terça-feira, 6 de outubro de 2026

Sinto Vergonha de Mim

 De Cleide Canton e Ruy Barbosa 

Declamado por Rolando Boldrin

 

Sinto vergonha de mim!

Por ter sido educador de parte desse povo,

Por ter batalhado sempre pela justiça,

Por compactuar com a honestidade,

Por primar pela verdade

E por ver este povo já chamado varonil,

Enveredar pelo caminho da desonra. 

Sinto vergonha de mim!

Por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia,

Pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos,

Simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios. 

A ausência da sensatez no julgamento da verdade,

A negligência com a família, célula-mater da sociedade.

A demasiada preocupação com o eu, feliz a qualquer custo,

Buscando a tal felicidade em caminhos eivados

De desrespeito para com o seu próximo. 

Tenho vergonha de mim!

Pela passividade em ouvir sem despejar meu verbo,

Há tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade

Para reconhecer um erro cometido.

Há tantos floreios para justificar atos criminosos,

Há tanta relutância em esquecer a antiga posição,

De sempre contestar, voltar atrás e mudar o futuro. 

Tenho vergonha de mim!

Pois faço parte de um povo que não reconheço

Enveredando por caminhos que eu não quero percorrer.

Eu tenho vergonha da minha impotência,

Da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. 

Não tenho pra onde ir,

Pois amo, amo este meu chão.

Vibro ao ouvir meu hino

E jamais usei a minha bandeira para enxugar o meu suor,

Ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. 

Ao lado da vergonha de mim!

Tenho pena, tanta pena, de ti, povo brasileiro.

De tanto ver triunfar as nulidades,

De tanto ver prosperar a desonra,

De tanto ver crescer a injustiça,

De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus. 

O homem chega a desanimar da virtude,

A rir-se da honra,

A ter vergonha de ser honesto. 

******* 

Rolando Boldrin apresentou em seu programa Senhor Brasil, na TV Cultura, uma famosa declamação do poema “Sinto Vergonha de Mim”, de Cleide Canton, complementado com trechos associados a Ruy Barbosa.   

Sobre a Obra 

Autoria: O texto mescla a sensibilidade da poetisa Cleide Canton com reflexões atribuídas a Ruy Barbosa. 

Tema central: O eu lírico expressa profunda indignação com os rumos da sociedade, a corrupção e a impunidade. 

Mensagem: Há um sentimento de vergonha por ver valores morais e a honestidade cederem espaço aos vícios e à desonra. O texto também traz compaixão pelo povo brasileiro diante do triunfo das nulidades. 

Escute, na internet, a emocionante declamação de Rolando Boldrin no programa Senhor Brasil.

domingo, 4 de outubro de 2026

Dormindo no serviço?

Conheça dez desculpas!

Quer mais? 

Vai para casa dormir! 

01. “Eles me disseram no banco de sangue que isso poderia acontecer.” 

02. “Isto é só um cochilo de 15 minutos para recuperar as energias, como foi ensinado naquele curso de gerenciamento do tempo que vocês me mandaram fazer.” 

03. “Eu estava imaginando como é a vida de um cego.” 

04. “Eu não estava dormindo! Eu estava meditando sobre a missão da empresa e tentando descobrir um novo paradigma.” 

05. “Eu estava verificando se meu teclado é resistente à baba.” 

06. “Eu estava fazendo um exercício altamente especifico de Yoga para aliviar o stress do trabalho. Vocês discriminam pessoas que praticam Yoga?” 

07. “Por que você me interrompeu? Eu estava quase chegando numa solução para o nosso maior problema.” 

08. “A máquina de café está quebrada.” 

09. “Alguém deve ter posto café descafeinado no pote errado.” 

E a melhor coisa a se dizer se você for pego dormindo no trabalho: 

10. “... e em nome de Jesus. Amém!”

Repita comigo:

 Aline A. Moraes*

Eu sou mulher e tenho o direito de estudar, trabalhar, escolher meu próprio caminho, votar e ocupar espaços na sociedade, porque mulheres, antes de mim, lutaram por esses direitos. 

Feminismo não é odiar homens. É reconhecer que mulheres e homens ainda vivem em uma sociedade marcada por desigualdades, e defender que mulheres tenham os mesmos direitos, oportunidades, autonomia e liberdade. 

E sobre esse discurso de “homem é provedor e mulher cuida do lar”: dizer que um homem deve ser o provedor não transforma automaticamente ninguém em provedor. Na vida real, muitas vezes, por trás desse discurso, existe apenas a tentativa de controlar, dominar e determinar qual deve ser o lugar da mulher. 

Enquanto isso, ele vive no seu mundinho azul, onde acredita que pode definir as regras, e espera que ela aceite viver no mundinho rosa que ele escolheu para ela. 

Uma relação pode ter diferentes formas de organização. O que não cabe é transformar uma escolha pessoal em regra para todas as mulheres, muito menos usar esse discurso para limitar a autonomia delas. 

E talvez valha lembrar também: tu já dependeste de serviços públicos em algum momento. Vacina, atendimento de saúde, escola, saneamento básico, segurança, infraestrutura… Tudo isso faz parte da vida real e da sociedade em que vivemos.

 Direitos conquistados não são privilégios. Serviços públicos não são favores. E liberdade não deveria ser confundida com viver dentro do papel que alguém escolheu para ti. Mulheres não precisam de autorização para decidir quem querem ser. 

Então, saia da bolha. Questione os discursos que tentam decidir por ti, conheça a história por trás dos direitos que tu tens hoje e faze escolhas políticas de forma consciente, pensando na tua autonomia e nos direitos que tu consideras importantes. 

******* 

*Psicóloga

sábado, 3 de outubro de 2026

Vote pela República

 Tarso Genro

A extrema direita, esta mesma responsável por Hitler e Mussolini, não pode conquistar democraticamente a capacidade de escravizar um país aos seus preconceitos, ao seu ódio de classe e a sua visão sobre a inferioridade das mulheres e a superioridade da ditadura. A democracia pode, em períodos de crise, ser um bem relativo, mas a ditadura em todos os períodos é o mal absoluto que encarcera a vida, a gentileza e a reflexão. 

O hálito áspero de uma democracia em crise pode ser dissolvido pelo sopro da liberdade e da cultura. Pode ser neutralizado pelo perfume da educação, pelo dissenso regrado em leis, pela saúde da participação cidadã. Esta não é uma eleição da rotina democrática de um país em paz. É um pleito que vai muito além da escolha entre dois projetos de gestão do Estado na República, cujas questões – que estão de fato em disputa – não são aquelas ideológicas em sentido estrito: as controvérsias sobre o significado da democracia que queremos já foram superadas pela Constituição de 88. 

As eleições livres, os direitos da liberdade e da dignidade humana, um estado soberano que defende a paz: eis o que podemos perder. A história nos conta isso: 900 mil mortos, considerando a subnotificação e o excesso de mortalidade agravada pela incúria negacionista e ativista do Presidente anterior na pandemia; 1,6 milhões de armas de fogo colocadas principalmente nas mãos de bandos milicianos; nosso país foi recordista em desmatamento, entrou de novo no Mapa da Fome e saiu do ranking da cobertura vacinal. 

Esta é a eleição mais importante da história republicana, porque corremos o risco de assistir novamente um presidente debochar dos que vão morrer, imitando o arfar dos pulmões enfraquecidos dos nossos compatriotas, como na tragédia do Covid 19. Se Lula for derrotado, os preconceitos mais cruéis, a brutalidade e a truculência miliciana habitarão novamente o Planalto. 

O campo político comprometido com um golpe de estado em movimento é o mesmo que defende que outra pátria tenha o direito e o dever de nos taxar como a uma colônia, sem Constituição e sem soberania. É o mesmo campo que instaurou no país o cercadinho dos jornalistas, humilhados pela prepotência do Führer de opereta. 

A vida ensina que dois campos políticos em disputa, em um regime democrático, sempre têm virtudes e defeitos. Mas a história também ensina que nas lutas eleitorais contra qualquer totalitarismo, este nunca tem virtudes. E mais: que as suas vitórias sempre são anunciações da guerra e da dor física e moral, que atravessam gerações inteiras. Vote bem, vote na democracia! Não é uma questão ideológica, é uma questão de vida ou morte para as próximas gerações.

Sextou

 

A música “Sextou” do grupo Forró da Pegação (também associada a Pedrinho Pegação) foi lançada em 2014 e ajudou a popularizar a famosa expressão de fim de semana no Brasil. 

Detalhes da Música 

Compositores: Gabriel do Cavaco e Shylton Fernandes. Ano de lançamento: 2014 / 2015. 

Letra: A canção retrata a rotina cansativa de trabalho e faculdade durante a semana e a comemoração na sexta-feira (“meu fim de semana chegou, a festa começou, sextou!”). 

Sextou 

Forró da Pegação 

Toda segunda-feira, acordo cedo para trabalhar.

À noite, a faculdade não me deixa descansar.

É só correria, têm problemas todos os dias.

Oh que agonia! Oh que agonia!

Minha vida amorosa está uma decepção.

Tô largado, tô jogado, vivendo de solidão.

Já cansei de fantasia, não suporto mais mentiras.

Oh que agonia! Oh que agonia! 

Mas eu sei que o meu sofrimento pode se acabar.

Vou é reunir os meus amigos pra 'bebemorar'.

O meu fim de semana chegou.

A festa começou. 

Sextou, sextooou!

Hoje ninguém me acha, o celular descarregou.

Sextou, sextooou!

Só chego de manhã agarrado com novo amor.

Sextou, sextooou!

Hoje ninguém me acha, o celular descarregou.

Sextou, sextooou!

Só chego de manhã agarrado com novo amor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O amor não acaba,

  nós é que mudamos. 

Martha Medeiros

Um homem e uma mulher vivem uma intensa relação de amor, e depois de alguns anos se separam, cada um vai em busca do próprio caminho, saem do raio de visão um do outro. Que fim levou aquele sentimento? O amor realmente acaba? O que acaba são algumas de nossas expectativas e desejos, que são substituídos por outros no decorrer da vida. As pessoas não mudam na sua essência, mas mudam muito de sonhos, mudam de pontos de vista e de necessidades, principalmente de necessidades. 

O amor costuma ser amoldado à nossa carência de envolvimento afetivo, porém essa carência não é estática, ela se modifica à medida que vamos tendo novas experiências, à medida que vamos aprendendo com as dores, com os remorsos e com nossos erros todos. O amor se mantém o mesmo apenas para aqueles que se mantêm os mesmos. Se nada muda dentro de você, o amor que você sente, ou que você sofre, também não muda. Amores eternos só existem para dois grupos de pessoas. 

O primeiro é formado por aqueles que se recusam a experimentar a vida, para aqueles que não querem investigar mais nada sobre si mesmo, estão contentes com o que estabeleceram como verdade numa determinada época e seguem com esta verdade até os 120 anos. O outro grupo é o dos sortudos: aqueles que amam alguém, e mesmo tendo evoluído com o tempo, descobrem que o parceiro também evoluiu, e essa evolução se deu com a mesma intensidade e seguiu na mesma direção. Sendo assim, conseguem renovar o amor, pois a renovação particular de cada um foi tão parecida que não gerou conflito. 

O amor não acaba. O amor apenas sai do centro das nossas atenções. O tempo desenvolve nossas defesas, nos oferece outras possibilidades e a gente avança porque é da natureza humana avançar. Não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice. Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Santo Antônio

 

Santo Antônio nasceu em Lisboa, Portugal, no dia 15 de agosto de 1195, e morreu em Pádua, Itália, em 13 de junho de 1231. Franciscano, a ele se atribuem centenas de milagres, como o da aparição do Menino Jesus em seu colo, durante um sermão que fazia na casa de um conde (milagre reproduzido em suas imagens), e o do sermão aos peixes do mar, que o escutaram com atenção. 

Um dos milagres mais famosos atribuído ao santo é o de ter consolado uma jovem que, em virtude da pobreza, não conseguia casar, já que a família não tinha condições de preparar a festa, pagar o dote e o enxoval necessários. Frei Antônio a abençoou e, em poucos dias, a moça recebeu doações inesperadas e conseguiu se casar. Antônio passou a ter, então, a fama de arranjar casamentos. 

Curiosidade 

Nas festas juninas era muito comum que moças casadouras fizessem promessas ao santo para conseguir a felicidade matrimonial. São conhecidas, na tradição popular, as famosas “negociações com o santo”. Enquanto Santo Antônio não arruma o casamento, a imagem é submetida a castigos: é colocada atrás da porta, junto ao fogo, molhada de cabeça para baixo em um poço etc. Era hábito comum que nas festas juninas do interior as moças solteiras jogassem nas fogueiras bilhetes para Santo Antônio, com pedidos de sorte no amor. Tais hábitos expressavam  costumes de sociedades patriarcais, profundamente machistas, em que as mulheres eram vistas como destinadas ao casamento. 

Do Almanaque Brasilidades

Um inventário do Brasil popular,

de Luiz Antônio Simas