sábado, 25 de junho de 2016

Mendigos


Nestor de Holanda


O mais honesto pedinte que encontrei estava, uma noite, na Cinelândia. Ele se aproximou cambaleante de nosso grupo – eu, Jaime Costa, Frazão, Delorges Caminha, Silva Filho, André Villon, Fernando Costa, Armando Rosas, Arlindo Costa, Santos Garcia e outros – e pediu:

- Dai uma esmola a um pobre bêbedo, pelo amor de Deus!...

Outro, igualmente sincero, foi visto pelo Governador Eraldo Gueiros, recentemente, no interior de Pernambuco. Havia muitos anos que o mendigo posava de cego, nas feiras. Um dia, surgiu de aleijado. Perguntaram-lhe:

- Desistiu de ser cego, Zé?

- Desisti.

- Por quê?

- Porque me passavam muito dinheiro falso...

O comum dos que pedem na via pública, porém, é a insinceridade. Quando Joraci Camargo escreveu Deus lhe Pague, com o falso mendigo, filósofo e milionário, discutiram a realidade do tema. Entretanto, nada mais verossímil. Hoje, no Rio de Janeiro, a mendicância é comércio dos mais rendosos...

Ainda há dias, um motorista de praça me contou a história de uma dona que, todas as manhãs, vem pra cidade de táxi. Num quarto que alugou, veste o “uniforme de trabalho”. Pede esmola até a noite, e, depois, de tornar a meter o paisano, toma outro táxi, para regressar a casa. Ganha, em média, 100 cruzeiros por dia. Trabalhando cinco dias por semana (Porque ela faz “semana inglesa”...), fatura cerca de 2 mil cruzeiros por mês. Quase 12 salários mínimos...

Muitas alugam crianças e surgem, ante a caridade pública, caracterizadas de mãe infeliz. Há um mendigo na cidade, segundo me informaram, que mantém amante de luxo, em apartamento da Zona Sul, tal qual o personagem que Procópio criou, na famosa comédia de Joraci Camargo. E é fato corriqueiro a polícia descobrir que muitos têm conta no banco e são até proprietários de imóveis...

Por essas e outras, vi (e contei aqui) quando um pedinte, logo cedo, estendia o jornal velho num canto de calçada, perto do edifício do Ministério da Fazenda, para instalar-se. E um popular que passava:

- Está abrindo seu banquinho, hein?!...

Enfim, os fatos mostram que a situação está de tal maneira que não se pode confiar nos mendigos, porque, como o uísque, nunca se sabe quando são legítimos ou falsificados...

x.x.x.


Nestor de Holanda (Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto) nasceu a 1º de dezembro de 1921, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco e faleceu em 14 de novembro de 1970, no Rio de Janeiro.

Jornalista e escritor, tendo trabalhado em diversos jornais, rádios e televisões brasileiras. Pernambuco: tendo trabalhado na Gazeta do Recife, Jornal Pequeno, Jornal do Comércio e Diário da Manhã. É dessa época, a comédia-histórica Nassau, transmitida pela Rádio Clube de Pernambuco.

Trabalhou também como compositor de música popular, em parceria com Levino Ferreira, Ernani Reis, Nelson Ferreira e João Valença.

No Rio de Janeiro foi redator de A Cena Muda, Revista da Semana, Brasilidade, Vida, Deca, e das rádios Vera Cruz, Transmissora e Educadora.

Após a Guerra, trabalhou nos jornais: Folha Carioca, Democracia, O Imparcial, A Noite, Folha do Rio, Shopping News, Diário Carioca, Última Hora e Diário de Notícias; nas revistas: Manchete, A Noite Ilustrada, Carioca. nas estações de Rádio: Clube Fluminense, Cruzeiro do Sul, Clube do Brasil, Globo, Nacional e Ministério da Educação e Cultura. Nas emissoras de televisão: Continental, Excelsior, Rio.

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