sexta-feira, 24 de junho de 2016

A verdade


Arthur Azevedo




Gabinete de trabalho. O Juquinha chegou do colégio, entra para tomar a benção ao pai, Dr. Furtado, que está sentado numa poltrona, a ler jornais.

Juquinha – Benção, papai?

Dr. Furtado – Ora viva! (Depois de lhe dar a bênção.) Venha cá, sente-se ao pé de mim. (Juquinha senta-se). Saiba que estou muito zangado com o senhor.

Juqunha – Comigo?

Dr. Furtado – O diretor do colégio deu-me uma bonita informação a seu respeito!

Juquinha – Esta semana só tive notas boas.

Dr. Furtado – Não é dos seus estudos que se trata, mas do seu comportamento.

Juquinha – Eu não fiz nada.

Dr. Furtado – O diretor disse-me que o senhor não abre a boca que não pregue uma mentira! Isso é muito feio, senhor Juquinha!

Juquinha – Mas, papai, eu...

Dr. Furtado – O homem que mente é o animal mais desprezível da criação! Retire-se. (Juquinha vai saindo penalizado. O pai adoça a voz.) Olha, vem cá. (Juquinha volta.) Tu sabes quem foi Epaminondas?

Juquinha – Lá no colégio tem um menino com esse nome.

Dr. Furtado – Não é esse. Ainda não sabes, mas hás de lá chegar, quando estudares a história da Grécia. O Epaminondas, de quem te falo, era um general tebano, vencedor dos lacedemônios, que ficou celebre não pelos grandes feitos que cometeu, como também porque não mentia nem brincando.

Juquinha – Então nem brincando a gente deve mentir?

Dr. Furtado – Nem brincando! A mentira é degradante. Degradante e inútil: o mentiroso é sempre apanhado. A sabedoria das nações lá diz que mais depressa é pegado um mentiroso a correr que um coxo a andar. O homem honrado – presta-me toda a atenção! – o homem honrado não mente em nenhuma circunstância da vida, ainda a mais insignificante! (Batem palma no corredor.) Quem será? Algum importuno!

Juquinha – Papai, quer que eu vá ver quem é?

Dr. Furtado – Vai, e se for alguém que me procure, dize-lhe que não estou em casa.


FIM

Referência: AZEVEDO, Artur. Teatro a vapor. São Paulo/Brasília: Cultrix/MEC, 1977.



Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo (São Luís, 7 de julho de 1855 – Rio de Janeiro, 22 de outubro de 1908) foi um dramaturgo, poeta, contista e jornalista brasileiro.


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