mostrara o dono da fábrica, o lusitano Fernando César (Fernando César Pereira), Chacrinha insistia junto à amiga Dóris Monteiro para que ela o conhecesse. A cantora, porém, resistia, duvidando que um fabricante de sabão fosse capaz de fazer música.

Até que um dia, atendendo ao pedido do radialista, conheceu Fernando César e adorou suas composições. Tanto assim, que logo escolheu o samba-canção “Dó-Ré-Mi” (que tinha Arlete, mulher do autor, como musa) para gravar: “Você é corpo e alma / em forma de canção / você é muito mais do que / em sonho eu já vi / você é dó, é ré-mi-fá / é sol-lá-si.”

No filme “Canções” de Eduardo Coutinho, 18 pessoas anônimas relembram as canções de suas  vidas. A viúva de Fernando César conta como conheceu o seu marido. Ela teve pólio na infância e fazia fisioterapia num hospital público do Rio de Janeiro, onde conheceu um rapaz que também tinha o mesmo problema. Mais tarde eles se reencontram e começam um relacionamento. No Dia dos Namorados, ele, que tocava violão, disse à moça que não tinha dinheiro para comprar um presente para ela. Falou-lhe que só tinha as sete notas musicais e com isso, ele lhe presenteou com a canção Dó-Ré-Mi. Todos os dias, ao deitar, um cantava para o outro um trecho da canção. No filme, a senhora cadeirante e já viúva, canta para as câmeras a música que já foi gravada por Dóris Monteiro, aparecendo até num filme da Atlântida.

Dó Ré Mi

Fernando César

Eu sou feliz, tendo você sempre a meu lado
E sonho sempre com você mesmo acordado.
Saiba, também, que só você mora em meu coração
E é de você, é pra você esta canção.

É de você que vem a minha inspiração,
Você é corpo e alma em forma de canção.
Você é muito mais do que, em sonhos, eu já vi.
Você é dó, é ré mi fá, é sol lá si.

Um palco, uma cadeira, um personagem

As Canções são mais uma prova desta estratégia. Desta vez, 18 personagens anônimos cantam músicas que marcaram suas vidas e explicam a relação delas com suas trajetórias. Na maioria das vezes, as canções evocam momentos trágicos. Um rapaz revela uma música que compôs em pedido de desculpas ao pai, morto em acidente. Uma mulher viúva relembra a música criada pelo marido. Outra recorda que “Retrato em Branco e Preto”, de Tom Jobim e Chico Buarque, definiu a relação conturbada.

Sem acompanhamento musical, cada personagem expõe momentos delicados de sua vida – geralmente acontecimentos que remetem a decepções amorosas. Em alguns casos, o choro é fácil. Em outros, o riso esconde um pouco de melancolia. De um jeito ou outro, todos tem algo em comum: a fala é sempre eloquente, com força dramática e não importa se o que contam é mentira ou verdade. O que interessa é a autorrepresentação bem sucedida de cada depoente. Essa busca no cinema de Coutinho é tão forte que não há nada no filme além dos depoimentos.


domingo, 6 de julho de 2014

Crônica sobre a Semana Santa

Por Machado de Assis


Machado de Assis - última foto

(A Semana - 25 de março de 1894)

(Alguns parágrafos ou parte de alguns,
por não se referirem diretamente à semana santa,
foram suprimidos para não alongar o texto.)

A semana foi santa, - mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã. Mas então, o que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López, andam muito mais depressa.

(...)

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O domingo de Ramos valia por três. As palmas que se traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhor. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se perceberam a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem várias. Raiava, porém, a quarta-feira das trevas; era o princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, de sermões de lágrimas, até sábado de aleluia, em que a alegria reapareceria, e finalmente o domingo de Páscoa que era a chave de ouro.

(...)

Não sei se chegareis a entender o que me sucedeu agora, indo ver o ofício da Paixão em uma igreja. Outrora, quando de todo o sermão da montanha eu só conhecia o padre-nosso, a impressão que recebia era mui particular, uma mistura de fé e de curiosidade, um gosto de ver as luzes, de ouvir cantos, de mirar as alvas e as casulas, o hissope e turíbulo. Entrei na igreja. A gente não era muita; sabe-se que parte da população está fora daqui. Metade dos fiéis ali presentes eram senhoras, e senhoras de chapéu. Nunca me esquecera o escândalo produzido pelos primeiros chapéus que ousaram entrar na igreja em tais dias; escândalo sem tumulto, nada mais que murmuração. Mas o costume venceu a repugnância, e os chapéus vão à missa e ao sermão. Algumas senhoras rezavam por livros, outras desfiavam rosários, as restantes olhavam só ou rezariam mentalmente.

(...)

Soou o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração, tornando à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado nos dias em que rodeava a Galileia, e, abrindo os lábios, disse-me que a sua palavra dá solução a tudo.

- Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí  está o Eclesiastes que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava.

- Bem-aventurados os eu choram, porque eles serão consolados.

- Vede a injustiça do mundo. “Nem sempre o prêmio é dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo se faz por encontro e casualidade.”

- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos.

- Mas ainda é o Eclesiastes que proclama haver justos, aos quais provêm os males...

- Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino do céu.

E assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus com uma palavra de esperança. Mas já então não era ele que me aparecia, era eu que estava na própria Galileia, diante da montanha, ouvindo o povo. E o sermão continuava. Bem-aventurados os pobres de espírito. Bem-aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...

*****

Sobre essa crônica, Corção diz que Machado termina o relato “com aquele seu ar de quem não sabe que está dizendo coisas enormes.” De fato, esse final é simplesmente espetacular; Machado, contrapondo-se ao pessimismo dos tempos modernos, se transporta a Galileia a ouvir, com o povo, a mensagem de esperança e redenção.



Histórias de Paraquedistas III

Salto noturno


Foto de site da Brigada de Infantaria Paraquedista

Leia a narrativa do Sargento Amacyl Pereira da Cunha



Ly Adorno e Amacyl - anos 50 na Colina Longa

No dia 5 de abril de 1963, eu estava à janela do meu apartamento, em Marechal Hermes, por volta das 19 horas, quando ouvi o barulho dos motores do avião C-82 e, poucos segundos depois, avistei a aeronave que se dirigia para a ZL (Zona de Lançamentos) dos Afonsos; era mais um salto noturno.

Quanto a isso nada havia de extraordinário, porque esses saltos são comuns, pois quase que diariamente são realizados, e eu costumo a assisti-los, como disse, do meu apartamento. Acontece que nesse dia (5 de abril de 1963), havia algo diferente naquele ato, e eu sentia como que uma força estranha a chamar-me à atenção para o que se passava..., foi então que liguei os fatos; realmente, aquele salto não era de rotina, pois, algumas horas antes, o nosso saudoso companheiro Sargento Nicolau havia falecido, vítima de acidente de salto. Então eu compreendi o porquê daquele meu estado de espírito, e fui como que tomado por uma onda de emoção e dúvida. A dúvida que pairava no meu espírito naquele momento era saber por que aqueles bravos soldados do ar estariam saltando? – Seria em homenagem ao heroico Sgt. Nicolau – que morrera horas antes lutando contra as forças (invencíveis) do destino, ou seria simplesmente de protesto e desprezo à traiçoeira morte, a qual havia ceifado a vida de um de seus companheiros? Confesso que naquele momento não consegui resposta a estas perguntas, e a dúvida continuou (e ainda continua) a martelar-me o cérebro...

Por que saltariam eles? Porém de uma coisa tive absoluta certeza: naquele momento tratava-se de uma luta titânica entre os arrojados paraquedistas e a maldita morte, e esta (a morte) fora fragorosamente derrotada e, como que acovardada e trêmula, numa correria louca, fugiu para bem longe, desaparecendo na imensidão da noite.

VENCERA A MÍSTICA DOS PARAQUEDISTAS!

§ § § § §


Ly Adorno e Amacyl - anos 2000, Área de Estágios

Observação: Quando havia um acidente com morte de um paraquedista, no mesmo dia e a qualquer hora do dia, todos eram convocados para saltar, demonstrando, com isso, que não temiam a morte, que a morte não os venceriam. Pelos menos era assim até os anos 60...

Nilo da Silva Moraes


Histórias de Paraquedistas II

A bravura de um Mestre de Salto

Do livro:
 “Ser Pára-quedista 50 anos de Pára-quedismo Militar no Brasil”,
de Ly Adorno, Pqdt 503


O autor:


Ly Adorno equipado para o salto descrito abaixo:

(Foto colorizada pelo Pqdt Stron)

Ly Adorno de Carvalho (07.08.1928 - 20.02.2015), pqdt nº 503. Mestre de Salto nº 197, em 12/03/1953 brevetado em 04/06/1951. Precursor nº 16, em 10/12/1953. FE nº 15 (pioneiro) e Comando nº 14, em 04/07/1958. Primeiro militar na América do Sul a realizar um salto livre operacional, equipado para o combate, em 27/02/1962. Pioneiro salto livre militar, em 02/10/1961.


Ly Adorno no primeiro salto livre operacional da América do Sul*

ZL do Campo dos Afonsos - Rio de Janeiro - 1961

(Foto Serviço Cinefotográfico do Ministério da Guerra)

Depoimento de Ly Adorno

*A história desse salto foi para provar a uma equipe campeão mundial do Exército dos USA, em visita ao Núcleo da Divisão Aeroterrestre, que falou ao Cap FE Saraiva que sair assim era preciso muito treinamento.

O Cap traduziu para nós eu lhe disse: Capitão, diga ao companheiro americano que eu sou capaz de realizar o salto sem qualquer treinamento... Aí, o Cap Saraiva traduziu ao gringo que ficou admirado. Saraiva convocou o fotógrafo do MG e deu nisso.

A história:


O Mestre de Salto é o militar que leva o combatente paraquedista até as proximidades do combate e, na maioria das vezes, comanda o salto, sem vacilar, no próprio campo de batalha sob intenso fogo do inimigo.

A responsabilidade do Mestre de Salto é tão grande que se, por acidente, um paraquedista ficar preso do lado de fora da aeronave, cabe a ele instruir o piloto de como proceder durante o salvamento aéreo, desde que o avião não corra perigo iminente.

No dia 15 de outubro de 1964, o Cabo Expedito Custódio de Aguiar ficou dependurado pelo lado de fora do avião e foi salvo graças à perícia do Mestre de Salto, o primeiro Sargento Aloysio Geraldo Tavares da Silva e do Auxiliar de Mestre de Salto, Sargento Emilson Pessanha Camarinha, este de saudosas lembranças. Tudo passou da seguinte maneira:

A Brigada de Paraquedistas havia montado uma operação tática de treinamento, que consistia da tomada do aeroporto de Campos dos Goitacazes, RJ, onde seriam empregados 1200 paraquedistas em 30 aviões C-82 e C-119. A missão foi precedida de uma equipe de precursores que se lançou à 00h30min do dia do exercício, para balizar o local de aterragem e orientar a reorganização da tropa que seria lançada no mesmo dia. Tudo corria normalmente, quando o C-119, n° 2311, da Força Aérea Brasileira entra na reta de lançamento, na segunda sortida, para a saída dos paraquedistas. O Sargento Geraldo, Mestre de Salto do avião, lança a segunda equipe. E como é dever do Mestre de Salto verificar a realização do lançamento, olha e depara-se com um paraquedista preso ao lado de fora do avião, oscilando violentamente. Tal fato colocava em risco a própria aeronave – a quase 440 km/h – e todos os seus ocupantes.

Incontinenti, o M.S. Sargento Geraldo entra em contato com o piloto, informando-o da ocorrência. O piloto, Capitão Celestino, ciente da gravidade que o fato representava para a segurança de sua aeronave, diz ao Mestre de Salto:

- Sargento, veja lá o que é que você vai fazer; hoje é o aniversário da minha filha e eu quero estar presente.

- Comandante, não se preocupe e, por favor, reduza o motor da direita e aumente a altura de voo; assim evitaremos que o paraquedista venha atingir a aeronave e aumentaremos a segurança para efetuarmos o lançamento do pára-quedista acidentado na hora apropriada.

Preocupado em verificar o estado de consciência do paraquedista preso ao avião... eis que surge novo imprevisto e agora dentro do avião.

Um soldado entra em pânico, se desequipa e é acometido de forte crise. O M.S. Geraldo, mantendo o equilíbrio que a função exige e para qual ele fora treinado convoca o seu auxiliar de M.S. (este é também possuidor do curso de M.S.) o Sargento Camarinha, para que verifique o estado de lucidez do paraquedista que, preso à fuselagem do vagão voador C-19, estava a balançar no espaço como um pêndulo, pondo em perigo a vida de todos e a sua própria vida.

O sargento Geraldo fez com que o Soldado em pânico deitasse no banco do avião, prendendo-o com cintos de segurança. O Sargento Camarinha, na porta do avião, grita para o Cabo dependurado de fora:

- Você está me ouvindo?

Com um aceno de cabeça e com o polegar da mão esquerda para cima, ele confirma que sim.

- Está lúcido, diz o Auxiliar de M.S. para o M.S. Geraldo.

- Mande que ele ponha a mão sobre a cabeça, diz Geraldo para Camarinha.

Ordem retransmitida e executada pelo paraquedista em perigo.

- Mão direita no punho do paraquedas reserva! – diz Geraldo ao seu Auxiliar. Ordem repetida e executada pelo militar acidentado.

- Diga-lhe que vamos cortar a fita de abertura do seu paraquedas e que ele, após isso, conte um mil... dois mil... e, nos três mil, acione o paraquedas de reserva.

- Peça confirmação!

Ordens retransmitidas. Respostas confirmadas.

O avião retorna para a zona de lançamento e acende a luz vermelha. O Mestre de Salto, ao receber a luz verde, na vertical a ponto de lançamento, corta com a sua faca a fita de abertura do paraquedista preso no avião e dá o JÁ... retransmitido pelo seu Auxiliar de M.S. para o Cabo Aguiar. Agora, livre no espaço, graças aos seus reflexos, a sua coragem e aos ensinamentos recebidos na Área de Estágios de Paraquedistas, Aguiar fez exatamente o que lhe foi transmitido: aciona o punho do paraquedas reserva e este, como uma flor branca, desabrocha exuberante, pousando suavemente.

Cabo Expedito Custódio de Aguiar, você, paraquedista testado na dura realidade, fora o primeiro paraquedista no mundo a ser salvo neste tipo de acidente. Todos os demais casos foram fatais.

↑
Cabo Aguiar, no solo, após o acidente

Sargento Aloysio Geraldo Tavares da Silva, comandante que soube comandar! Orgulho para todos nós Mestres de Salto da Brigada de Infantaria Paraquedista.

↑
Aloysio Geraldo* no desfile de 7 de setembro de 2012, em Porto Alegre, RS.

* Cap Aloysio Geraldo Tavares da Silva, Pqdt 789, do Turno 1952/4 - MS 334, Dompsa 39 e CIGS 474.

Do livro:
 “Ser Pára-quedista 
50 anos de Pára-quedismo Militar no Brasil”,
de Ly Adorno de Carvalho, Pqdt 503

Manifesto de Voo − 15 de outubro de 1964

(No avião onde ocorreu o acidente)

01 Cia Int. 1º Sgt Aloysio Geraldo Tavares da Silva → MS do avião – Não saltou

02 Cia Int. 1º Ten Edward Cavalcante Leite

03 Cia Int. Cb Cb Valdeci Mattos Pimenta

04 Cia Int. Sd Raimundo Nonato Silva Neto

05 Cia Int. Sd Sérgio Narciso

06 Cia Int. Sd Paulo Roberto Fernandes da Rocha

07 Cia Int. Sd Guilherme Barbosa Primo

08 Cia Int. 2º Sgt Oswaldo Iório Júnior

09 Cia Int. Sd Artur da Costa

10 Cia Int. Sd Orlando Rodrigo da Silva Filho → Não saltou (vomitou muito)

11 Cia Int. Sd Sebastião Ovídio

12 Cia Int. Sd Edvaldo de Souza Tavares

13 Cia Int. Cb Francisco dos Santos Filho

14 M.M.Bel. 3º Sgt José Adão Soares

15 M.M.Bel. 3º Sgt José Batista de Almeida

16 Cia Int. Sd Adriano Augusto Martins
  
17 Cia Int. Sd Gérson Castelo de Oliveira

18 M.M.Bel. Sd Valcir Veloso

19 M.M.Bel. Sd Wanderlei Lima da Costa

20 M.M.Bel. 3º Sgt João Batista de Souza

21 M.M.Bel. Cb Expedito Custódio de Aguiar → Ficou preso na aeronave

22 M.M.Bel. Sd Paulo Félix de Oliveira

23 Cia Int. 3º Sgt Claro Gonçalves Neto

24 RSD 3º Sgt Flávio Toledo Ribas → (Não saltou, treinador do cão)

25 Colina − Cão Rin-Tin-Tin → (Não saltou)

26 Ciesp 2º Sgt Emilson Peçanha Camarinha → Aux. MS – Não saltou

27 Ciesp 3º Sgt Ronaldo Assad → (Não saltou)

28 RSD 3º Sgt Jorge Carvalho Mendonça → Rec fitas − Não saltou

29 RSD Sd Oswaldo Silva Matos → Aux. Rec fitas N/S − Não saltou

Observações:

01.  Eu, Nilo da Silva Moraes, pqdt n° 11.779, estava nessa manobra que foi realizada em Campos, Estado do Rio de Janeiro, em 15.10.1964.

02. Soares, um fotógrafo gaúcho que tinha um estúdio no, na época, Regimento Santos Dumont, estava no avião que voava ao lado da aeronave onde ocorreu o acidente. Ele tirou a foto abaixo e até a vendeu para a Revista  Fatos & Fotos. Eu fiquei com uma foto (veja a foto abaixo no momento em que é cortada a fita que prendia o cabo Aguiar).

03.  O pouso do hoje Sargento Aguiar, já falecido, não foi nada suave. O paraquedas reserva, por ser menor, faz com que o pouso seja mais violento na aterragem. Aguiar, inclusive, teria se machucado, sem gravidade, ao chegar ao solo.

04.   O Sargento Aguiar, após esse acidente, ficou irreversivelmente gago.

05.   Houve outros acidentes nessa manobra. Um T-6, que fazia voos rasantes sobre a tropa, simulando bombardeios, ao dar uma rasante, bateu com a asa num barranco, caiu, ferindo, sem gravidade, os seus dois ocupantes.


Foto do acidente com o Cabo Aguiar preso à aeronave*

Foto de Antônio Soares, pqdt 5500 do 1959/3,
que, nos anos 60, tornou-se fotógrafo do RSD.

*Na capa do livro está a grafia antiga da palavra "paraquedista", ainda com hífen.


In memorian do Cap Ly Adorno de Carvalho que faleceu em 20 de fevereiro de 2015, aos 87 anos.

Mas o mesmo acidente volta a acontecer...

Militar do 25º BI Pqdt resgata paraquedista preso à aeronave

Em 20 de maio de 2002, o Batalhão participava de um exercício aplicado pelo Centro de Adestramento e Avaliação do Exército, CAADEx, no qual haveria uma infiltração por meio de salto de paraquedas.

O embarque dos saltadores foi na Base Aérea dos Afonsos-RJ. O salto era na ZL de Gericinó-RJ, com uma aeronave C-95 Bandeirante, que faria várias passagens.

Já com os militares na Rodoviária dos Afonsos, os Mestres de Salto iniciam os procedimentos normais de saltos. O então 1º Ten Elmir Leandro Moreira Xavier, pqdt 65899, MS 4616 e ETA 3268, faria o seu primeiro lançamento na tropa depois do curso de Mestre de Salto e teria como o seu Operador de Interfone (Inter) o então 2º Sgt Célio de Oliveira de Castro, pqdt 52272, MS 3916, militar experiente já com seis anos de Mestre de Salto.

Dez saltadores embarcaram armados e equipados e com pacotes na pequena aeronave que taxia e toma voo para executar o lançamento na luz verde fazendo entrada na cabeceira zero oitenta da ZL de Gericinó. O MS inicia o seu trabalho, os comandos são emitidos, e, após isso, inicia a corrida para a ZL, situa-se no terreno e acusa para o Inter: “Na final para o lançamento!” Logo em seguida recebe o “Na rota!” e comanda: “À porta!” A luz verde se acende e escuta-se o enérgico “Já!”.

Sai o primeiro homem com o pacote P2B; o segundo com o P2RM; o terceiro homem, acidentalmente, escorrega e cai na porta abraçando as fitas dos saltadores anteriores, vindo a sofrer secção do bíceps, sendo ajudado pelo Sgt Castro a abandonar o avião. O quarto homem comete exatamente o mesmo erro, vindo também a abraçar as três fitas que pendiam na porta do C-95, porém, agora, o Sgt impede sua saída, livra o seu braço das fitas e o lança no espaço, sendo sucedido pelo quinto homem que, aparentemente, não apresentou problemas no lançamento.

Ao sair o último homem, o Sgt Castro percebe que algo não foi bem, pois uma fita estava muito abaixo das outras que pairavam no batente da porta, e o avião aumentou a sua aceleração, Já prevendo o que havia acontecido, informa ao Tenente que havia um saltador preso à aeronave, O Tenente, ao fazer o procedimento padrão do MS, de checar se todos os saltadores haviam realmente abandonado o avião, observa que o Sd Fabrício está preso ao avião, postando a mão esquerda sobre a cabeça e a direita sobre o punho de comando do paraquedas reserva, procedimento realizado pelo saltador para informar que este se encontra consciente no caso de incidente do tipo homem preso à aeronave.

O velame havia sido extraído da bolsa, porém em forma de charuto, e ficando preso no seu ápice pela fita.

Começa, então, um grande agito no avião. O piloto chama o Inter, pelo interfone e procura saber o que estava se passando, este pede para que ele aguarde. Vendo a situação ficar tensa, com a segunda equipe ainda a bordo, o Sgt Castro pede calma a todo avião e começa a realizar o procedimento de salvamento, entregando a faca de salvamento ao Tenente e pede para que ele passe a prestar assistência ao saltador, e informa ao piloto: “Inter ao piloto: Homem preso à aeronave. saltador consciente. Tome medidas preliminares!”

Enquanto continuava a realizar o procedimento, o piloto, nervoso com a situação, a todo o momento solicitava esclarecimento pelo interfone. Uma vez terminado o procedimento de salvamento, o Inter informou ao piloto: “Pronto para o salvamento!”

Seguem-se os procedimentos de bordo: “Atenção para o lançamento”; “Já!”. O Sgt Castro gritou: “Corta!” O Ten Xavier fez a ruptura da fita.

O MS verificou que a pane do paraquedas principal havia sido desfeita e que o paraquedista seguia normalmente com o seu velame, enquanto que o paraquedas de salvamento seguia para o outro lado carregando consigo as outras fitas.

O Sd Fabrício da Silva Moreira, paraquedista de número 66480, não sofreu nenhuma lesão e prosseguiu normalmente na missão, honrando as tradições paraquedistas. A segunda equipe que permanecia no avião foi lançada normalmente.

O 1º Ten Xavier e o seu Operador de Interfone, o então 2º Sgt Castro, receberam referências elogiosas pelo feito.

“Você pode ficar apenas um ano dentro da
Brigada de Infantaria Paraquedista,
mas a Brigada ficará por toda a vida dentro de você.”